Belém celebra o Dia Municipal do Carimbó com a arte de Pinduca
Aos 89 anos, o Rei do Carimbó prepara-se para um show histórico com Eliana Pittman no Festival Psica e organiza, desde já, a celebração dos 90 anos em 2027
Entre os muitos belenenses e visitantes de Belém que nesta quarta-feira (26) celebram o Dia Municipal do Carimbó, está um artista com 89 anos, nascido em Igarapé-Miri e que tem sua vida toda atrelada a esse gênero musical e dança. Trata-se do Aurino Quirino Gonçalves, o mestre Pinduca. “Sem o carimbó, o Pará seria um estado muito silencioso, porque o carimbó é de alegria”, afirma Pinduca, em entrevista ao Grupo Liberal, às vésperas do Festival Psica em Belém, quando então, de 11 a 13 de dezembro, ele se reencontrará com a cantora Eliana Pittman, artista que gravou as músicas de Pinduca e, assim, contribuiu para a propagação dessa música que é uma das caras do Pará. Será um show histórico e inédito.
Pinduca não se preocupa com a passagem do tempo, como frisa. Por isso, não tem ao certo quantas décadas de carreira tem na música. “Ficar contando o tempo atrapalha a pessoa, faz você se preocupar, e a preocupação é uma das maiores doenças da humanidade”, pontua. Mas a relação desse artista com a música vem desde que começou a aprender as “cabeças de nota” com o pai, José Plácido, professor de música em Igarapé-Miri, no nordeste do Pará, onde Pinduca nasceu. Aos 13 anos, o menino foi aprender a tocar pandeiro. E o Pinduca ficava, então, acompanhando as músicas que eram tocadas no sistema sonoro de rua, ou seja, a voz do poste.
Certo dia, um irmão dele, o Pio, que tocava em uma orquestra de bailes, as famosas jazzi, convidou Pinduca para ser o pandeirista desse grupo musical. E, então, eles foram tocar na Festa do Rosário na Vila de Maiauatá. Ninguém acreditava que o garoto fosse dar conta do recado. A orquestra começou a tocar, porém, quando tocou “Mambo nº 8”: “Eu peguei a maraca e, quando começou a tocar, eu levantei e comecei a dançar. Dançando ali, porque o músico só tocava sentado”. E foi um fenômeno nunca visto antes, um sucesso. “Aí começou”, relembra Pinduca. Ele começou como baterista, mas, ousado, virou cantor, cantor de carimbó, e dos bons, como mostrou ao longo da carreira.
Pinduca se encantou com o carimbó assim que viu a animação das pessoas dançando em um baile em Marapanim. Tempos depois, ele decidiu gravar o carimbó, mas ninguém sabia o que era. Com muita luta, Pinduca gravou o gênero musical pelo Selo Copacabana, e o disco estourou no Brasil todo.
Carimbó para todo mundo
Nessa caminhada musical de Pinduca, a cantora carioca Eliana Pittman tem uma participação muito especial. “Ela (Eliana) foi fazer um show no Maranhão e, de manhã, ela foi à praia, lá no Maranhão. Chegou lá, ela viu um pessoal dançando ali na praia. Ela se aproximou, para ver o que era. Aí ela: ‘Mas o que é isso aí?” Aí perguntou para um rapaz. O rapaz falou: ‘É carimbó’. ‘Carimbó? O que é carimbó?’. ‘É lá do Pará, é música do Pará’. ‘E quem é esse cantor?’ ‘É o Pinduca’. ‘O Pinduca, vocês conhecem?’ ‘Não, ninguém conhece ele, não’. Eu era novo”, conta Pinduca
Eliana quis comprar o disco, mas a turma pediu alto por ele. Ela desistiu. Ao chegar no Rio de Janeiro, ligou para Pinduca, demonstrando interesse em gravar as músicas dele, e o artista concordou com a iniciativa dela. “Aí ela gravou e deu um estouro, porque ela era cantora internacional, só gravando música em inglês; o pai dela, maestro, professor de música também. E aconteceu assim, ela arrebentou a boca do balão”, conta Pinduca.
Esse artista define o carimbó como a música e a dança da identidade do Pará. No começo, Pinduca enfrentou preconceitos ao cantar carimbó. Mas, com inventividade, como na adoção do seu nome artístico, no chapelão repleto de itens da cultura popular paraense e, sobretudo, pela alegria contagiante dele nos shows, Pinduca superou tudo e sempre seguiu em frente.
Ele, inclusive, rebate que nunca houve algum problema com o músico e compositor Augusto Gomes Rodrigues, o Mestre Verequete (1916-2009), em cuja homenagem foi estabelecido o Dia Municipal do Carimbó (Lei nº 8.305 de 2004) . “Era ele fazendo o carimbó de raiz e eu fazendo o moderno. Então, mas eu respeitava ele, ele me respeitava, eu era amigo dele, ele era meu amigo e a gente se falava, mas o pessoal criava ali uma picuinha, mas não existia. Nunca existiu entre eu e o Verequete”.
“Eu espero comemorar os meus 90 anos com um grande show. Quando o meu pai completou 100 anos, eu tive uma alegria e uma surpresa feita pelos meus irmãos, meus parentes, lá em Igarapé-Miri. Eu já era o Pinduca, dono de conjunto e orquestra aqui em Belém. Mas, de repente, eles fizeram toda a programação, pediram que eu reservasse esse dia para eu ir lá fazer uma apresentação. Então, o meu pai, já com 100 anos, sentado, e aí eu aqui fazendo show para ele. Eu, filho, fazendo show para ele. Eu quero fazer alguma coisa também que marque. Eu ainda estou resolvendo se eu vou fazer em Belém ou lá em Igarapé-Miri”.
No meio da entrevista, Eliana Pittman conversa por telefone com Pinduca, a quem chama de “meu ídolo, meu rei, meu tudo”. Ela e Pinduca celebram o reencontro no Psica. “Agora, agora, não tem mais jeito; agora, tá lascado”, diz, Eliana, animada. À reportagem do Grupo Liberal, a cantora destacou que o público pode “esperar tudo e mais alguma coisa; não pode ser de menos, entendeu?”. Nesse clima todo de Pinduca e Eliana Pittman, cabe a quem mora em Belém ou visita a cidade ouvir um carimbó e animar este dia especial para a cultura paraense.
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