Arte Pará impulsiona a cena artística amazônica
Em novembro de 2026, essa Mostra Competitiva chega à sua 42ª edição como um suporte para artistas regionais na interação com a produção de outras regiões do Brasil e com o público
A trajetória do Arte Pará, desde o ano de 1982, a partir do empreendedorismo de Romulo Maiorana, idealizador e fundador do Grupo Liberal, até os dias atuais, é fruto de muitas mãos. Até a 42ª edição desse evento, cuja proposta sempre foi de valorizar e divulgar as artes plásticas produzidas na Amazônia, em particular, no Estado do Pará, em diálogo fértil com a produção de outros centros do Brasil, são muitas imagens, formatos, técnicas e conceitos, unindo gerações de artistas e o público em uma troca contínua. Em 2026, não será diferente. O Arte Pará, este ano, será aberto em 5 de novembro, em sintonia com os 80 anos de história do Jornal O Liberal. Ou seja, irá escrever um novo capítulo dessa caminhada com a arte, a fim de celebrar o que já foi conquistado e o que se conquista desde já neste momento. Nessa empreitada, dois artistas, entre tantos outros, destacam-se pelo protagonismo em seu ofício com pegadas deixadas e compartilhadas no Arte Pará: PP Conduru e Jorge Eiró.
Artista plástico e poeta, Jorge Eiró tem uma relação profunda com o Arte Pará. São 46 anos de carreira, e com um lugar especial nessa Mostra Competitiva nessa caminhada com as artes. "Demarco como início de minha trajetória a participação no I Salão Arte Pará em 1982". Em outras palavras, a contribuição de Jorge Eiró às artes plásticas amazônicas e brasileiras ao longo desse tempo todo contou como nasceu e se consolidou esse evento na Cidade de Belém.
O encontro de Eiró com as artes plásticas se deu cedinho, como ele conta. "Sempre gostei de desenhar, desde muito cedo. As artes plásticas são o meio de expressão da minha relação com a vida, com o mundo, com meus afetos e referências estéticas".
"Participei diversas vezes do Arte Pará, como artista competidor no certame e como convidado. Fui premiado nos salões de 1985 e 1993. Foram 12 participações, salvo engano", detalha o artista. Eiró não tem dúvida sobre a importância do Salão na sua vida artística. "Foi decisivo! Imagine um garoto de 22 anos, em sua primeira exposição, ter seu trabalho comentado pelo poeta João de Jesus Paes Loureiro no catálogo da exposição. Faço parte de uma geração que foi revelada pelos salões do Arte Pará, a tal 'Geração 80' paraense".
Ele define o Arte Pará como "uma plataforma de projeção da produção artística brasileira, tanto de amostragem como de reflexão e pensamento crítico". Eiró diz que a maior contribuição desse evento é "a difusão da produção local, o diálogo com a produção nacional, a construção de um pensamento crítico sobre nossa produção e a formação de novas plateias". E celebra a chegada do evento cultural à 42ª edição: "Um sintoma de maturidade, persistência e legitimidade artístico-cultural".
Como poeta e artista plástico, Jorge Eiró mantém uma conversa constante e produtiva com as imagens. "Meu trabalho sempre se caracterizou por uma relação simbiótica entre palavra e imagem. A imagem visual em interface com a imagem poética. Alguém já falou que o meu trabalho se configura como 'palavras pintadas ou pintura falada' das minhas referências afetivas. Não por acaso, meu trabalho exposto no I Salão Arte Pará intitulava-se 'Novas Poesias em Quadrinhos', um trabalho que reunia imagens e textos, que o poeta Paes Loureiro chamou de 'poesia-praxis'. Considero um trabalho seminal que se mantém como um marco de minha identidade visual".
Entre almas
PP Conduru é um artista irrequieto, dono de um estilo singular nas artes plásticas amazônicas. Ele é capaz de colocar em telas cenas labirínticas ambientadas em plena Floresta Amazônica, bem como expressões diversas de um único rosto, por exemplo, a revelar sentimentos múltiplos nos espectadores de suas pinturas. PP participou com três obras do Arte Pará em sua segunda edição, em 1983, e foi logo premiado. Esse artista não é muito afeito a salões de arte, mas gostou da experiência no Arte Pará, inserida em um processo abrangente de valorização e consolidação das artes plásticas paraenses na época. Conduru participou de mais duas edições da Mostra e ganhou ao todo dois prêmios.
Ele conta que, quando o Arte Pará surgiu, no começo dos anos 1980, Belém e a própria região Norte do Brasil apresentavam-se como um local isolado em relação ao restante do país. Ele lembra, inclusive, que no começo de sua carreira, nos anos 1970, as referências eram todas europeias, pois não se tinha acesso a informações sobre os processos de produção e apresentação de artes plásticas no sudeste do Brasil. 'E o Arte Pará passou a funcionar como uma espécie de vitrine para os artistas na cidade e para fora dela, também', destaca.
Quando participou pela primeira vez do Arte Pará, PP Conduru não tinha nem dez anos de carreira. "Então, o Arte Pará teve visibilidade na cidade, as pessoas tomaram conhecimento da minha existência como artista", ressalta. A participação de PP no Arte Pará ocorreu em uma época em que ele tomou parte com destaque em outros salões no País, como o Salão Nacional de Artes Plásticas no Rio de Janeiro e a 2ª Mostra de Desenho Brasileiro, em Curitiba (PR).
PP Conduru decidiu ser artista plástico em 1974. Portanto, de lá para cá, são 52 anos de uma produção intensa. Conta que nunca deu muita bola para o que a arte significava para ele, ou seja, era "uma incógnita imensa". Mas, com o passar dos anos, PP Conduru consegue ter uma definição sobre essa prática.
"A arte, para mim, é uma alma se expressando para as outras almas. É uma coisa meio telepática, é uma coisa maior do que só essa visão intelectual, egóica, né? É um propósito de vida da minha alma de se expressar dessa forma. E ela se expressa para outras almas, sempre tem alguém interessado em ver o que eu faço, porque eu fiz para alguém ver. Então, é mais ou menos esse circuito todo.Tudo o que tu colocas no universo, alguém está esperando para ver, uma coisa assim", revela PP.
PP nunca trabalhou com uma técnica só ou apenas um tema. "Minha alma é inquieta". Teve situações constrangedoras por isso, mas sempre tirou de letra e mantém esse propósito até hoje e, mais do que nunca, degusta o seu próprio processo criativo.
O Arte Pará 2026 é uma promoção do Grupo Liberal, com realização da Fundação Romulo Maiorana, e está agendado para ser aberto em 5 de novembro. Essa Mostra Competitiva tem curadoria da artista plástica Keyla Sobral.
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