Tempos modernos, 90 anos, a engrenagem política de Chaplin
Leia o texto do professor e pesquisador Relivaldo Pinho, escrito especialmente para O Liberal.
Não são muitos os filmes das primeiras décadas do cinema que trazem imagens tão reconhecidas como “Tempos modernos”, de 1936. Todos já viram a imagem de Chaplin deslizando entre as engrenagens como se estivesse em um transe mecânico e do qual ele não consegue acordar.
Como em muitos de seus filmes anteriores, ele retoma aquilo que o consagrou, a inversão dos sentidos das coisas, de sua utilidade, de sua função, como nos ensina a leitura perspicaz do crítico francês André Bazin.
Quando a primeira plaqueta abre o filme dizendo se tratar “de uma história da indústria, de um desafio individual e da humanidade e a busca da felicidade”, poderíamos ter a impressão de que teríamos um filme repleto de cenas e diálogos de papo cabeça e sacadas existenciais.
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Mas quando Carlitos logo está na linha de montagem taylorista apertando os parafusos e, como não consegue se controlar, aperta os botões do vestido de uma funcionária, nós não conseguimos pensar nisso como algo sério, evidentemente. Mas é sério, ou, pelo menos, acabou se tornando.
André Bazin levanta, para mim, uma tese decisiva para o filme, a de que se “Tempos modernos” fosse realmente uma obra anticapitalista, teríamos uma oposição clara entre patrões e empregados, especialmente nas fábricas.
Mas essa oposição não existe assim demarcada. Os operários do filme são tão ridicularizados como o próprio Carlitos, eles não surgem como heróis, ou como revolucionários, mas peças de uma engrenagem do riso.
A política aí não seria um manifesto (vejam “O grande ditador”, 1940, e seu clássico discurso final), mas ela atravessaria as cenas cômicas entre alavancas, parafusos e os apitos da fábrica.
Para alguns, esse riso não seria um riso qualquer. As “gags” pelas quais o vagabundo e sua companheira passam, acabariam se torando uma fábula tão bem construída que haveria ali, sim, uma atitude deliberadamente política.
Não só da luta dos homens contra as máquinas que criam, mas principalmente, da luta para se habituar a um mundo em crise (a Grande depressão de 1929) e que, ao mesmo tempo, precisa se reerguer.
Carlitos a todo momento arranja um novo emprego e, por sua inabilidade e inversão dos sentidos das coisas, é preso logo em seguida. Andando trôpego, ele sempre cai e tenta de algum modo contornar a queda. Ele tenta se reerguer.
Às vezes é melhor fechar os olhos para os perigos que estão a todo momento ao nosso lado e tentar passar de raspão na vida sem que ela nos derrube novamente. Enganar temporariamente a dura realidade das coisas, diríamos.
É o que vemos na belíssima cena da patinação na qual o vagabundo está com os olhos vendados à beira de uma sacada no interior da loja de departamentos, um dos seus empregos do qual será demitido. Quando lhe retiram a venda ele volta pra realidade e, nervoso, mal consegue ficar de pé. Volta a ser trôpego, desajeitado. A vida exige dele um equilíbrio que sua natureza não pode oferecer. E é essa sua graça. Ele dá uma banana pro mundo.
Esse riso também traria algo além da mera fruição gratuita do prazer hilariante, ou do extravasamento do clássico cinema norte americano (talvez eu esteja falando com Walter Benjamin aqui).
Mas as risadas provocadas pelo vagabundo poderiam proporcionar, por rir em situações de perigo, ou infortúnio, algum tipo de abertura dos olhos para coisas que os homens fazem e com as quais ele tem que lutar. Rir poderia fazer pensar.
Fora das fábricas, quando finalmente Carlitos obtém algum êxito, interpretando em um restaurante o que ele realmente é, um palhaço, novamente as coisas se desmoronam e ele novamente tem que fugir da realidade, daquele (deste?) mundo.
Vejam, até quando ele interpreta a si mesmo, sua felicidade é momentânea. Sim, todas as felicidades são. Ele não é o resultado de uma sociedade que o oprime, ele é uma peça única que naquela (nesta?) sociedade não se encaixa.
O grande diretor Jean Cocteau diria que Chaplin seria “o riso esperanto”. Eu creio que Cocteau estava se referindo muito mais à possibilidade de uma utopia em Chaplin, a de que para ele o mundo poderia um dia ser mais justo.
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Mas essa utopia é posta à prova a todo momento em “Tempos modernos”. Esse mundo das engrenagens do filme foi erguido sobre as leis que, em parte, vivemos ainda hoje, no dia a dia.
“Tempos modernos” envelheceu bem. Menos por ser um libelo político contra o capitalismo, mas por ainda nos fazer rir diante de nossa pretensão de um sucesso interminável. Diante da pretensão da ideia de que precisamos apenas puxar uma alavanca, ou apertar um botão para que tudo flua, rode, engrene perfeitamente.
Não raramente percebemos que, de repente, estamos dentro das próprias engrenagens que nós mesmos acionamos.
Mas, mesmo em um mundo de máquinas gigantescas, é preciso vê-lo com alguma esperança de felicidade.
Isso está no discurso final de esperança do vagabundo. Sua companheira caminha com ele por uma estrada deserta, ele se vira para ela e estica os lábios imitando um sorriso, como um palhaço, e pede que ela faça o mesmo.
Ela faz, ela o imita. Ela finalmente entendeu que a vida é um desafio individual, mas também é a busca por uma felicidade humana.
(Relivaldo Pinho é escritor, pesquisador e professor. Autor de, dentre outros livros. “Antropologia e filosofia: experiência e estética na literatura e no cinema da Amazônia”. Edufpa)