Cine Olympia completa 114 anos fechado; veja como está a obra e previsão de reabertura
Símbolo da cultura paraense passa por restauro complexo e terá nova configuração interna
O Cine Olympia completa 114 anos nesta sexta-feira (24) ainda com as portas fechadas ao público. Considerado um dos cinemas de rua mais antigos da América Latina, o espaço segue em processo de restauração e modernização, mas sem uma data oficial de reabertura. Segundo a Secretaria Municipal de Cultura, aproximadamente 75% da obra já foi concluída, e a nova estimativa aponta para entrega no segundo semestre de 2026, com expectativa para o mês de agosto.
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Fechado desde 2020, o Olympia teve sua obra anunciada pela Prefeitura de Belém em abril de 2023, com previsão inicial de conclusão em cerca de um ano. No entanto, quase três anos após o fechamento e dois anos depois do início efetivo da intervenção, os trabalhos ainda não foram finalizados.
Uma das novidades da obra foi a recuperação do arco original da fachada, que havia sido descaracterizado ao longo das décadas. O projeto, coordenado pelo Instituto Pedra com financiamento público e privado, também inclui reforço do telhado e a restauração de pinturas e esquadrias originais.
De acordo com a secretária municipal de Cultura, Raphaela Segadilha, o andamento da obra envolve desafios técnicos típicos de edificações históricas. “A gente entende que é uma obra muito complexa. Então, a cada restauro, é descoberto algo [novo] no Cine Olympia, como a questão do arco da fachada. Isso fez com que o projeto fosse refeito, reanalisado e reestruturado para dar continuidade ao restauro”, afirmou.
A programação futura do cinema também está em fase de planejamento. Segundo a secretária, a ideia é que o espaço funcione não apenas como sala de exibição, mas também como ambiente educativo e cultural. “Universidades e escolas poderão participar, além de uma sala de exposição voltada à memória do cinema. A intenção é valorizar o cinema paraense e amazônico”, explicou.
Ela acrescentou que o projeto inclui acessibilidade e novos usos para o público. “Queremos que as pessoas não só assistam aos filmes, mas também desfrutem da exposição e do espaço como um todo. Vai ter um bar em vidro, de onde será possível acompanhar a movimentação. A proposta é receber pessoas de todas as idades”, afirmou.
O arquiteto da Secretaria Municipal de Cultura (Secult), Jorge Pina, explicou que o prédio já passou por diferentes transformações ao longo do tempo. Segundo ele, o cinema foi inaugurado em 1912 com uma fachada eclética, que posteriormente sofreu alterações ao longo das décadas, passando por influências do art déco e do modernismo.
“O Olympia teve três grandes reformas antes da atual intervenção: uma nos anos 1940, que alterou sua fachada para um estilo mais geométrico; outra posterior, com elementos modernistas; e agora, a restauração que busca recuperar características originais do edifício”, acrescentou de forma resumida.
Ainda de acordo com o arquiteto, a etapa estrutural da obra está próxima de ser concluída. “A obra de engenharia está prevista para finalizar no fim de maio. Depois disso, entra a fase de instalação de equipamentos, como poltronas, projetores modernos e a montagem da ‘sala de memória’”, explicou.
A sala de exibição será reconfigurada, com redução de cerca de 400 para 255 assentos, abrindo espaço para a criação de um bar e de um ambiente expositivo dedicado à história do cinema.
Para o pesquisador e crítico de cinema Marco Antônio Moreira, o Olympia ocupa um lugar central na formação cultural de gerações de espectadores. “É difícil dimensionar, mas ele é uma referência enorme para espectadores paraenses de todas as gerações”, afirmou.
Ele destacou que o cinema teve papel importante na construção da relação do público local com a sétima arte ao longo do século. “O Olympia ajudou a construir uma paixão pelo cinema em diversas décadas, com uma programação que marcou gerações”, disse.
Sobre a expectativa em torno da reabertura, ele considera o momento como parte de um processo necessário. “É uma situação diferente de um cinema fechado sem perspectiva. Aqui há uma restauração em andamento. É uma questão de tempo para um novo capítulo do Olympia”, disse.
O pesquisador também comentou a ansiedade do público. “Essa expectativa dos cinéfilos é positiva. Eu também faço parte disso. Mas é preciso entender que restaurar um prédio de 114 anos não é simples”, afirmou.
Memória e afeto
Para quem frequentava, o fechamento temporário deixa saudades que vão além da programação cultural. A profissional de marketing e cinéfila Daniele Lima, que começou a frequentar o cinema em 2019, relembra a experiência como algo singular.
Segundo ela, assistir a filmes no espaço tinha um significado diferente. “Eu gostava de ir com amigos ver filmes de terror, principalmente clássicos. Tinha um clima totalmente diferente, quase sobrenatural, que fazia a gente se sentir conectado ao passado”, contou.
Daniele também destaca a ausência do cinema na rotina cultural. Ela afirma que o espaço fazia parte dos planos quando o assunto era assistir a filmes. “Foi uma falta grande. Não só para mim, mas para muitas pessoas que tinham o Olympia como referência”, disse.
Após o fechamento, ela passou a frequentar outros cinemas da cidade, como redes comerciais e até o Cine Líbero. Ainda assim, aponta diferenças na experiência. “Sinto falta da organização que existia no Olympia. Espero que, quando reabrir, ele traga novidades, mas sem perder a essência”, afirmou.
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