Com quase 113 anos de história, um instrumento musical ajuda a contar parte da trajetória do cinema e da formação musical no Pará. Fabricado em 1913, o piano que pertenceu ao Cine Olympia, em Belém, guarda a memória da época em que as sessões de cinema ainda eram mudas e dependiam da música ao vivo para dar emoção às imagens projetadas na tela.
Nas primeiras décadas do século XX, o cinema mudo, marcado pela ausência de som devido às limitações tecnológicas da época, se apoiava em recursos visuais, intertítulos e principalmente na trilha sonora executada ao vivo. No Cine Olympia, inaugurado em 1912 e considerado o cinema mais antigo em funcionamento no Brasil, esse papel era cumprido pelo piano, responsável por conduzir as emoções do público durante as exibições.
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O instrumento, fabricado em 1913, foi adaptado para resistir ao clima úmido da Amazônia, o que contribuiu para sua preservação ao longo do tempo. Durante anos, ele acompanhou sessões em que pianistas improvisavam ou seguiam partituras para criar a atmosfera sonora que dialogava com as cenas exibidas na tela.
Com a chegada do cinema sonoro no final da década de 1920 e início dos anos 1930, o piano deixou de ser utilizado nas sessões. Na época, o Cine Olympia ainda era um empreendimento privado e, com a nova tecnologia, o instrumento foi vendido para o empresário paraense Clóvis Ferreira Jorge, avô da musicista Márcia Aliverti.

“Esse piano foi comprado pelo meu avô, que era empresário em Belém. Ele adquiriu o instrumento quando o Cine Olympia passou a trazer filmes com som e não havia mais necessidade de ter um pianista tocando durante as sessões”, conta Márcia.
Clóvis Ferreira era conhecido na capital paraense por sua atuação no setor de transportes, à frente da empresa de ônibus Viação América, famosa pelos veículos cujo formato lembrava os dirigíveis rígidos alemães conhecidos como Zeppelins.
Na residência da família, o piano ganhou uma nova função. O instrumento passou a ser utilizado pela professora de música Mavilda Aliverti, mãe de Márcia, que transformou a peça histórica em ferramenta de ensino. Hoje com 86 anos, Mavilda começou a estudar piano ainda criança, aos 10 anos, e utilizou o instrumento para formar gerações de músicos.
“A minha mãe deu aulas nesse piano. Nele começaram a estudar todas as filhas e muitos alunos que hoje também são professores de música”, relata Márcia.
Com o passar das décadas, o piano acabou sendo vendido para uma aluna de Mavilda. Anos depois, durante um recital, Márcia reencontrou a antiga estudante e soube que o instrumento seria colocado à venda novamente. A decisão de recomprá-lo foi motivada pela memória afetiva e pelo valor histórico.
“Eu sempre achei esse piano lindo. Quando soube que ele estava à venda, comprei de novo e trouxe para casa”, lembra.
Atualmente, o instrumento já não pode mais ser tocado, pois a restauração da mecânica interna teria um custo elevado. Mesmo assim, ele permanece preservado como uma relíquia familiar e como testemunho de um período marcante da história cultural de Belém.
Enquanto o Cine Olympia passa por obras de restauração, a trajetória do piano reaparece como um fragmento vivo da memória da cidade.“É um piano que trabalhou bastante, formou muita gente e tem muita história”, resume Márcia.
(Riulen Ropan, estagiário de Jornalismo, sob supervisão de Abílio Dantas, coordenador do núcleo de Cultura)
