Roda de samba reúne mulheres cantoras e instrumentistas em Belém

O II Encontro de Mulheres na Roda de Samba chega a Belém e reúne artistas como Mariza Black, Ana Paula Castro e Ruth Costa

Enize Vidigal

Uma roda de samba só de mulheres, pela integração, pelo empoderamento e pela música. Este ano, Belém aderiu ao II Encontro de Mulheres na Roda de Samba, um evento que acontece hoje, em 25 cidades brasileiras e também em Lisboa, em Portugal, La Plata, na Argentina, e Florença, na Itália, simultaneamente. Na roda de Belém estarão várias intérpretes, compositoras e instrumentistas, como Mariza Black, Ana Paula Castro, Cris Matos, Ruth Costa, Lorena Matos, Flávia Anjos e Melina Foro, que, junto a outras, totalizam 30 artistas.

A programação homenageia Leci Brandão e inclui roda de conversa, poesia e feira do empreendedorismo feminino. O evento inicia às 15 horas, na sede do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Piratas da Batucada, com transmissão ao vivo do show pelo perfil mulheresnarodadesamba, do Facebook, a partir das 17 h.

Apesar de o Brasil ter tido nomes emblemáticos no samba nacional, como Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra e Clara Nunes, historicamente, as mulheres foram excluídas das rodas de samba. "Antigamente, nas rodas de samba, as mulheres atuavam na cozinha, não tocando e cantando", relata a cantora Mariza Black, que organiza a roda em Belém junto com Melina. "Esse evento está servindo para dar uma visibilidade maior e também para chamar as mulheres para ocuparem esse espaço".

No repertório haverá samba-enredo, samba dolente, samba de breque e partido alto. "Vai ser uma roda de samba com todas interagindo", descreve. O entusiasmo contagia as musicistas: "Tem mulheres que estão aprendendo a tocar o ganzá para essa roda. E que esse instrumento despertou a vontade de aprender percussão".

Uma referência histórica do samba no Pará é Creuza Gomes, uma das pioneiras na interpretação de sambas-enredo no estado. Por motivo de saúde, ela não participará da roda. Já Mariza, que marca presença na roda, é uma das principais referências da atualidade local. Na cena do samba feminino, ela é uma privilegiada, investe em uma carreira nacional e é uma das poucas com álbum lançado (Samba Parauara, 2019), mas só conseguiu concretizar esse sonho após 15 anos de estrada.

Trocar as panelas pela percussão e violão foi um desafio enfrentado por algumas delas. A cantora, compositora, violonista e percussionista Cris Matos, veio de uma família de músicos, e, no início da carreira, cansou de ser perguntada sobre o motivo de não estar na cozinha junto com as outras mulheres. "Quando me chamavam para ir pra cozinha, eu perguntava: 'Tu sabes tocar violão?'", recorda entre risos. Com 30 anos de carreira, ela é a única mulher da família que atua na música.

"Tudo isso são barreiras que a gente tem que vencer. Nós, mulheres, sempre temos que estar provando que temos capacidade. Eu sei cozinhar também, mas se estiver rolando uma música eu vou querer batucar!", completa. Hoje, ela desenvolve o projeto "Violão Sambado", que circula pelas noites de Belém. "Estamos ocupando um espaço maravilhoso (com essa roda). É importante registrar que tem mulher sim nas rodas de samba de Belém".

A cantora Lorena Moraes, que iniciou carreira no samba há nove anos, afirma que o espaço da mulher no samba é pequeno, mas está expandindo. "A gente tem a esperança de ser aceitas no samba. Vi pessoas que não acreditavam que uma mulher pudesse levantar a bandeira do samba, apesar de que, quando comecei, tinham mulheres que puxavam samba-enredo, mas não tinham evidência como os homens. A gente foi conquistando esse espaço com garra. Hoje, vemos mulheres como a Mariza, a Creuza Gomes, a Cris Matos, Alba Mariah e Gigi Furtado fazendo shows de abertura em casas de samba".

Mariza Black (Divulgação)

Mulheres se empoderam e ocupam espaços masculinos

Para organizar essa roda de samba, foram chamadas as dirigentes, puxadoras e compositoras de sambas-enredo das agremiações carnavalescas de Belém, como a cantora, compositora, e produtora cultural Ruth Costa, que atua na Piratas da Batucada e, ainda, desenvolve os projetos "Ki Roda", uma roda de samba de protagonismo feminino, e "Sambarimbó", pelas ruas do bairro da Cidade Velha. "O papel da mulher do samba é importantíssimo e é também um ato político. A gente tem divas que são inspirações para nós, Tia Ciata, que levou o samba de roda para o Rio, Dona Ivone Lara, que foi a primeira mulher a ter um samba-enredo na avenida, mas que alguns de seus sambas foram assinados por homens porque ela sendo mulher não poderia assinar (na época). Essas situações são reflexo da sociedade estruturalmente machista. Nós, mulheres, na roda de samba, ainda encontramos algumas dificuldades", afirma. "Nas minhas rodas, eu procuro não cantar músicas que desvalorizem ou depreciem a mulher. É importante nós nos posicionarmos e nos apoiarmos. E esse evento valoriza e incentiva as mulheres estarem onde elas quiserem".

Encontrar instrumentistas, especialmente percussionistas para a roda de samba de Belém, foi um grande desafio. Pois há poucas mulheres nessa seara do samba. Renata Reis e Chris Souza são ritmistas do Donas do Batuque, uma bateria da Império do Samba Quem São Eles formada apenas por mulheres. "Felizmente, algumas escolas de samba estão começando a formar baterias-show só com mulheres", celebra Mariza. Outra instrumentista que estará nesse show é a flautista Dulce Cunha.

A cantora Ana Paula Castro também assume o cavaquinho. Ela é multiinstrumentista e integra a Orquestra de Choro do Pará. 'Sempre gostei de cantar. Estudei violão aos 10 anos. Me identifiquei com o samba. Tenho três anos de carreira e, tenho a oportunidade de ter a ajuda de outras profissionais mulheres, que estão sempre se fortalecendo e tentando atuar juntas . A cena do samba é majoritariamente masculina, mas essa roda é justamente para atrair as mulheres e somar para a MPB. Belém do Pará é uma terra de grandes intérpretes, como a Olívia Melo com mais de 40 anos".

Agende-se:

II Encontro de Mulheres na Roda de Samba
Dia: Sábado, 9
Hora: a partir das 15h
Local: Escola de Samba Piratas da Batucada (Trav. do Chaco, 147, entre Rua Antonio Everdosa e Rua Nova, Pedreira)

Cultura
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