OCÉLIO DE JESÚS C. MORAIS

OCÉLIO DE JESÚS C. MORAIS

Escritor, PhD em Direitos Humanos e Democracia pelo IGC da Faculdade de Direito Coimbra; Doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); Idealizador-fundador e 1º e atual presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS, Cad. 01), acadêmico perpétuo da Academia Paraense de Letras (CAd. 08), da Academia Paraense de Letras Jurídicas (Cad. 18) e da Academia Paranaense de Jornalismo (CAd. 29) e Juiz Federal do Trabalho.

Sobre a estima e o desprezo

Océlio de Morais

Se nos fosse dada uma segunda chance para voltar no tempo e fazer de modo certo aquilo que fizemos de modo errado, o que poderíamos fazer? Mais ou menos assim é o sentido do diálogo entre Jenna Rink (Christa B. Allen) – a adolescente de 13 anos descontente com sua própria idade, e mãe, Phil Reeves, no filme “De repente 30”, (13 Going on 30), 2204) com direção de Gary Winick .

No filme, triste e rejeitada por amigos, a adolesente quer ser reconhecida e aceita como ela é, mas não é. Por isso, quer logo ser adulta. Como milagre, seu desejo é atendido e lá está ela com 30 anos, pulando a escala natural do tempo e das coisas. 

Quero usar esse tema para, neste breve ensaio reflexivo,  tratar de outro: a amizade honesta, a partir das compreensões dos sentimentos da estima e do desprezo.  

Meu ponto de partida é o seguinte:  a amizade  honesta designa a liberdade, porque revela a essência de espíritos livres e de bons costumes que se encontram e constroem juntos caminhos solidários em busca da felicidade.  Sobre o desprezo, a argumentação é essa: O desprezo, velado ou explícito, uma espécie de assédio moral. 

  A estima, porque é sinonímia de  afeição e apreço, no fundo também designa amizade. E amizade é um valor tão especialmente sublime – por isso não aceita joguetes de conveniências –  que direciona a vida para os valores da fraternidade e da solidariedade sinceras.

A amizade honesta – existem compadrios para o mal, todos sabemos  – tem por essência a sinceridade, por isso, é aquela que está acima dos interesses oportunistas. 

Certamente por isso Aristóteles qualificou a amizade  como "uma única alma habitando dois corpos”, haja vista que a ética entre amigos os eleva à condição de coobrigados ou corresponsáveis pela mútua felicidade que almejam viver.

Por outro modo: a amizade é o elo que atrai irmãos e também pessoas desconhecidas, fraternizando-as como se possuem uma só alma para objetivos existenciais marcadamente comuns pelos laços da fraternidade, da honestidade e da solidariedade. 

 Logo, a amizade honesta é um valor moral que decorre da liberdade de escolha: queremos amigos que comunguem iguais ou semelhantes valores éticos. A amizade honesta – Aristóteles a qualifica como sincera nutrida por valores nobres , distinguindo-a da amizade interesseira –  designa, desse modo, a essência de espíritos livres e de bons costumes que se encontram e reencontram para caminharem solidariamente juntos em busca da felicidade. 

Na amizade honesta, o bem-estar de um amigo é a felicidade do outro e vice-versa.

O desprezo, oposto da estima, é aquele sentimento de repulsa em face do outro, às vezes motivado por antipatia, por inveja ou cobiça.

Isso pode ser identificado em qualquer ambiente. Um exemplo: num ambiente de trabalho onde colegas ou superiores – especialmente superiores –  falam mal de você como forma de menosprezar seus valores e dificultar por todas as formas  suas possibilidades de inclusão e ascensão profissional. Isso é desprezo causado pela inveja, que designa – do ponto de vista da ética filosófica –  a mesquinharia da alma.

Aliás, num dia desses, ouvi um podcast do padre Fábio  de Melo, tratando exatamente do desprezo  nos ambientes sociais. Ele refletia sobre a extrema dificuldade de viver num ambiente em que as pessoas vivem colocando defeitos umas nas outras. É o desprezo mútuo.  “Como é difícil sobreviver em um lugar onde as pessoas sobrevivem colocando defeito na gente, como é difícil crescer como pessoa num ambiente onde as pessoas têm um olhar extremamente pessimista sobre nós”, disse Fábio de Melo.

O desprezo em relação à felicidade ou ao êxito profissional  do outro tem uma finalidade subjacente: levar a pessoa desprezada ao autodesprezo, sentir-se inútil – fato que pode levar à depressão ou ao suicídio, se a pessoa desprfezada não tiver fortaleza espiritual.

 Na inveja, a questão é a seguinte:  para o invejoso, para as pessoas que não gostam da gente ou ainda para os inimigos visíveis ou invisíveis, a gente nunca terá valor algum.  Haverá sempre o desprezo. Mas o invejoso, que é uma espécie de inimigo oculto, por ser soberbo, nunca admite que tem inveja ou que alimenta o seu espírito na soberba.

O desprezo é, assim,  uma hostilidade sutil ou explícita em face da dignidade do desprezado. O desprezo é, por isso, uma espécie velada de assédio moral. 

Num outro  podcast, um ex-militar contava que ninguém queria um soldado na sua seção, porque era muito problemático. 

E o major, numa sala reservada, recebeu o soldado, mostrou-lhe um caderno novo e disse-lhe: a partir de hoje, você vai esquecer tudo o que escrevem, pensam e dizem de você, você vai esquecer os seus erros e vai reescrever a sua história. Tudo agora depende de você aqui nesta seção para o seu sucesso. E o soldado, depois daquele espírito acolher,    tornou-se um soldado exemplar.

O caso mostra  que o  respeito profissional é marca inerente do líder habilidoso, aquele que sabe acolher e potencializar as possibilidades de crescimento dos seus soldados  ou dos seus colaboradores ou dos seus iguais.

Mas o invejoso não possui essa qualidade.  O  invejoso – uma pessoa vazia de bons valores – despreza a felicidade ou as conquistas do outro, precisamente porque é dominado pelos sentimentos da soberba e da cobiça. O desprezo pela felicidade ou vitória do outro revela um  espírito menor, atordoado pelos vícios  da avareza e mesquinharia. 

A estima e o desprezo são temáticas subjacentes do filme “De repente 30?”. No filme, Jenna Rink se sente rejeitada e desprezada. A  forma que imaginou para superar tudo aquilo foi chegar logo à vida adulta, fugindo daquelas angústias de adolescente. Achava que na vida adulta teria acolhimento, estima e bons amigos.

A moral da história do filme “De repente 30”, me ao que disse Paulo de Tarso, em 1 Coríntios 13:11 “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.”. 

Mas, Jenna Rink perdeu as experiências que seriam naturais entre os 13 e os 30 anos, já que 17 anos foram pulados na escala natural do processo de aprendizado. Perdeu a chance de naturalmente falar como menina, sentir como menina, discorrer como menina. O desprezo lhe retirou tudo isso. No final das contas, veio o arrependimento, queria voltar atrás, mas as coisas já não eram como no passado. 

Moral da nossa crônica: a amizade honesta, antítese da amizade interesseira, é uma virtude que contribui para a busca da felicidade, ainda que o inimigo espalhe armadilhas pelo caminho.  A alma virtuosa que habita dois corpos – por ser acolhedora – é a semente do bem para superar  os desafios da vida e vencer as armadilhas do inimigo.

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ATENÇÃO: Em  observância à Lei  9.610/98, todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma: MORAIS, O.J.C.

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Océlio de Morais
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