Mártires das virtudes Océlio de Morais 16.08.23 8h57 Toda aquela mínima consciência da condição efêmera da vida, aquela que reflete sobre o papel humanista de cada um, possivelmente já se perguntou, diante da crescente corrupção das coisas do mundo: qual proveito resulta viver as virtudes e defendê-las? Quando o olhar se volta ao passado das vidas de pessoas virtuosas, a resposta imediatamente primária é a seguinte: ser preso, castigado e morto por apego à virtude não é para qualquer um. É um ato de extrema sublimação e de despojamento material, que vence o medo em nome de uma nobilíssima causa – aquele tipo de causa que transcende o âmbito individual e serve de paradigma (exemplo ou modelo) virtuoso para a humanidade. A história registra diversos casos reais – casos que, aos olhos de hoje, é possível compreender melhor a dimensão humana daqueles que morreram em defesa das virtudes. Não cuidarei especificamente, mas faço a referência, dos casos do profeta João Batista (cabeça decapitada e servida numa bandeja para Salomé e à sua mãe, Herodias, por ordem de Herodes), nem dos apóstolos Pedro (crucificado de cabeça para baixa por ordem do Imperador romano Nero, o mentor da execução da própria mãe, Agripina Menor); Paulo (o romando Saulo de Tarso, também decapitado por ordem de Nero); Bartolomeu (discípulo de Jesus, ensacado com vida e lançado ao mar, morreu afogado), de Lucas apóstolo de Jesus, pendurado e martirizado numa árvore até morrer); ou de Thomas More (o filósofo decapitado que ainda teve a cabeça exposta por 30 dias na ponte de Londres, por ordem do Rei Henrique VIII, por se recusar a reconhecê-lo como líder supremo da Igreja Anglicana e por não reverencia a Ana Bolena) . Um parêntesis: remeto o leitor também à leitura da crônica filosófica "Thomas More e a Liberdade" (2023: p. 51-54), que integra o meu livro "Liberdade Filosófica" ensaios sobre o humanismo , editora Dialética (SP. Fecho o parêntesis. Nesta pensata sobre a nobreza da virtude – os casos referidos são emblemáticos para todo o sempre – vou dedicar maior atenção às mortes de dois filósofos por autoenvenenamento, assim condenados porque foram fidedignos aos próprios ensinamentos filosóficos que apregoavam como valor de vida pessoal, às pessoas e às relações sociais daqueles tempos. Na Roma antiga existiam dois Senecas: o “Velho” e o “Moço”. Marco Aneu Sêneca, o “velho” (ano 54 a.C a 39 d.C), foi o orador e retórico, o pai de Sêneca (ano 4 a..C. a 65 d.C) o “Moço”, nascido em Córdoba, e chamado Lúcio Aneu Sêneca. Essa distinção é oportuna para que não se confundam entre os dois Sênecas qual deles foi condenado a cometer o suicídio. Literato e filósofo estóico, Sêneca (o “Moço”) foi o principal conselheiro de Nero – aquele que tornou-se imperador, a partir dos 17 anos, não por ser filho direto do Imperador Cláudio (Tibério Cláudio César Augusto Germânico) – que o nomeou sucessor –, mas, sim, por ser filho de Júlia Agripina Menor, a imperatriz-consorte, bisneta do Imperador César Augusto, o primeiro imperador Romano. Como todo poder tem suas redes e teias perigosas e, também, projeta consequências imprevisíveis, com Sêneca (o “Moço”) não foi diferente. Sua automorte (suicidio) decorre daquelas redes e teias perigosas do poder romamo, o poder corrompido por todas as formas e expressões. Primeiro, foi exilado para Córsega – uma espécie de fim de mundo na Roma antiga – acusado de cometer adultério com Júlia Lívia, filha do imperador Cláudio. Mas, por influência de Agripina Menor, foi permitido o seu retorno à cidade de Roma, a mesma mulher que o indicou para exercer o cargo de principal conselheiro do seu filho, Nero – o sanguinário imperador que, mais tarde, executou a mãe e um meio-irmão, e outros membros da família, porque se sentia ameaçado por eles. Segundo, veio a condenação à automorte. Afinal, quem desagrada e desafia o poder não fica impune. Assim também aconteceu com o filósofo e a esposa. Acusado de conspirar contra o trono de Nero. O imperador, sem provas e sem julgamento, esqueceu as virtudes e os ensinamentos do ex-mestre e o condenou à automorte (o suicídio). Isso aconteceu também porque o filósofo – após a morte do imperador Cláudio – criticou o autoritarismo deste imperador e por ter afirmado que ele era rejeitado pelo povo e pelos deuses, conforme relatado na sua obra “Transformação em abóbora do divino Cláudio". O Senado romano não se insurgiu contra a condenação do filósofo. E Sêneca, na presença de amigos, cortou as veias dos dois pulsos (e a esposa também), e, em seguida, sufocou-se num banho a vapor. Nero, por sua vez, cometeu o suicídio no ano 68 d.C. Com Sócrates (470 a.C.-399 a.C) – portanto, bem antes de Sêneca – a morte também foi por suicídio inudzido. Mas, distintamente das causas do autosuicídio de Sêneca, o filósofo “sábio dos sábios” não manteve relações com o poder constituído de sua época. No livro “Fédon (A imortalidade da Alma)”, Platão narra que Sócrates foi acusado e condenado (também sem provas) de corromper a juventude e profanar os deuses, conforme constava na “Ata de Acusação”: “Sócrates comete crime corrompendo os jovens e não considerando como deuses os deuses que a cidade considera, porém outras divindades novas”. Como todos os que se opõem à corrupção do poder são eliminados – assim registra a história como ocorreu com o próprio Jesus – Sócrates também foi eliminado pelo sistema político da época. A condenação do filósofo grego, pela assembleia dos atenienses , foi ao autoenvenenamento. O maior filósofo grego de todos os tempos – narra Platão na obra “Apologia de Sócrates” – fez a própria defesa na assembleia e acusou o sofista Mileto de caluniá-lo e de manipular as informações e para a assembleia desacreditá-lo e condená-lo. A verdade – ela é identificada em “Fédon” e em “Apologia” – é que Sócrates, com suas lições e modos de vida concretamente virtuoso – ensinava os jovens a não se corromper, condenava a corrupção dos sofistas e do poder ateniense e afirmava que os deuses não silenciavam ou não compactuavam com a corrupção dos modos de vida e nem dos líderes do povo. Sócrates aceitou o resultado da condenação, sem abdicar de suas convicções, tanto que recusou a chance de fuga que o carcereiro – a pedido de amigos e admiradores de Sócrates – havia prometido facilitar. Mas o filósofo a recusou, justificando que, se fugisse, estaria negando as virtudes que tanto ensinou e defendeu. Sócrates, ainda conforme a obra “Fédon “, ao ver os amigos chorando por sua causa, pediu que se alegrassem, pois estava compartilhando com eles um “dia bem-aventurado”. E também pediu em seguida: “tragam logo o veneno, se estiver pronto; senão, cuide de prepará-lo (...). Vamos, continuou: obedece- me e só faças o que eu digo.” Antes de tomar o veneno, conversou alegremente com seus amigos na prisão, perguntou ao carcereiro qual seria a dose necessária para provocar a morte, pediu para tomar banho (a fim de não “dar trabalho às mulheres” para lavar e vestir seu cadáver) e, por último, pediu um favor ao amigo para pagar um dívida de um galo com Asclépio. Ao beber o veneno, que lhe fora entregue por um menino numa taça, Sócrates – e como orientado pelo carcereiro – deu algumas voltas na sela, sentiu as pernas pesadas, o coração acelerado, falta de ar e sensação de desmaio, finalmente deitou-se, pronunciando as últimas palavras: - “Critão, exclamou Sócrates, devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!”, narra Platão em Fédon, destacando que “foram suas últimas palavras”, naquele finalzinho de tarde e início da noite, na Colina Filopapos, em Atenas, num dia do ano 399 a.C. Por certo, se tivesse aceitado o plano de fuga, Sócrates teria entrado para a história como um covarde e sua filosofia não teria contribuído para a evolução do pensamento filosófico sobre as virtudes preciosas do humanismo. A história registra a vida dos homens virtuosos como exemplos a serem seguidos, mas também registra a história daqueles que se corrompem pelo dinheiro e por tudo o que deste decorre. A história perpetua as virtudes, assim como condena à perenidade a história daqueles que se deixaram corromper pelas coisas do mundo. Na virtude, repousa a tranquilidade da alma livre. Da corrupção das virtudes, se alimenta a mente e o coração corrompidos, entorpecendo e tornando a alma prisioneira do próprio veneno. Encerro esta pensata com um excerto de meu livro “Liberdade filosófica”, no ensaio intitulado “Sócrates e a Liberdade” (2023, p. 13-15): “Sócrates levou às últimas consequências a liberdade de escolha ou do livre arbítrio, vinculando às duas regras inerentes à alma ou essência humana: a justiça e a moral, fora das quais não existirá liberdade verdadeira ". ------------------------- ATENÇÃO: Em observância à Lei 9.610/98, todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma: MORAIS, O.J.C.; Instagram: oceliojcmoraisescritor Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞 Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱 Palavras-chave colunas oceliodemorais COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA Océlio de Morais . Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo! Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é. 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