O.J.C. MORAIS

OCÉLIO DE JESÚS C. MORAIS

PhD em Direitos Humanos e Democracia pelo IGC da Faculdade de Direito Coimbra; Doutor em Direito Social (PUC/SP) e Mestre em Direito Constitucional (UFPA); Idealizador-fundador e 1º presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (Cad. 01); Acadêmico perpétuo da Academia Paraense de Letras (Cad. 08), da Academia Paraense de Letras Jurídicas (Cad. 18) e da Academia Paranaense de Jornalismo (Cad. 29) e escritor amazônida. Contato com o escritor pelo Instagram: @oceliojcmorais.escritor

Embora imortal, a Alma pode ser corruptível , conforme a filosofia de Jesus

Océlio de Morais

Um dos temas fascinantes da filosofia antiga, notadamente no mundo grego, era a imortalidade da alma, a qual era compreendida como  “o princípio da vida individual, sede da personalidade, da vontade dos afetos, das emoções ou dos sentimentos".  

Essa concepção pode ser refletida a partir da leitura da obra  “Fédon – A imortalidade da alma”, de Platão, onde também refere-se ao Espírito como  a essência eterna do ser humano,  porque  “é o ordenador e causa de todas as coisas”, cuja função é a busca da felicidade com base verdade e da felicidade,  que se alcança quando se desprende das necessidades corpóreas (físicas).

Abro um  breve parêntesis: recorde-se,  o leitor, que, em Fédon, Platão narra o último dia de  vida de seu mestre, o filósofo Sócrates, que havia sido condenado a beber cicuta, sob a acusação de subverter a juventude e de negar a divindade da   da cidade e de introduzir novas divindades. 

Mesmo sem comprovação das  acusações, Sócrates foi condenado pelo tribunal   ateniense em 399 a.C., sob o comando de seus algozes no tribunal:  Anito (um influente líder político), Meleto (um jovem poeta que, mesmo sem conhecer Sócrates, assinou a petição de acusação) e Lícon (orador representante do grupo dos oradores retóricos).  Em Fédon,  Sócrates dialoga com discípulos sobre a virtude da justiça, a imortalidade da alma, a sua ligação  com o corpo e sua e a libertação dele. Fecho o parêntesis. 

Jesus também fala da imortalidade da alma, mas numa perspectiva filosófica e teológica  diferente  daquela encontrada em Fédon. A percepção e visão  filosófica de Jesus, conforme relatos evangélicos,   sobre Alma e Espírito, baseia-se numa distinção   fundamental entre vida humana e princípio divino. 

Alma humana é apresentada como a referência ou núcleo central  da existência pessoal, animando a vida corpórea em busca da verdade libertadora, daí a sua natureza imortal, como pode ser constatado no Evangelho segundo Mateus 10,2: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a aAma como o corpo.”

Por seu turno, Platão via a alma como princípio racional e imortal, devido à dualidade entre o mundo sensível (a matéria) e o mundo inteligível (que era o mundo das ideias ou mundo externo), sendo que a Alma  –  por ser do plano intangível e incorruptível –  era  a própria essência divina do ser humano. 

Observemos bem – na perspectiva teológica de Jesus –  que a eternidade da Alma não significa santidade angélica, por isso,  a imortalidade não a torna isenta de “perecer no inferno”. 

Assim, diferentemente de Platão, o sentido filosófico, aqui, é que a Alma é corruptível. ou seja, a Alma imortal (passível de  padecer no inferno) também pode ser corrompida. – visão que é complementada  em Marcos (8:3), Mateus (16:26) e Lucas ( 9:25):   “Pois,  que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou o que o homem poderá dar em troca da sua Alma?"

A perspectiva filosófica é a de que a Alma tem por fortaleza as virtudes como riquezas espirituais, pois, de outro lado,  as mesquinhas e corrompidas conquistas  materiais  levam à perda  da  Alma, e, por isso,  vem a consequência: a Alma corruptível vai  “padecer no inferno” como espécie de purgação e reparação do desvio da sua  essência..

Com oposição àqueles que consideram que a vida corpórea é apenas uma condição humana, que cumpre o ciclo natural (nascer, crescer, envelhecer e morrer, e nada mais além disso existe), a teologia de Jesus sustenta interligação entre corpo e Espírito, conforme narrado em 1 Coríntios: 16-20:

– “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? 

E, ainda, em Eclesiastes (12:7):  "E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu",

Na filosofia da revelação de Jesus, o Espírito –  diferente da Alma – é um princípio de Deus, portanto, é  a essência superior da natureza humana, aquele que transcende a matéria, afirmação que é encontrada em  João (3,6): “O que é nascido da carne é carne; o que é nascido do Espírito é espírito.”

O que vemos aqui é que a pessoa humana  holisticamente é   matéria perecível pela simples condição biológica, representada pelo corpo; a Alma imortal (o princípio racional vida humana, intangível, mas corruptível ) e o Espírito  (o princípio que advém de Deus, por isso, é a aquela inerente capacidade que o ser humano tem de entrar em comunhão com Deus).

Isso faz todo sentido, à medida que Jesus apresentou-se com essa completude: corpo, Alma e Espírito. O exemplo  cabal foi o momento crucial (e extraordinariamente divino de Jesus no último suspiro humano, na cruz lá no Monte Gólgota, naquela sexta-feira do ano 33 da tradição cristã: Fisicamente agonizante, disse Jesus: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.”  (Lucas 23,46). O espírito de Jesus despede-se do corpo, sendo entregue ao Criador. 

Podemos concluir assim:  a Alma é corruptível porque é  ligada  à  vida individual do ser humano, enquanto que o Espírito – como  Aquele nasce de Deus – tem por princípio  compulsório voltar  do Senhor dos Mundos ao  final da vida corpórea. 

Se , nas perspectivas filosófica e teológica, esta pensata fez algum sentido para você,  deixou-lhe a última mensagem-advertência de jesus para os especiais  com o corpo e com o Espírito:  “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus: 26, 41).

 

ATENÇÃO: Em  observância à Lei  9.610/98, todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma: MORAIS, O.J.C.;  Instagram

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