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OCÉLIO DE JESÚS C. MORAIS

Escritor, PhD em Direitos Humanos e Democracia pelo IGC da Faculdade de Direito Coimbra; Doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); Idealizador-fundador e 1º e atual presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS, Cad. 01), acadêmico perpétuo da Academia Paraense de Letras (CAd. 08), da Academia Paraense de Letras Jurídicas (Cad. 18) e da Academia Paranaense de Jornalismo (CAd. 29) e Juiz Federal do Trabalho.

A inveja do profeta

Océlio de Morais

No ensaio sobre a inveja, sob o título “Os filhos da inveja”, abordei o tema como uma das fragilidades humanas, mas fazendo uma conexão na mitologia e na filosofia.

Nele, adotei para a reflexão o pensamento de Tomás de Aquino  na Suma Teológica, onde o teólogo-filósofo  afirmou que a inveja é uma espécie de tristeza que tem por objeto um mal  (ou desprezo) pelo bem de outrem.  E ainda definiu a inveja como  um mal sentimento da alma triste que despreza o bem do outro.

Agora, dou sequência ao tema, através de uma abordagem mais teológica sobre a inveja. A reflexão quer encontrar raízes teológicas do problema da inveja que era evidente em relação a Jesus. Assim pensei como título “A inveja do projeta”. 

A proposição condutora da reflexão é a seguinte: a inveja, falibilidade humana que entorpece a alma, cega os olhos à verdade que liberta. 

Além do primeiro crime de fratricídio que a humanidade registra  motivado por inveja  – o assassinato de Abel por Caim – caso também referido no ensaio “Os filhos da inveja”,  o próprio Jesus Cristo, o maior Profeta dos profetas de tooso os tempos, também foi alvo inveja dos seus conterrâneos nazarenos.

Por ser o filho de José, homem humilde e um simples carpinteiro daquele pequeno povoado de Nazaré da Galiléia, Jesus foi invejado e rejeitado por seus concidadãos. 

Natanael, um israelita que depois se tornou um dos 12 apóstolos de Jesus – mas com o nome de Bartolomeu – de início,  duvidou que algo bom pudesse vir de Nazaré, tão inexpressivo que era o povoado à época de Jesus.

Jesus,  todos sabemos, nasceu em Belém da Judéia, mas viveu no povoado de Nazaré a partir da infância e boa parte da juventude. Isso ocorreu  depois do retorno do Egito, onde Maria, José e o menino Messias se refugiaram da perseguição sanguinária e  psicopática de Herodes (Mt 2, 13), que queria matar o pequeno Profeta.

Numa conversa entre Natanael e  Felipe ( outro que se tornou apóstolo de Jesus), o evangelista João (1:45-46) faz o seguinte relato:

– “Filipe achou Natanael, e disse-lhe: Havemos achado aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José

– Disse-lhe Natanael: Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? Disse-lhe Filipe: Vem, e vê.”

Natanael revelou ali um certo sentido de preconceito em relação ao povo e às coisas que pudessem vir de Nazaré. Por certo, Natanael ainda não conhecia Jesus. 

Porém, assim que o conheceu, largou tudo, afastando daquele primário sentimento, e passou a seguir Jesus, ao ponto do Messias acolhê-lo com aquele coração sempre amoroso que não guardava rancores de ninguém:  “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade”, disse Jesus a Natanael. (João 1.47). 

O Profeta dos profetas, por experiência própria, então disse com todas as letras aos apóstolos sobre a rejeição que  poderiam ter  em suas próprias terras natais, quando fossem anunciar a Palavra que liberta:  – “Digo-vos com toda a verdade que nenhum profeta é bem recebido na sua terra” (Lc. 4, 21-30).

O recado ou aviso foi dado depois que Jesus relatou que “falavam bem Dele e estavam admirados com as palavras de graça que saíam de seus lábios.”(Lc. 4:22). Por outro lado, ao mesmo tempo, o Profeta não escondeu seu desapontamento com outros comentários a seu respeito e de seu pai, José: “Mas perguntavam: "Não é este o filho de José?" (Lc. 4:23).

A inveja que tinham de Jesus vinha dos soberbos corações dos  doutores das leis e dos sacerdotes, aqueles que se outorgavam os únicos e exclusivos intérpretes da Sagrada Escritura.  A inveja veio acompanhada da campanha de difamação e da perseguição  sistemáticas até conseguirem a prisão e morte do profeta Jesus.

O Profeta   sabia do coração invejoso das pessoas. Sabia que invejosos sempre são traiçoeiros. Sabia que a inveja era um sentimento nefasto da alma:

– “Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa”., escreveu o apóstolo Tiago (3:14-16), reproduzindo o desafio que Jesus lançou aos apóstolos e a quem desejasse segui-lo: “E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me.” (Lc. 9:23-24.).

O desafio de “negar a si mesmo” é  o sentido da revolução espiritual necessária  que fortalece a alma com boas virtudes e para vencer  os sentidos da inveja, a  traiçoeira.

Então, a inveja é um sentimento que aprisiona a alma nas algemas das mesquinharias, das torpezas e das intrigas.  

A inveja é reflexo do espírito fraco, é a antítese perversa  do amor, fato já reconhecido em  1 Coríntios 13:4.: “O amor é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.”

Portanto, nessa perspectiva teológica, posso encerrar este breve ensaio com a seguinte proposição — “A inveja, falibilidade humana que entorpece a alma, cega os olhos à verdade que liberta” – restou comprovada. Isso porque a  alma aprisionada pela inveja  não conhece a virtude que reside na simplicidade – a simplicidade amorosa do Profeta que não tinha coração invejoso ou soberbo.

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ATENÇÃO: Em  observância à Lei  9.610/98, todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma (Océlio de Jesus Carneiro Morais (CARNEIRO M,  Instagram: oceliojcmoraisescritor

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Océlio de Morais
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