A impermeabilidade da venda da Justiça Océlio de Morais 20.12.22 8h38 Uma vez por mês, faço uma consulta ao supercomputador “worldometer” para obter dados confiáveis sobre o crescimento da população mundial, sua economia e seu desenvolvimento social, minuto a minuto. Numa dessas consultas, admirado com o fantástico número de seres humanos, fiquei pensando nos bilhões de esperanças depositadas nos sistemas de Justiça espalhados pelo mundo para resolver conflitos, sempre desafiados a se submeter aos ditames da imparcialidade dos fatos e da justeza às decisões Todos sabem: os pensamentos nos levam (sem restrições ou barreiras) onde queremos e lá ficamos o tempo que desejarmos. Então, meus pensamentos viajaram à antiguidade greco-romana e aos tempos de Jesus para buscar princípios de Justiça na Bíblia Sagrada. Sem nenhuma dúvida – qualquer um com o mínimo de interesse pode conferir essa verdade – a Bíblia é cheia de princípios de Justiça. Vou abordar dois deles, que estão em Salmos (82:2) e em João (7:24), duas raízes jus-teológicas que reputo ser a origem remotíssima do princípio da imparcialidade e da decisão judicial justa – princípios que são a alma e o coração da Justiça. Minha argumentação básica, neste sucinto ensaio teológico-filosófico sobre a plena liberdade do justo, é a seguinte: a imparcialidade da Justiça é o pressuposto inarredável para a garantia da plena liberdade do justo nas decisões judiciais. Sobre o princípio da decisão justa, Salmos (82:2) questiona o desvirtuamento da Justiça que prefere os ímpios – aqueles que desprezam valores da religião e das leis – em detrimento dos justos: “Até quando dareis sentenças injustas, favorecendo os ímpios?”. Na contemporaneidade, o ímpio pode ser identificado como alguém que desvirtua ou corrompe valores e princípios da moralidade pública, ignorando as leis. O justo, nos tempos de Jesus, designava aquele que observava e vivia conforme os mandamentos de Deus, comportava-se de acordo com as leis e respeitava os bons costumes do povo. E é em face daqueles ímpios (homens injustos e corruptos) e em face dos subornos da Justiça que o profeta Isaías (5:21,23) foi implacável ao advertir pessoas e juízes de seu tempo: “Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos e inteligentes em sua própria opinião! (...) Ai dos que absolvem o ímpio mediante suborno e negam ao inocente a sua justiça!”. O profeta Isaías, antes de se converter à missão, corajosamente reconheceu ser “um homem de lábios impuros” (Isaías, 6:5) . Ele viveu entre os séculos 8 e 7 antes de Cristo. Em João (7:24) – assim interpreto – está a raiz bíblica da venda da Justiça (aquela faixa de pano que cobre os olhos) quanto ao julgamento pela baliza do que é certo e do que é justo, e não pelas aparências: “Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos". Abro um Parêntesis: sobre os símbolos da Justiça, sugiro a leitura de dois breves ensaios filosóficos – “A razão da lei e da Justiça e “A balança da Justiça e a Lei” – no meu livro de crônicas filosóficas-teológicas, editado pela Dialética neste ano de 2022. Fecho o parêntesis e retomo o objeto desse ensaio em forma de crônica. Por certo, o princípio bíblico de não julgar pelas aparências – que é transcendental – condensa, principalmente, o código moral para as relações diárias, evitando-se os preconceitos e discriminações – código moral que expande seus valores aos princípios da arte real de julgar. Vejam-se dois exemplos: um, na parábola de Jesus sobre a hipocrisia, reportada por Lucas (6:39-42): “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e depois enxergarás para tirar o argueiro do olho de teu irmão”. E, outro, no relato de Tiago (4:11-12): “Irmãos, não falem mal uns dos outros. Quem fala contra o seu irmão ou julga o seu irmão fala contra a Lei e a julga.(...) . Mas quem é você para julgar o seu próximo?” Além do código moral próprio e necessário ao cotidiano das relações interpessoais, a venda da Justiça também incorpora a ideia de que a balança define o que é certo e assegura o justo, sem distinguir pelas aparências advindas da riqueza ou do poder entre quem busca a Justiça. E também incorpora a ideia de que a venda nos olhos, na prática, seja a barreira contra julgamento pelas aparências, o qual pode levar às injustiças. Na última pesquisa que fiz no site “worldometer” – quando o cronômetro registrava o extraordinário número de 8,005,636,9999 de seres humanos vivos – pensei nos bilhões de pensamentos que fervilham nas mentes e ecoavam em palavras pelas correntes magnéticas por todo o Planeta. Mas também pensei nos bilhões de problemas que existem e nos bilhões de esperanças respectivas que alimentam a vida de cada ser humano. E imaginei algumas cenas: uma delas, os bilhões de pensamentos, a cada segundo incessante, rogando que a venda da Justiça – conta-se que a venda foi adotada a partir do Século XVI pelos alemães para indicar a imparcialidade e a ausência de preconceitos – realmente represente a sensível arte de julgar pelas balizas das virtudes que a inspiram. Também imaginei outra cena: os bilhões de pensamentos, que – insatisfeitos com a Justiça – queriam tirar a venda dos seus olhos para que, por um instante de segundo impactante, ela tivesse o choque da realidade e pudesse enxergar a verdade e ouvir o balbuciar daquelas bilhões de mentes, corações e bocas verbalizando o princípio inafastável da “plena liberdade do justo”, cuja origem está em Provérbios (17:15): “Há duas injustiças que o Senhor abomina: que o inocente seja condenado e que o culpado seja colocado em plena liberdade como justo”. Eis aqui a matriz do princípio ético-teológico da presunção da inocência. Aqueles bilhões de pensamentos com as respectivas esperanças depositadas na impermeabilidade da venda dos olhos da Justiça – se somados aos mesmos anseios de todos os seres humanos que faleceram sem gozar o prazer do princípio inafastável da “plena liberdade do justo” – levam à seguinte conclusão lógica: a Justiça sempre foi vista como a última e segura esperança de que o ímpio não e nunca pode prevalecer sobre o justo. Isso representa que a Justiça deve ser, serenamente, a responsável por decisões justas. Então, eis outra conclusão lógica: a venda da Justiça existe porque deve eleger o princípio de que a verdade real dos fatos deve ser observada pela lente das virtudes, o que – em última perspectiva – quer passar a mensagem de que o julgamento sempre deverá ser imparcial para, conclusivamente, ser justo. Da venda impermeável da Justiça depende a realização das esperanças dos bilhões de pensamentos humanos que desejam viver concretamente o inarredável princípio fundamental da “plena liberdade do justo”. _____________ ATENÇÃO: Em observância à Lei 9.610/98, todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma: MORAIS, O.J.C.; Instagram: oceliojcmoraisescritor Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞 Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱 Palavras-chave colunas océlio de morais COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA Océlio de Morais . Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo! Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é. Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos. Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado! ÚLTIMAS EM OCÉLIO DE MORAIS Océlio de Morais Assim eles morreram, pelas virtudes 03.03.26 9h03 Océlio de Morais A ética é uma espécie de código de barras de cada indivíduo 17.02.26 8h00 Océlio de Morais Embora imortal, a Alma pode ser corruptível , conforme a filosofia de Jesus 03.02.26 9h00 Océlio de Morais A filosofia da alegria e da renovação 28.01.26 13h32