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Por Marco Antônio Moreira

Coluna assinada pelo presidente da Associação dos Críticos de Cinema do Pará (ACCPA), membro-fundador da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e membro da Academia Paraense de Ciências (APC). Doutorando em Artes pelo PPGARTES/UFPA; Mestre em Artes pela UFPA. Professor de Cinema em várias instituições de ensino, coordenador-geral do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), crítico de cinema e pesquisador.

O legado de Pier Paolo Pasolini

Marco Antonio Moreira
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Pier Paolo Pasolini (1922-1975) foi um dos mais importantes artistas do cinema e seu trabalho é ratificado este ano, principalmente em decorrência das comemorações do centenário de seu nascimento. Sua obra no cinema é muito conhecida por cinéfilos, mas é importante demonstrar que ele desenvolveu belo trabalho como poeta, editor, professor, semiólogo, ensaísta, crítico literário e cinematográfico, agente cultural e jornalista. Em todas estas atividades, Pasolini expressava intenso desejo de renovação da sociedade, a partir de suas observações sobre o colapso ético das instituições de poder, do controle religioso, de questionamentos sobre a burguesia, da hipocrisia social e religiosa e da luta de classes que constantemente estimulava a exclusão social e econômica do proletariado, entre outras questões sociais, políticas e culturais. Posteriormente, ele levou este desejo de mudança para o cinema por meio de vários filmes importantes que influenciaram cineastas e espectadores. Com intenso talento, Pasolini entendia a arte como meio de questionamento e transformação social e sempre provocou polêmica na sua trajetória profissional.

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Sua carreira no cinema iniciou nos anos 50. Seu primeiro trabalho foi como roteirista com o cineasta e escritor Mauro Soldati, em 1954, no filme A Mulher do Rio com Sophia Loren. Em 1956, Pasolini escreveu o roteiro de O Prisioneiro da Montanha de Luis Trenker, mas foi com Noites de Cabíria, em 1957, que ele foi notado pela crítica especializada como um dos melhores roteiristas do cinema italiano, a partir do convite do diretor Federico Fellini para sua colaboração na concepção dos diálogos do dialeto falado na periferia de Roma. Depois de escrever alguns roteiros para outros diretores, Pasolini percebeu que precisava assumir a concepção visual das histórias e diálogos criados por ele e, em 1961, dirigiu seu primeiro filme: Accatone Desajuste Social. O personagem principal é um acattone, que significa mendigo em italiano, que vive à custa da prostituição e tenta novos rumos para sua vida.

Em 1962, ele dirigiu Mamma Roma sobre uma prostituta de meia-idade que sonha em mudar de classe social para poder voltar a viver com filho adolescente. Este filme tem uma atuação histórica da atriz Anna Magnani. Em 1963, ele dirigiu duas obras cinematográficas: o documentário A Raiva e Rogopag – Relações Humanas, produção composta de quarto curtas-metragens incluindo Pureza de Roberto Rossellini, O Mundo Novo de Jean-Luc Godard, A Ricota de Pasolini (com Orson Welles) e O Frango Caseiro de Ugo Gregoretti.

Em 1964, Pasolini realiza O Evangelho segundo São Mateus, um de seus filmes mais polêmicos, em que ele apresenta Jesus Cristo como um líder que reivindica mudanças. Os diálogos do filme foram extraídos do Evangelho de Mateus. Após alguns filmes de longa e curta metragem, ele realiza Gaviões e Passarinhos, em 1966, com o protagonista interpretado pelo comediante Totó em um filme que mostra dois personagens à deriva em uma estrada na Itália e que, após encontrar um corvo que pode falar, seguem viagem debatendo a ideologia do socialismo.

Nos anos posteriores, Pasolini dirigiu uma série de filmes extraordinários a partir de suas premissas questionadoras em obras que estão incluídas entre as mais expressivas dos anos 60 como Édipo Rei (1967) com Silvana Mangano, Teorema (1968) com Terence Stamp, Pocilga (1969) com Pierre Clementi e Medéia (1969) com Maria Callas.

Nos anos 70, Pasolini realiza a denominada Trilogia da Vida com os filmes Decameron (adaptação de nove histórias do Decameron de Boccaccio), Os Contos de Canterbury (baseado nas histórias de Geoffrey Chaucer do século XIV) e As Mil e uma Noites (inspirada nos contos eróticos e misteriosos do Oriente Médio). Esta trilogia teve diversos problemas de exibição pelo seu conteúdo erótico e foi proibida em diversos países incluindo o Brasil (estes filmes foram liberados para o circuito de exibição brasileiro somente nos anos 80).  

Em 1975, ele realiza seu último filme: o polêmico Saló ou 120 dias de Sodoma, livre adaptação do livro do Marquês de Sade ambientada durante a Segunda Guerra Mundial. Na cidade de Saló, ocupada por nazistas, no norte da Itália, fascistas sequestram diversas pessoas e cometem terríveis experiências como meio de prazer sexual, masoquismo e morte. Saló foi proibido no Brasil e outros países, pelas suas cenas de sexo e violência. É uma obra que procura incomodar o espectador e gerar debates sobre o poder. Infelizmente, três semanas antes do lançamento deste filme, Pasolini foi assassinato em circunstâncias que nunca foram completamente esclarecidas. A família de Pasolini acredita que ele foi assassinado motivos políticos.  

Pier Paolo Pasolini deixou um legado imensurável a partir de suas preocupações como artista sobre os rumos políticos, sociais, culturais e religiosos de uma sociedade que, evidentemente, precisa se renovar. Conhecer sua obra artística como cineasta é necessário para nos lembrar da importância do cinema como meio de transformação social para um mundo melhor e mais humano. Felizmente, seus filmes estão disponíveis em diversos formatos (DVD, blu-ray, canais de streaming) para confirmar e renovar seu talento inspirador.

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