Marinha resgata navio estrangeiro à deriva por mais de 20 dias na costa do Amapá
Operação garantiu segurança da tripulação, evitou riscos ambientais e revelou indícios de trabalho análogo à escravidão a bordo
A Marinha do Brasil resgatou nesta semana o navio mercante “MV Latifa”, de bandeira da República Unida da Tanzânia, que permaneceu à deriva por mais de 20 dias na costa do Amapá após sofrer avaria no sistema de propulsão. A operação foi conduzida pelo Navio-Patrulha “Bocaina”, com apoio da Capitania dos Portos do Amapá, e garantiu a segurança da tripulação, além de mitigar riscos à navegação e ao meio ambiente.
O caso teve início no fim de março, quando o Serviço de Busca e Salvamento Marítimo do Norte (Salvamar Norte) recebeu um pedido de socorro do comandante da embarcação. O navio havia partido de Cartagena, na Colômbia, com destino a Montevidéu, no Uruguai, mas ficou sem capacidade de manobra e com mantimentos limitados, deixando a tripulação em situação de elevado estresse.
O Navio-Patrulha “Bocaina” foi acionado e seguiu até a região próxima ao município de Calçoene (AP). No local, militares da Marinha prestaram assistência médica, avaliaram as condições estruturais da embarcação e forneceram suprimentos essenciais, como água potável e alimentos.
Uma inspeção técnica identificou falhas no motor principal e nos sistemas de geração de energia, inviabilizando a retomada da navegação por meios próprios. Diante da ausência de medidas por parte do armador, a Marinha decidiu iniciar o reboque da embarcação para garantir a salvaguarda da vida humana e evitar possíveis danos ambientais, já que o navio transportava resíduos oleosos.
Segundo o comandante do “Bocaina”, capitão de corveta Thiago de Souza Pereira, a operação demonstrou a versatilidade da embarcação. “O Navio-Patrulha Bocaina demonstrou, nessa operação, sua capacidade de atuar com versatilidade em ambientes marítimos e fluviais, prestando assistência à tripulação por meio do fornecimento de mantimentos, atendimento médico e, por fim, realizando o reboque da embarcação com eficiência”, afirmou.
As manobras de reboque começaram no dia 11 de abril e foram concluídas no dia 15, com a chegada do navio ao município de Santana (AP), após percorrer cerca de 580 quilômetros. A atracação ocorreu com apoio da Capitania dos Portos.
Fiscalizações e indícios de irregularidades
Após a chegada ao porto, órgãos federais iniciaram procedimentos de fiscalização. A Polícia Federal realizou a verificação migratória da tripulação, composta por sete venezuelanos e um belga.
De acordo com o escrivão Euler Avelar Passos, também estão sendo apuradas possíveis ocorrências de natureza criminal. “Estabelecemos um prazo de 60 a 90 dias para a permanência da tripulação no País”, informou.
Já o Ministério Público do Trabalho (MPT) identificou indícios de condições análogas à escravidão a bordo do “MV Latifa”. O armador foi notificado e deverá arcar com os custos de repatriação dos tripulantes.
Papel do Salvamar
O Serviço de Busca e Salvamento da Marinha (Salvamar) é responsável por coordenar operações de socorro a embarcações e pessoas em perigo no mar em uma extensa área do Atlântico Sul sob responsabilidade brasileira.
As ações seguem protocolos internacionais e priorizam a rapidez na resposta e a preservação da vida humana. Segundo o Capitão dos Portos do Amapá, capitão de fragata Daniel Thomaz Moraes, a atuação integrada entre os órgãos é fundamental para o sucesso das operações.
“Essa articulação, aliada ao conhecimento da área de jurisdição, permite uma resposta mais rápida e eficiente, aumentando as chances de salvamento de vidas”, destacou.
Atuação recente reforça capacidade
A Marinha também atuou recentemente em uma operação semelhante no Nordeste, quando um navio-tanque africano à deriva por quase dois meses foi assistido e rebocado com segurança até o Porto de Fortaleza (CE).
Assim como no caso do “MV Latifa”, a ação reforça a capacidade de resposta da Marinha em cenários complexos, consolidando o papel do Salvamar na salvaguarda da vida humana no mar e na proteção do meio ambiente.
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