Quando se fala em poluição dos oceanos, o pensamento imediato é muitas vezes voltado para combustíveis e microplásticos. No entanto, um estudo recente revelou a presença de cocaína na contaminação marinha. Pesquisadores brasileiros identificaram a presença da substância em tubarões capturados na costa do Rio de Janeiro. O estudo inédito foi realizado por um grupo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o Cape Eleuthera Institute, das Bahamas, e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. VEJA MAIS Tubarões com mais de 2 metros são encontrados em Óbidos Os animais foram encontrados no canal que liga a lagoa ao mar Garoto surfista de 15 anos morre após ter as pernas arrancadas em ataque de tubarão Adolescente identificado como Khai Cowley chegou a ser socorrido e retirado da água, mas não resistiu aos ferimentos e morreu na frente do pai Como foi feita a pesquisa? A pesquisa analisou 13 tubarões da espécie Rhizoprionodon lalandii, conhecidos popularmente como tubarão-bico-fino. Para surpresa dos pesquisadores, todos os animais apresentaram resquícios de cocaína em seus tecidos musculares e hepáticos (fígado). A concentração da droga foi significativamente alta, cerca de 100 vezes maior do que a encontrada em outros animais marinhos em estudos anteriores. A substância foi encontrada em 92% dos animais testados, principalmente nos músculos, e em 23% dos tubarões no fígado. Além da cocaína, foi detectada a benzoilecgonina, um metabólito da cocaína. Esta é a primeira vez que a substância é identificada em tubarões selvagens. Fontes de contaminação O estudo, publicado na revista Science of the Total Environment, destaca a grave questão da poluição por drogas. A espécie analisada vive próxima à costa e não possui características migratórias, o que sugere que a contaminação provavelmente ocorreu no litoral carioca. Ainda não há clareza sobre como a cocaína chegou aos tubarões. Duas hipóteses principais são levantadas pelos pesquisadores: Descarte de Esgoto: a droga pode estar presente no esgoto doméstico e industrial, contaminando o mar e sendo consumida pelos tubarões através da ingestão de suas presas ou da própria água contaminada. Laboratórios Clandestinos: outra possibilidade é o descarte direto de resíduos de laboratórios clandestinos que produzem cocaína no mar. A Polícia Federal revela que, entre 2021 e 2023, foram apreendidas 109,2 toneladas de cocaína no Brasil, e parte dela pode ter sido transportada pelo mar, contaminando as águas. Riscos à saúde humana e animal A presença de cocaína nos tubarões representa um risco à saúde humana e animal. Os animais contaminados eram destinados à comercialização para consumo humano. No caso dos tubarões, os efeitos da droga a longo prazo são desconhecidos. Já para os humanos, o consumo de carne de tubarão contaminada pode levar a diversos problemas de saúde, incluindo intoxicação, problemas neurológicos e cardíacos. Além disso, a contaminação marinha pode afetar outros organismos aquáticos, como moluscos, crustáceos e peixes, representando uma ameaça para a biodiversidade e a saúde dos ecossistemas marinhos. *(Hannah Franco, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Heloá Canali, coordenadora de OLiberal.com)