Férias com ou sem telas? Uso moderado na infância promove desenvolvimento saudável, diz psicóloga
Thayene Belo, especialista em Saúde da Família, afirma que, antes de buscar culpados para a utilização de recursos tecnológicos é necessário, primeiro, construir caminhos saudáveis e equilibrados
Com a evolução da tecnologia, a utilização de smartphones e tablets está, cada vez mais, inserido na vida das crianças. Durante a rotina escolar, o tempo de uso costuma ser limitado, devido às obrigações com os estudos. Porém, no período de férias, é comum que a frequência nas telas — incluindo computador, videogame e televisão — torne-se maior, visto que há mais períodos ociosos. Apesar de serem ferramentas que auxiliam no dia a dia dos pais e responsáveis, a exposição prolongada pode ser prejudicial para a evolução física, psicológica e social dos pequenos.
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A psicóloga Thayene Belo, especialista em Saúde da Família, afirma que nunca houve tanta tecnologia disponível como atualmente e, além disso, os cuidadores enfrentam mais desafios ao equilibrar trabalho, afazeres domésticos e tempo de qualidade com as crianças. Para ela, não deve-se buscar um culpado, mas, sim, construir caminhos em que os pequenos cresçam com saúde e uso moderado.
“As férias representam uma oportunidade importante para que elas ampliem suas vivências para além da rotina escolar. Quando esse tempo acaba sendo ocupado quase exclusivamente pelas telas, deixam de experimentar algo essencial para o desenvolvimento: brincar, explorar, criar, movimentar o corpo, conviver com outras crianças e fortalecer os vínculos familiares”, destaca a psicóloga.
Thayene explica que, fisicamente, o uso excessivo de telas favorece o sendentarismo, alterações no sono, fadiga visual e redução de atividades motoras. “Mas os impactos emocionais talvez mereçam ainda mais atenção. O cérebro infantil está em intenso desenvolvimento e precisa de experiências diversas para aprender a regular emoções, lidar com frustrações, desenvolver criatividade, autonomia e habilidades sociais”, aponta.
Mudanças e desafios
A gestora de recursos humanos Helena Furtado, de 51 anos, foi ao Parque da Cidade, em Belém, para ter momentos de lazer com a família. Ela lembra que, na infância, não havia tantos recursos tecnológicos e, por isso, as brincadeiras ao ar livre eram mais frequentes. “Eu sempre brincava em um quintal, com a natureza, criando meus brinquedos, minhas gangorras que eu fazia com pneu velho”, conta.
Atualmente, Helena observa como é importante estimular atividades fora das telas, pois, de acordo com ela, os pequenos não querem mais se esforçar para pensar, ter criatividade e raciocinar para brincar. “Hoje em dia, as crianças estão muito desligadas dessa questão da natureza, desse contato”, diz.
A empresária Talice Câmara Rodrigues, de 38 anos, é mãe de Sofia, de 10 anos. Para estimular o lúdico na menina durante as férias, Talice tem um grupo com outras mães e, juntas, costumam promover encontros das crianças fora do ambiente escolar. “É uma forma de reunir, interagir e brincar. Também algumas crianças não têm irmãos, então, de ver outras crianças”, relata.
Os pequenos estão na faixa dos 10 anos e já possuem acesso ao celular, mas de forma supervisionada, segundo a empresária: “Elas utilizam muito o celular dos pais, elas não têm, não ficam fixas. Acho que assim, é inegável dizer que não dá acesso. Dá acesso, mas é muito controlado.”
“Nessas férias, para quem ficou em Belém, nós criamos várias oficinas de cerâmica fria, pintura na caneca, para tirar eles de ficarem restritos a telas e mostrar novas formas de se distrair, de ter hobbies”, comentou Talice. A atitude do grupo de mães é recomendada pela psicóloga Thayene Belo, que destaca a infância como um período direcionado a movimento, exploração, brincadeiras e contato com o mundo externo — que inclui a natureza e o convívio com outras pessoas.
Principais orientações
As recomendações de usos de tela diárias feitas por especialistas variam conforme a idade da criança, segundo a psicóloga: “De forma geral, quanto menor a criança, maior deve ser o cuidado, pois nos primeiros anos de vida, o cérebro está em intenso desenvolvimento e as necessidades mais importantes precisam ser a interação humana, as brincadeiras, o movimento, a linguagem e a exploração do ambiente.”
Thayene orienta pais e responsáveis a observarem como está a rotina dos pequenos mediante a utilização de smartphones, tablets e outros materiais tecnológicos. Conforme a criança esteja agindo e reagindo, poderá avaliar se o uso está saudável ou prejudicial.
“Se a criança continua dormindo bem, brincando, convivendo com outras pessoas, praticando atividade física, demonstrando curiosidade pelo mundo e utilizando a tecnologia como apenas uma pequena parte do dia, provavelmente estamos diante de um uso mais equilibrado. O problema surge quando a tela passa a substituir experiências fundamentais da infância. Nenhum aplicativo ou rede social consegue ensinar uma criança a esperar sua vez em uma situação, lidar com uma frustração durante uma brincadeira, subir em uma árvore, sentir a textura da grama ou construir memórias afetivas com a família”, explica.
Transição para fora das telas
O incentivo para os pequenos deixarem o uso constante de telas deve partir dos pais e responsáveis, conforme recomenda a psicóloga Thayene Belo. Ela explica que, talvez, a alternativa seja reduzir a proibição e aumentar o convite. “Crianças dificilmente abandonam uma atividade prazerosa se não encontrarem outra experiência que faça sentido para elas. Em vez de perguntar apenas ‘como tirar o celular?’, podemos perguntar ‘o que podemos oferecer no lugar do celular?’”, diz.
A especialista sugere que sejam oferecidos passeios em parques, divisão de tarefas na cozinha, brincadeiras com bolas, jogos de tabuleiro, visitas a amigos e familiares e contação de histórias. “Podem parecer atividades simples, mas são justamente elas que constroem memórias afetivas e fortalecem os vínculos”, conclui Thayene.
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