Dia Nacional da Caridade fortalece rede de apoio de pessoas em situação de vulnerabilidade em Belém
Em Belém, grupos de voluntariado atuam para ouvir as demandas da população e acolher conforme as necessidades
Realizar atos de caridade é mais do que apenas fornecer alimentos ou itens de higiene básica: é doar o tempo, a escuta e também ajudar a promover a dignidade aos mais vulneráveis. Neste domingo (19), o Brasil celebra o Dia Nacional da Caridade, para incentivar a prática da solidariedade, o voluntariado e a reflexão sobre o bem-estar coletivo. Em Belém, grupos de voluntariado atuam para ouvir as demandas da população e acolher conforme as necessidades.
A assistente social Jennifer Sterfan, de Belém, explica que, no caso das pessoas em situação de rua, por exemplo, são percebidos fatores que resultam na violação de alguns direitos, como alimentação e moradia. “Isso interfere em outros fatores desse ser humano, como questões psicológicas, de renda. Muitos acabam indo para as drogas e aí vem outros fatores, outras violações de direito em cima desse sujeito”, explica.
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O voluntariado, então, surge como uma ajuda emergencial, para acolher além das políticas públicas e colaborar com a garantia de direitos. Para realizar a caridade, tudo depende da habilidade que a pessoa possui para servir o outro, seja com alimentação, escuta, atendimento especializado gratuito, entre outros. O principal é realizar a atividade sem esperar nada em troca, para trabalhar os valores de empatia e respeito.
Segundo a assistente social, o ato de doar a escuta ativa e qualificada para o público é transformador, pois a pessoa encontra um espaço onde é possível externalizar dores, sentimentos e desejos, o que ajuda no fortalecimento como ser humano e em uma maior autonomia. É uma doação que pode gerar conexão e fortalece de forma coletiva, por conta da troca.
Grande parte dos voluntários fazem parte de projetos sociais, muitas vezes liderados e integrantes do terceiro setor, que é composto por organizações privadas sem fins lucrativos que prestam serviços de interesse público e social.
Caridade beneficia quem doa e quem recebe
A associação filantrópica paraense Amor em Foco surgiu na capital paraense há dez anos, por iniciativa de um grupo de amigos, que realizava ações sociais pontuais, especialmente em datas comemorativas. A iniciativa passou a realizar ações contínuas que ultrapassaram as datas e hoje promovem diversos momentos, como o Café de Rua e ações em comunidades do Aurá e em Piriquitaquara, na Ilha do Combu, além de creches e abrigos.
“Recebemos doações tanto de pessoas físicas quanto jurídicas. E, assim, é totalmente doação. A gente não tem apoio político ou religioso. Fazemos cafés da manhã para pessoas em situação de rua, ações em comunidade, onde a gente leva cestas básicas, brinquedos, atendimento médico, atendimento odontológico”, diz a voluntária Fernanda Barros Monteiro, de 22 anos, publicitária. A associação conta com profissionais, como médicos, que realizam atendimentos voluntários.
Atualmente, mais de 600 pessoas integram o Amor em Foco. “As pessoas atendidas já conhecem, eles mesmos se organizam em filas quando chegamos. Tem gente que a gente conhece pelo nome já, então é uma relação de reconhecimento. Eles sabem que vamos estar lá e são super receptivos”, explica Fernanda.
São diversos os motivos que levam as pessoas às ruas, como problemas familiares, violência, abuso, questões financeiras e dependência química, e todos são atendidos pela associação durante as ações. “É um gesto transformador, falo que é nosso propósito de vida. A gente chega em uma ação achando que vai ajudar, mas no fim nós que somos ajudados. Faz toda a diferença”, pontua.
A estudante de nutrição Ingrid Caroline Ribeiro, de 23 anos, conheceu o projeto por meio de uma amiga da faculdade. Desde a primeira ação, onde levou café da manhã às pessoas em situação de rua, ela se identificou e fez questão de continuar participando. “Não quis mais outra vida, o voluntariado é realmente um estilo de vida. A gente começa a pegar gosto de ajudar o próximo e ver o quanto isso engrandece, aprendemos todos os dias com eles”, compartilha.
“É incrível ver o impacto que geramos, mesmo que pequeno. Costumamos dizer que não dá para mudar o mundo inteiro, mas se mudarmos o dia a dia de uma única pessoa, já vale muito”, destaca.
União é a chave
A assistente social Jennifer Sterfan divide o ofício do serviço social com a dedicação ao voluntariado, que são dinâmicas opostas, mas que se complementam, segundo ela. O serviço social garante o acesso aos direitos e a dignidade, enquanto a caridade se relaciona com a empatia, solidariedade e ajuda de forma mais urgente. Para ela, os dois podem ser aliados para unir forças, como forma de enfrentamento à realidade atual.
“A ciência social luta, reinvidica e busca por isso, enquanto o voluntariado é uma forma de ajudar da forma que se pode naquele momento. Devemos nos unir, voluntariado, pessoas que estão passando por vulnerabilidade, profissionais da área”, avalia.
Jennifer integra o projeto Rede de Mulheres da Amazônia (Rema), uma iniciativa voluntária composta por mulheres e para mulheres. A ideia é levar dignidade ao público feminino vítima de violência doméstica, psicológica e física, além de amparo psicossocial e jurídico. São organizadas ações sociais, com psicólogos, advogados e fisioterapeutas, para oferecer um acolhimento multiprofissional às mulheres que passaram ou estão vivenciando situações de violência.
Por meio da atuação no projeto, Jennifer passou a ter um outro olhar para a vida. Ela vê as ações de caridade como uma forma de alimentar a alma, por meio da ajuda ao outro. “Tem um outro olhar, não de pena, mas um olhar que esse sujeito, ele merece dignidade, merece respeito”, afirma.
*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Fabiana Batista, coordenadora do Núcleo de Atualidades
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