Calor do verão amazônico exige cuidados especiais com as plantas; veja como manter o jardim saudável
Professor da Ufra e paisagista orientam sobre irrigação, poda, adubação e escolha das espécies para enfrentar o período de altas temperaturas e pouca chuva
Com a intensificação do verão amazônico, o calor, a maior incidência de radiação solar e a redução das chuvas exigem atenção redobrada de quem cultiva plantas em casa. A irrigação, a poda, a adubação e até o horário em que esses cuidados são realizados podem fazer a diferença para manter jardins saudáveis e bonitos durante os meses mais quentes do ano.
O professor Cândido Neto, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), falou sobre os principais desafios para manter um jardim bonito durante o verão amazônico. “Um dos maiores desafios é a questão hídrica, pois, nesse período de baixa pluviosidade, baixa umidade e altas temperaturas, ocorre um aumento da evaporação da água do solo, reduzindo significativamente a disponibilidade de água para o sistema radicular e promovendo a desidratação do vegetal, causando uma série de desordens fisiológicas que podem levar a planta à morte”, disse ele, que é doutor em ciências agrárias, com experiência na área de Produção Vegetal.
Outro fator, segundo ele, é que a redução da absorção de água pelas raízes também diminui a disponibilidade de nutrientes essenciais provenientes do solo. A deficiência desses nutrientes afeta o crescimento e o ciclo de vida da planta. Entretanto, o pesquisador alerta que não é recomendado aplicar adubos em solo seco, pois isso pode causar toxidez às plantas, a menos que haja irrigação diária e adequada.
Ainda de acordo com o professor, outro aspecto muito importante é saber qual planta será utilizada no jardim ou dentro de casa, pois existem espécies de pleno sol e outras que se desenvolvem melhor em áreas sombreadas. Tanto o excesso quanto a falta de luz podem causar diversos problemas ao vegetal. “O exemplo é quando plantas de sombra (baixa luminosidade) são expostas a grande quantidade de luz. Isso pode causar queimaduras nas folhas e a queda delas devido à rápida desidratação foliar, além de alterações metabólicas negativas que, muitas vezes, são irreversíveis para o vegetal. A dica é conhecer as características da sua planta, como a adubação exigida, se necessita de muita ou pouca luz e a quantidade correta de água, pois há plantas que exigem mais ou menos irrigação”, explicou o professor Cândido Neto.
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Melhor horário para regar as plantas
Ele ressaltou que o melhor horário para regar as plantas é pela manhã, bem cedo, e/ou no fim da tarde. Isso porque, nesses períodos, a temperatura está mais baixa, dificultando a evaporação da água do solo e permitindo que ela permaneça disponível por mais tempo para o vegetal. “Vale lembrar que a quantidade de água e o número de regas vão depender de inúmeros fatores, como o tipo de vegetal, o tipo de solo, a exposição à luminosidade, entre outros”, disse.
Cada planta responde de forma diferente às condições climáticas, mas as características das folhas costumam ser os sinais mais visíveis. Entre elas estão a queda excessiva de folhas e a mudança de coloração, que passa do verde para tons amarelados, avermelhados e, por fim, marrons, quando já estão secas. Outros sinais observados em algumas espécies são folhas murchas e com as bordas enroladas. No entanto, é preciso ter cuidado, pois essas características também podem indicar deficiência nutricional ou a presença de doenças.
A adubação deve ser evitada nesse período, a menos que exista um sistema de irrigação ou rega constante para evitar a queima do vegetal pelo excesso de sais no solo. O professor também recomenda fazer uma poda de limpeza, retirando galhos secos, doentes e plantas invasoras, que competem principalmente por água e nutrientes. Outra orientação é utilizar folhas secas trituradas sobre o solo. Essa cobertura ajuda a manter a umidade, fornece nutrientes por meio da ciclagem da matéria orgânica, mantém a temperatura adequada do solo, favorece o aumento de microrganismos e melhora as características físicas, químicas e biológicas do solo.
O pesquisador também explicou que existem várias espécies nativas e outras oriundas de diferentes regiões que já estão adaptadas ao clima tropical e ao verão amazônico. “Assim, a pessoa que vai fazer seu jardim tem que levar em consideração o tipo de solo (com pouca ou muita matéria orgânica), o tempo de exposição ao sol, as altas temperaturas e a disponibilidade para realizar as regas. Esses fatores geralmente vão exigir plantas com características adaptadas e resistentes, como folhagens mais rígidas, raízes profundas ou com grande capacidade de armazenamento de água”, afirmou.
Erros mais comuns
O professor também falou sobre os erros mais comuns cometidos por quem cuida do jardim durante o verão. “Geralmente, o erro está na implantação do jardim. Muitas vezes, não são levadas em consideração as características do terreno, como as condições físicas e químicas do solo, a luminosidade e a temperatura. A partir dessas características básicas, devem ser escolhidas as espécies adequadas para aquele ambiente e, depois, realizado o manejo correto dos vegetais. Os três maiores problemas, no entanto, continuam sendo a falta ou o excesso de água, a alta luminosidade e as temperaturas elevadas para plantas que não toleram esses fatores ambientais.”
Também é importante avaliar o local e planejar todos os fatores ambientais da área antes da implantação do jardim. O ideal é adquirir plantas adequadas para aquele espaço e, de preferência, espécies com baixa exigência nutricional e hídrica, ou seja, plantas mais rústicas. Outro cuidado é evitar espécies que possam oferecer risco a crianças e animais, já que algumas plantas são bastante tóxicas.
“O seu jardim pode ser sustentável. É possível melhorar a fertilidade e a qualidade do solo utilizando folhas secas, fazer canteiros e recipientes com materiais reciclados ou reutilizados, como garrafas de vidro, garrafas PET, garrafões de água e até carretéis transformados em mesas e bancos. Também é possível produzir as próprias mudas. Depois de montado, basta fazer pequenas adaptações e realizar o manejo correto. Em caso de dúvidas, procure um especialista”, disse.
A reportagem conversou com a arquiteta e paisagista Telma Anibal, de 62 anos, que transformou uma área em Belém em um espaço repleto de plantas ornamentais, flores e muito verde. Com 40 anos de atuação na arquitetura e cerca de 30 anos dedicados à jardinagem, ela conta que a paixão pelas plantas nasceu da profissão.
"Nos meus projetos, eu sempre relacionava a arquitetura, a planta física do imóvel ou do prédio, com o entorno, que seria o paisagismo", contou. Segundo Telma, o envolvimento com os jardins se intensificou quando ela e a família compraram o terreno onde hoje funciona o escritório de arquitetura. A partir daí, ela decidiu se especializar em paisagismo. "Começou a paixão. Eu me especializei em paisagismo e comecei a fazer jardins. É o vício mais gostoso que tem na face da Terra", afirmou.
Cuidados mudam durante o verão
Nesta época do ano, explicou a paisagista, as plantas precisam de atenção especial, principalmente em relação à irrigação. Ela orienta que as regas sejam feitas até as 7h30 da manhã e novamente no fim da tarde, entre 17h e, no máximo, 18h. "Você não pode aguar ao meio-dia. Também não é indicado regar à noite, porque as plantas ficam mais propícias ao aparecimento de fungos e bactérias. As folhas podem apodrecer e surgem problemas como fungos e cochonilhas (insetos sugadores que enfraquecem as plantas)", disse.
Um hábito comum entre muitos amantes da jardinagem, conversar com as plantas, também faz parte da rotina de Telma. "É muito importante. A planta é um ser vivo. Ela sente, sabe que é amada e transmite amor para a gente também. Eu faço isso diariamente e é muito gratificante", contou.
Trabalho que compensa
Apesar de exigir dedicação, manter um jardim, especialmente no verão, é uma atividade recompensadora, segundo a paisagista. "Dá trabalho, como tudo na vida. Mas é muito gratificante. A satisfação que você tem ao cuidar de uma planta é maior do que o trabalho", disse. Para ela, cultivar plantas também traz benefícios emocionais: "Cuidar de plantas deixa a gente mais paciente e mais tranquila. Quando elas estão bonitas e bem verdinhas, a gente vê o resultado de todo o trabalho. Existe um início, um meio e um fim. Isso é muito gratificante. A gente até esquece que é trabalho; fica só a satisfação".
Colecionadora de plantas, Telma revela que sua espécie preferida é a buganvília. Segundo ela, a planta se adapta muito bem ao verão justamente porque aproveita os períodos mais secos para florescer. "Ela precisa de água, mas também gosta desse período em que a terra seca entre uma rega e outra. No verão, ela se aproveita dessa condição para florescer e nos presentear com flores maravilhosas. É uma planta do verão", disse.
Dicas para quem quer começar um jardim
Para quem deseja iniciar um jardim em casa, Telma recomendou começar aos poucos e escolher espécies resistentes. "Comece devagar, sem afobação. Espada-de-São-Jorge, crótons e cactos são plantas resistentes e de fácil cuidado. Para quem tem uma rotina corrida, o cacto é maravilhoso, porque basta regar uma vez por semana", disse. Segundo ela, um jardim pode ficar bonito em pouco tempo. "Quando as mudas já vêm prontas, a transformação acontece rapidamente. Em cerca de uma semana já é possível ver uma grande mudança. Em aproximadamente um mês, o jardim está completamente formado."
Quem também conhece bem os cuidados necessários nesta época do ano é o jardineiro Antonio da Silva Ferreira, de 52 anos, que trabalha com Telma e é responsável pela manutenção diária do espaço. Segundo ele, o principal cuidado durante o verão é manter uma irrigação adequada e tratar as plantas com dedicação. "A rega tem que ser feita com cuidado. É preciso ter amor pelas plantas, porque elas são vida. A gente tem que manter a natureza viva", disse.
Antonio contou que também cultiva plantas em casa e afirma que cuidar dos jardins é uma atividade que lhe proporciona satisfação. "Eu gosto muito de plantas. Tenho plantas em casa e cuido de todas as daqui. Dá muito prazer fazer esse trabalho", afirmou.
Como identificar quando a planta sofre com o calor
De acordo com o jardineiro, alguns sinais indicam que a planta está sofrendo com o excesso de calor ou com a falta de água. "Quando as folhas começam a amarelar ou ficam ressecadas, a gente percebe que ela não está sendo regada adequadamente. O principal é cuidar com amor e dedicação", explicou. Para Antonio, não existe fórmula complicada para manter um jardim bonito durante o verão.
"É preciso cuidar com dedicação. Quando você se dedica ao que faz, o resultado aparece. As pessoas passam por aqui, elogiam o jardim, e isso é consequência do trabalho. Tudo precisa ser feito com amor, dedicação e coragem", disse. Segundo ele, a beleza das plantas é justamente o reflexo desse cuidado diário. "O resultado vem. É isso que a gente vê todos os dias."
Cinco dicas para manter o jardim saudável no verão amazônico
1. Regue nos horários certos
Faça a irrigação no início da manhã ou no fim da tarde. Evite molhar as plantas ao meio-dia, quando a evaporação é maior, e durante a noite, período que favorece o surgimento de fungos e bactérias.
2. Escolha plantas adequadas ao ambiente
Antes de montar o jardim, observe a incidência de sol, o tipo de solo e a disponibilidade de água. Espécies de pleno sol e de sombra têm necessidades diferentes e devem ser cultivadas nos locais adequados.
3. Evite adubar com o solo seco
A adubação durante o verão deve ser feita apenas se houver irrigação constante. Aplicar adubo em solo seco pode provocar excesso de sais e causar danos às raízes.
4. Faça podas e proteja o solo
Retire galhos secos, folhas doentes e plantas invasoras. Também vale espalhar folhas secas trituradas sobre a terra para conservar a umidade, reduzir a temperatura do solo e melhorar sua fertilidade.
5. Observe os sinais das plantas
Folhas amareladas, ressecadas, murchas ou enroladas podem indicar falta de água, excesso de calor ou outros problemas, como deficiência de nutrientes e doenças. Acompanhar essas mudanças ajuda a agir antes que os danos sejam maiores.
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