Dia do Oleiro: a magia de transformar argila em arte

Profissionais sentem orgulho de uma das profissões mais antigas do mundo

Vito Gemaque
fonte

Os pedaços de argila bege aos poucos vão sendo moldados no limiar entre a força e a delicadeza em peças utilitárias de diferentes tamanhos que se transformarão ao final do processo de seca e queima em cerâmicas. Moldar esses formatos é a função do oleiro, uma das profissões mais antigas da humanidade, referenciada em várias culturas. No último sábado, dia 19 de setembro, se homenageou profissão com o Dia do Oleiro. Na capital paraense - Belém, o polo cerâmico de Icoaraci reúne a grande quantidade de oleiros por metro quadrado. Cada um é especialista em um tipo de cerâmica.

A Olaria do Espanhol, localizada na rua Santa Isabel - também conhecida como Oitava Rua, nº 2116, mantém a tradição com mais de 120 anos de história. Em Icoaraci, a produção artesanal em cerâmica integra a tradição local, e mantém o ofício vivo com o trabalho manual transformando a matéria-prima em arte, utensílios e inovação. Assim como a história da olaria, que é mais antiga da região, a principal riqueza do local está no material humano, que molda a cultura paraense ao longo dos anos. Atualmente, a Olaria do Espanhol tem três oleiros que nos anos de profissão somados até ultrapassam o tempo de existência do espaço.

Um desses mestres na feitura de peças de cerâmica é Luiz Fernando Soares, de 52 anos, que contabiliza 43 anos no trabalho. Luiz começou a frequentar a olaria quando tinha entre 9 e 10 anos com o irmão, que já trabalhava no espaço. Ele começou com ajudante e aos poucos foi aprendendo com os mestres. “Eu gosto de trabalhar cedo, às 7h já estou em cima do torno fazendo peças. Eu gosto! É uma profissão especial, geralmente tem poucas pessoas que sabem fazer isso. Hoje tem poucos, todos mais velhos com 30 a 40 anos de profissão, está ficando mais escasso”, compara.

Galeria oleiros

Luiz separa o pedaço de argila que precisará, faz a limpeza, bate em um balcão de madeira e depois coloca em cima do torno manual. Como uma dança sincronizada, o mestre Luiz utiliza os pés para girar o torno, e as mãos molhadas deslizam suavemente com a força necessária para fazer um pedaço de barro começar a assumir forma e em menos de um minuto adquirir formato de uma pequena bacia. “Tudo é técnica. A técnica para manusear e fazer. Tudo eu sei fazer, sei fornar, sei adornar, gosto de tudo, tudo na cerâmica, já passei por todos os setores. Às vezes, faço alguma peça para mim, algo que minha mulher pede, mas é difícil”, conta.

O proprietário do espaço Ciro dos Santos Croelhas, de 61 anos, herdeiro da Olaria Espanhol, incentiva a arte cerâmica de todas as formas que pode. Apesar de ser um dos ceramistas mais conhecidos da região, Ciro não se considera um oleiro. Para ele, o verdadeiro oleiro está na produção diária. “O oleiro é imprescindível na história da humanidade, desde que o mundo é mundo, essa profissão já existe, desde lá dos primórdios as coisas eram feitas pelos oleiros”, reforça.

Ciro Croelhas - o Espanhol da Olaria

Submerso no mundo da cerâmica, Ciro tem trabalhos de incentivo e divulgação da cerâmica icoaraciense. Ele fundou Ecomuseu e Espaço Pedagógico José Croelhas, em memória do pai. José aprendeu a profissão com o avô de Ciro - João Croelhas. Ambos eram espanhóis que vieram para Belém abrir uma olaria. João voltou para a Espanha, e José ficou e estabeleceu família, dando início à história da olaria. Ciro espera que essa história seja mantida ainda por muitas gerações para isso precisam ser criados novos mestres nesta arte. Ele espera que um dia a formação técnica consiga suprir a necessidade por mão de obra. “Tenho hoje três oleiros e precisava de um quarto, mas dificilmente acho uma mão de obra disponível aqui. Todos já são oleiros de muitos anos e ocupados” revela.

Na Olaria do Espanhol, a história demonstra que o esmero na produção passa de família. Em um outro torno do espaço, um pouco mais ao lado do mestre Luiz trabalha o seu irmão, João Carlos Soares Delgado, de 60 anos, e 46 de profissão. João começou em 1980 com o Velho Espanhol – José Croelhas. “O que me trouxe foi meu finado pai. A gente era barreiro de início, a gente trazia o barro para a olaria para o pessoal trabalhar. Depois ficávamos por aqui na maioria trabalhando no serviço diário. Naquele tempo fui aprendendo com os antigos e no horário de folga deles, na hora do almoço, aproveitava e vinha para o torno. Fui levando tempo para aprender a profissão”, rememora.

Mestre oleiro

No silêncio das tardes de Icoaraci, interrompido por um carro de som com alguma propaganda política, João vai esculpindo utensílios de argila. Com a voz calma, João ensina que a mão não pode estar seca, senão a argila não desliza enquanto é rodada pelo torno. “Com a mão seca, ela vai ficar presa e desmoronar, tem que estar com a mão molhada todo tempo. O suficiente para deslizar”, ensina. Desta forma, João Delgado vai esculpindo de 100 a 200 peças por dia dependendo do tamanho do utensílio. “Eu reconheço todas as peças que fiz. Aqui todo mundo sabe a peça que fez. Se eu ver uma peça numa fotografia eu sei que é minha”, enfatiza.

Com o mesmo nome do apóstolo de Cristo, o oleiro João esculpe o barro dando a forma ao que imagina. A Bíblia referencia essa característica dos oleiros. A metáfora do oleiro e do barro representa a soberania absoluta de Deus sobre a humanidade e a capacidade de moldar os seres humanos, corrigir e transformar. Em uma das principais passagens, Deus manda o profeta Jeremias descer à casa do oleiro para observar o seu trabalho. O profeta vê o oleiro moldando um vaso nas rodas. O vaso se estraga ou quebra nas mãos do artífice. Ao invés de jogar o barro fora, o oleiro amassa o material novamente e faz outro vaso, conforme o seu próprio querer. Ao ouvir sobre as referências à sua profissão no livro sagrado, João faz uma revelação. “É muito lindo que chega até a me arrepiar”, confessa João.

No Dia do Oleiro, João leva consigo o orgulho pelo trabalho. Essa é uma das poucas vezes em que ele deixa transparecer um pouco do ego sobre ofício. “É muito lindo! Fico feliz com o Dia do Oleiro e do Artesão, chega a me engrandecer, só que tem gente que acha que quando falo da minha profissão é para me aparecer. Prefiro ficar na minha”, revela.

Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞
Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱
Belém
.
Ícone cancelar

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!

ÚLTIMAS EM BELÉM

MAIS LIDAS EM BELÉM