Covid e respiradores, uma relação estreita, mas não suficiente

Não são as máquinas que salvam vidas, mas sim um conjunto de profissionais com expertise e dedicação.

Elineth Braga Valente / Especial

Nos últimos meses, o mundo vem passando por um período de profunda apreensão. Passado o ano novo, com toda esperança de mudança e renovação que acompanha a época, fomos surpreendidos com o avanço mundial do acometimento pelo coronavírus. De repente, em questão de dias, o inimigo invisível deixou de ser problema da China e avançou, foi tomando conta, sem cerimonia, de grandes nações, desdenhando de suas megaestruturas de proteção e bombardeando economias e mercado financeiro. 
Mas o pior foi começar a tomar forma cada vez mais íntima. A covid-19, doença traiçoeira causada pelo vírus, deixou de ser um mero número estatístico, incessantemente repetido em meios de comunicação.

Passou a ser a causa do distanciamento das famílias, passou a acometer e levar entes queridos, na maioria das vezes de forma abrupta. Os números começaram a virar nomes, conhecidos e queridos. E então, a ânsia para uma solução rápida e eficaz deixou de ser coisa de chinês e virou objetivo comum.

A fome de informação trouxe consigo alguns termos para o dia a dia de todos, até então restritos ao universo frio e estéril de hospitais. Passamos a saber o que é EPI (Equipamentos de Proteção Individual) e clamar para que os profissionais de saúde fossem protegidos por esses. Medicamentos de nomes complexos passaram a ser linguagem cotidiana na boca de todos, sem trava línguas, e um equipamento foi aparecendo de forma cada vez mais frequente nas notícias: os respiradores.

A eles se impõe a responsabilidade de salvar vidas. A eles foi dado o protagonismo midiático. Chegaram a ser alvo de disputa diplomática entre países poderosos. Os únicos que podem dar sopro de vida aqueles que agonizam em busca de ar, a mais terrível manifestação da doença. Mas, fica a dúvida em alguns. Como máquina, o respirador,  ou ventilador, como especialistas preferem chamar, são realmente a divindade milagrosa? Seriam capazes de reverter todo cenário catastrófico que o mundo se encontra? Seriam capazes de inverter curva ascendente de mortes e acabar com os caminhões frigoríficos abarrotados de corpos? A resposta é não!

Não é bem assim. Há condicionantes. Ainda que imprescindíveis, os respiradores são máquinas. Equipamentos que ao longo da história foram sendo cada vez mais aperfeiçoados para aquilo que se propõem. Substituir a função de nosso órgão vital, o pulmão. Porém, ainda que o avanço tecnológico possibilite cada vez mais essa semelhança entre máquina e pulmão, ainda que seja indiscutível o auxílio deles para garantir a vida, há muito mais por trás do equipamento que fios, sensores e peças.  Há uma equipe.

Para que os ventiladores funcionem são necessários profissionais com expertise e comprometimento, usando suas atribuições e competências de forma multidisciplinar e interdisciplinar. Somente dessa forma será possível tirar da máquina o melhor. Cada caso é único. Cada situação merece uma avaliação complexa de exames, cálculos e escolha dentre varias formas de desempenho do aparelho. Como máquina, precisa de um excelente programador.

Quando usada de forma inadequada, a máquina pode causar danos. Não há tempo para errar. Ali, dependendo do respirador e de toda equipe, está o pai ou mãe de família, o filho ou amor de alguém. Nesse cenário, aparece outro ator. O fisioterapeuta. Profissional que tem mais de 50 anos de regulamentação. Geralmente, associado a transtornos de mobilidade ou dor, no senso comum. Alguns, até pouco tempo, desconheciam a inserção desse profissional de saúde em unidades de terapia intensiva. Ainda que a Anvisa e o Ministério da Saúde já o tenham tornado membro obrigatório e exclusivo em todas as unidades de tratamento intensivo, públicas e privadas, desde 2010. 

A inclusão do fisioterapeuta na UTI se deu depois da demonstração de efetividade promovida pela presença desse profissional na atenção ao paciente crítico, através de estudos de evidência clínica. Dentre os benefícios, estudados e demonstrados por pesquisa e na prática, está a redução do tempo de internação e das sequelas apresentadas.

Em um ambiente de terapia intensiva, a equipe vive em um mundo paralelo. Não há dia ou noite. O som de alarmes é constante. O clima de tensão controlada paira sempre no ar. É necessário. O time tem que ter resposta rápida e estar sempre a postos para intervir o mais breve possível numa intercorrência. Segundos são preciosos, podem ditar a diferença entre vida e morte. O ritmo é frenético e estressante. E nesse ambiente, não há espaço para brigas pelo protagonismo. Pelo menos não deveria haver. Médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e equipe técnica de enfermagem lutam com um único objetivo. Devolver o pai ou a mãe, o filho ou o amor de alguém restabelecido.

Voltando às nossas máquinas, os respiradores, é preciso que governantes e gestores, públicos e privados, atentem para isso. O respirador, sozinho, não salva vidas. É peça fundamental, sim. Mas precisa de um “programador”, que é o fisioterapeuta. Precisa de suporte diagnóstico para que a equipe decida o que é melhor para cada caso. Precisa de abastecimento farmacêutico para que os médicos opinem pelo melhor esquema de tratamento. Para que os enfermeiros conduzam a equipe técnica na programação e cuidados ao paciente. 

Todos como protagonistas. Todos sendo devidamente respeitados e tendo seus trabalhos reconhecidos dignamente. Profissionais que hoje estão na linha de frente nesta guerra. Muitos sendo abatidos, perdendo suas vidas. Muitos abdicando de tudo para salvar vidas de outros. O que esperamos é que, passada a tormenta em que estamos, possamos olhar para trás e tirar desse terrível período da história, embasamento para um mundo melhor. Como sonhou John Lennon, em “Imagine”. E que encontremos novamente motivos para sorrir, ainda que o coração esteja doendo, como diz Charles Chaplin em “Smile”.

 

*A Dra. Elineth Braga Valente é fisioterapeuta. Mestre em Gestão e Serviços em Saúde, com especialização em fisioterapia pneumofuncional, faz parte da equipe da Fundação Santa Casa do Pará. É presidente do Conselho Regional de Fisioterapia de Terapia Ocupacional da 12ª Região, que compreende os estados do Pará, Amapá, Amazonas, Tocantins e Roraima.

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