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Bancas de revistas de Belém se reinventam diante dos avanços tecnológicos

Para continuar com o negócio, alguns donos precisaram oferecer outros tipos de serviço e buscar formas de atrair a clientela

Saul Anjos e Maiza Santos

Em meio ao crescimento do consumo digital de notícias, entretenimento, jogos e conteúdos acessados por celulares e computadores, as tradicionais bancas de revista seguem resistindo em Belém como espaços históricos presentes no cotidiano da população. Além da venda de jornais, revistas, colecionáveis e álbuns de figurinhas, muitas delas precisaram se adaptar às novas demandas. Proprietários de bancas falaram quais são os produtos que mais estão sendo comercializados e os que deixaram de ser consumidos. No entanto, para quem tem o hábito de ler, a ida a esses locais nunca deixou de existir. 

Há 32 anos, José Maria da Silva, de 80 anos, possui uma banca na Praça da República. Ele contou que a movimentação ainda é “muito boa” após três décadas de trabalho, principalmente pela posição do ponto de venda. Porém, segundo ele, as vendas de revistas diminuíram bastante.

image A imagem em destaque mostra José Maria da Silva, de 80 anos, próximo à máquina que utiliza para criar chaves em sua banca de revista. (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

“A maioria faz chave, carimbo e prestação de serviço para o governo ou banco (porta ou cofre). Revista mesmo, só anos atrás que vendia. Hoje ninguém quer mais. As revistas que estão aqui, vou jogar todas fora", afirmou.

Na banca de José Maria, uma atividade que mantém desde que começou a atuar no ramo foi a venda de chave e carimbo. Ele relatou que essas são as duas principais fontes de renda do estabelecimento.

“É uma prestação de serviço e utilidade pública, porque se você não tiver chave, não entra. Se eu não estivesse vendendo carimbo ou chave, já tinha dispensado a banca, porque não tem outra coisa que movimenta. Existem muitas outras bancas que estão fechando porque não têm, talvez, recurso e ficam na revista, só que não vendem nada. Ninguém quer revista. Uns cinco anos atrás caiu a procura por revista", detalhou o idoso, que estimou vender, por dia, cerca de 100 chaves, com um preço variável de R$ 13 a R$ 150.

Apesar da diversidade de mercadorias que é possível encontrar nas bancas, existe uma portaria nº 219/2024, da Secretaria Municipal de Economia (Secon) de Belém, que trata sobre os produtos que podem ser comercializados nesses ambientes. A norma, que leva em consideração o avanço das tecnologias, ampliou o rol de mercadorias que podem ser vendidas nas bancas para que “se mantenham competitivas e relevantes”, conforme diz o texto da portaria.

Entre os 40 itens que listam o que pode ser vendido nas bancas, estão: refrigerante, doce, fones de ouvido, caixas de som e similares, carregador de celular, capas e outros acessórios eletrônicos, serviços de internet, cigarros, ferragens, confecção de chaves, cosméticos de beleza, consertos de relógios, celular, óculos e até gravação em joias e bijuterias.

De pai para filho

Bem próximo da Basílica Santuário de Nazaré, Ramon Silva, 34 anos, segue com a banca de revista deixada pelo pai dele, que iniciou o empreendimento aos 18 anos. E há 20 anos, o ponto ficou sob a gestão de Ramon.

O proprietário também disse que as vendas de revistas diminuíram. Para contornar esse problema, Ramon teve que se reinventar e vender outros tipos de produtos e oferecer diferentes tipos de serviço, como, por exemplo: reparo de celular, venda de capa de celulares, além também da venda de chaves. Entretanto, existe uma época em que a procura pela banca de revista dele aumenta consideravelmente.

Banca de revistas

“A gente se vira. Eu compro produtos chineses para vender, cópia de chaves e carimbo, trabalho com conserto de celular. Hoje, o movimento é com o álbum da Copa. Então, é uma vez a cada quatro anos que a gente fica em alta. Mas, após a Copa, (o movimento) cai de novo e o que sustenta a banca são os serviços. Mas eu tenho clientes que compram coquetel, revistas em quadrinhos, só que muito menor em relação a antigamente", disse ele.

“Futuramente pretendo comprar uma impressora 3D para aumentar o leque de produtos. Se eu tenho esse maquinário, é porque eu acompanho o mercado. Como eu tenho meus clientes de mangá e anime, eu posso imprimir materiais que eles se interessem", destacou.

A procura pelas figurinhas do álbum da Copa é grande, de acordo com Ramon. Ele avaliou que as vendas desta edição superaram em cerca de 30% a anterior, que ocorreu em 2022. “Antes de começar a Copa, já ultrapassou a venda da Copa passada. Acredito que, por conta da paixão de futebol, o álbum é uma lembrança que a pessoa guarda e valoriza”, acrescentou.

Para ele, a intensa procura por esse produto pode estar relacionada às novidades da competição de ser a primeira com 48 seleções e 104 jogos. “Tudo isso influencia”, considerou Ramon sobre a demanda pelo álbum e as figurinhas da Copa. Devido à grande procura, Silva fez da banca dele um ponto de troca de figurinhas durante todos os domingos, das 8h às 12h.

Hábito da leitura

image Comerciante Porfirio Nazareno de Oliveira (Fotos: Thiago Gomes | O Liberal)

O comerciante Porfirio Nazareno de Oliveira, de 75 anos, sempre passa na banca de revista. Desde os 14 anos mantém o hábito da leitura e sempre preferiu o contato com a leitura em papel em vez do digital. “Ler é cultura. Essa tradição veio do meu pai. Essa molecada de hoje tem uma cabeça diferente”, contou.

image Policial militar da reserva Francisco Carlos dos Santos Araújo (Foto: Thiago Gomes | O Liberal)

Da mesma forma, o policial militar da reserva Francisco Carlos dos Santos Araújo, 56, sempre leu bastante, seja gibis ou jornais. Ele informou que todo dia lê o jornal impresso. “Leio muito o Amazônia. Minha filha é engenheira mecânica e também tem esse hábito de ler. Isso é muito importante, porque, hoje em dia, as pessoas só querem saber de internet. Jornal, revista e gibi são bons para manter o hábito da leitura. Adoro ler", concluiu. 

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