'Ausência de planejamento urbano', diz engenheiro sobre alagamentos em Belém

Especialista aponta que o problema vai além do volume de chuva e exige soluções estruturais e de longo prazo

O Liberal
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As recorrentes cenas de alagamentos em Belém durante períodos de chuva intensa não são causadas apenas pelo volume de água que cai sobre a cidade. Segundo o engenheiro civil Jaisson Cavalcante, o problema é resultado de uma combinação de fatores naturais com falhas históricas de planejamento urbano e de gestão da drenagem.

De acordo com o especialista, Belém possui condições naturais desfavoráveis, por estar praticamente ao nível do rio e sofrer forte influência das marés altas de rios como o Guamá e da Baía do Guajará. Somado a isso, a capital paraense enfrenta chuvas intensas e concentradas, típicas da região amazônica.

“Quando chove forte ao mesmo tempo em que a maré está alta, a água simplesmente não consegue escoar”, explica.

Outro fator determinante é a urbanização desordenada ao longo das décadas. Houve ocupação de áreas de várzea e baixadas, além da realização de aterros irregulares que bloquearam canais naturais de drenagem. O crescimento urbano ocorreu, segundo Jaisson, sem respeitar o sistema natural de escoamento das águas.

O engenheiro também aponta a insuficiência do sistema de drenagem da cidade. Muitos canais são antigos, subdimensionados ou mal executados. Além disso, Belém carece de reservatórios de amortecimento, conhecidos como “piscinões”, que ajudariam a reter a água das chuvas mais fortes.

“Grande parte das obras foi feita sem integração entre drenagem, pavimentação e saneamento, o que acaba transferindo o problema de um ponto para outro”, avalia.

A falta de manutenção preventiva agrava ainda mais o cenário. Canais e bueiros frequentemente estão assoreados e cheios de lixo, com redes de drenagem obstruídas. Segundo o engenheiro, a manutenção quase sempre ocorre de forma reativa, apenas após os alagamentos, e não de maneira contínua e planejada.

Para Jaisson Cavalcante, o problema não é apenas a chuva, mas a ausência de um planejamento urbano integrado. Ele destaca que muitos projetos de drenagem não consideram, de forma conjunta, a influência da maré, o volume real das chuvas e o crescimento urbano. Além disso, a gestão pública fragmentada faz com que cada obra resolva um ponto isolado, mas acabe criando novos problemas em outras áreas da cidade.

Apesar da gravidade da situação, o engenheiro afirma que Belém tem solução, desde que sejam adotadas ações estruturais e permanentes. Entre as medidas necessárias, ele cita investimentos em macrodrenagem, com readequação e ampliação dos canais existentes, construção de reservatórios de retenção e instalação de comportas e estações elevatórias em áreas influenciadas pela maré.

Na microdrenagem, Jaisson defende bueiros e galerias compatíveis com a realidade climática da cidade, padronização técnica nos novos loteamentos e revisão de projetos antigos. Ele também ressalta a importância da infraestrutura verde, como pavimentos permeáveis, parques alagáveis que funcionem como “esponjas urbanas” e a recuperação de áreas de várzea onde for possível.

Outro ponto fundamental, segundo o engenheiro, é um planejamento urbano mais rigoroso, com proibição de ocupações em áreas críticas, regularização fundiária acompanhada de obras reais e atualização do Plano Diretor com foco específico na drenagem urbana.

A manutenção permanente do sistema também é indispensável. Jaisson defende a limpeza periódica dos canais independentemente do período do inverno amazônico, além de ações de educação ambiental para reduzir o descarte irregular de lixo, que obstrui bueiros e contribui diretamente para os alagamentos. O monitoramento contínuo do sistema completa o conjunto de medidas necessárias.

Questionado sobre a viabilidade dessas soluções, o engenheiro é categórico: a solução existe, mas não é simples nem barata. Ele cita exemplos de cidades como Recife e partes de Manaus, que enfrentam desafios semelhantes e conseguiram reduzir drasticamente os alagamentos por meio de planejamento técnico, investimento contínuo e integração entre engenharia e meio ambiente.

“O que não existe é solução rápida e de baixo custo. Belém precisa de um projeto de longo prazo, e não apenas de obras emergenciais com o intuito de resolver problemas momentâneos”, conclui.

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