Nova apreensão de ônibus ‘Geladão’ reduz frota e prejudica usuários em Belém
Apresentados pela Prefeitura de Belém como a maior entrega de ônibus novos da história da capital paraense, os veículos agora estão sendo retirados das ruas por problemas financeiros
Anunciados há um ano como símbolo de uma “revolução” no transporte público de Belém, os ônibus do tipo “Geladão” voltam ao centro de uma crise que atinge diretamente milhares de passageiros da Região Metropolitana. Apresentados pela Prefeitura de Belém como a maior entrega de ônibus novos da história da capital paraense - com promessa de conforto, modernização e melhoria na mobilidade urbana -, os veículos agora estão sendo retirados das ruas por problemas financeiros.
No entanto, a prefeitura, que divulgou com estardalhaço o lançamento desses veículos, agora se exime de responsabilidade, dizendo que se trata de uma questão de natureza contratual e financeira entre as empresas de transporte e as instituições responsáveis pelo financiamento dos veículos.
Embora o valor oficial do investimento na aquisição dos 300 ônibus do tipo “Geladão” não tenha sido divulgado pela Prefeitura de Belém nem pelas empresas responsáveis pela frota, estimativas do setor de transporte indicam que cada ônibus urbano moderno equipado com ar-condicionado, Wi-Fi, acessibilidade, GPS e câmeras de monitoramento pode custar entre R$ 900 mil e R$ 1,2 milhão. Documentos técnicos e levantamentos especializados apontam que veículos desse padrão frequentemente ultrapassam a marca de R$ 1 milhão por unidade.
Com base nesses valores médios de mercado, a frota de 300 ônibus anunciada em Belém em abril de 2025 pode representar um investimento estimado entre R$ 260 milhões e R$ 360 milhões. Os veículos foram apresentados como símbolo da modernização do transporte público da capital paraense, com promessa de mais conforto, segurança e eficiência para os usuários da Região Metropolitana.
Na época do lançamento, em abril de 2025, a gestão municipal assumiu protagonismo no processo de renovação da frota, destacando os coletivos equipados com ar-condicionado, Wi-Fi, acessibilidade e monitoramento como resposta às principais reclamações da população.
Enquanto o impasse se arrasta, usuários convivem diariamente com a redução da frota, aumento do tempo de espera nas paradas, superlotação e atrasos para compromissos de trabalho, saúde e educação. Só nesta semana, segundo as informações disponíveis, pelo menos 12 ônibus “Geladão” foram retirados de circulação, afetando linhas em bairros de Belém, Ananindeua e Marituba. A crise expõe o contraste entre a promessa de modernização do transporte coletivo e a realidade enfrentada pela população que depende do sistema todos os dias.
Nesta segunda-feira (4), houve a retirada desses veículos que atendiam linhas nos bairros do Jurunas, São Brás, Bengui, Tapanã, Canudos, Terra Firme e Pratinha, em Belém; Cidade Nova, em Ananindeua; e Mário Couto, em Marituba. Ainda segundo as informações disponíveis, a apreensão ocorreu por conta de débitos pendentes entre as empresas de transporte e instituições bancárias responsáveis pelo financiamento dos veículos, que começaram a circular em abril de 2025, há pouco mais de um ano.
Segunda apreensão este ano
Esta é a segunda ocorrência do tipo. Em março deste ano, 14 ônibus do tipo 'geladão', que integram o sistema de transporte coletivo de Belém, foram apreendidos após decisão da instituição financeira responsável pelo financiamento dos veículos. À época, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belém (Setransbel) informou que a apreensão se deu mediante da "incapacidade das empresas de cumprirem os compromissos financeiros assumidos na aquisição da frota".
Os ônibus pertencem às empresas Auto Viação Monte Cristo (12 veículos) e Transportes Canadá (2). Em nota, o Setransbel atribui o episódio ao atual cenário de desequilíbrio econômico-financeiro do sistema de transporte coletivo em Belém e na Região Metropolitana. Segundo a entidade, a tarifa pública vigente não acompanhou a planilha técnica aprovada pelo Conselho Municipal de Transporte em 2025, mesmo após acordo judicial firmado com o poder público.
Em relação a esta segunda apreensão, a reportagem entrou em contato com o Setransbel, mas não houve retorno. Há um ano, o prefeito de Belém, Igor Normando, participou do que foi anunciada como a maior entrega de ônibus novos da história da capital paraense. Os novos veículos, chamados de “Geladão”, ainda segundo a propaganda oficial, oferecem maior conforto e segurança aos usuários. Foram entregues 300 novos ônibus modernos, equipados com ar-condicionado, Wi-Fi e recursos de acessibilidade para a população. Os veículos, chamados de “Geladão”, passam a integrar imediatamente as linhas da Região Metropolitana de Belém.
“Estamos entregando ônibus que representam um avanço histórico na mobilidade urbana de Belém. Esses novos veículos respondem às principais reclamações da população e oferecem um transporte mais digno, seguro e confortável. Estamos iniciando uma verdadeira revolução no transporte público de Belém. Nosso objetivo é renovar toda a frota e elevar o padrão de qualidade do serviço com o apoio do Governo do Estado. A população merece e vai ter um transporte público moderno, eficiente e acessível”, disse, à época, o prefeito Igor Normando.
A ação foi anunciada como resultado do processo de modernização do sistema de transporte público, coordenado pela Secretaria Municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade Urbana (Segbel). Os novos veículos oferecem maior conforto e segurança aos usuários, incluindo elevadores para cadeirantes, espaços para pessoas com deficiência, câmeras de monitoramento interno, GPS em tempo real e motor com padrão ambiental que contribui para a redução da emissão de poluentes.
Na ocasião, o prefeito Igor disse que esse é o novo momento do transporte público, reforçando o anúncio da gratuidade dos ônibus de Belém. “Além da renovação da frota, estamos garantindo que a população possa se deslocar gratuitamente nesses dias, reduzindo o impacto no orçamento das famílias e incentivando o uso do transporte coletivo para lazer, cultura e convivência social”, reforçou o prefeito.
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Usuários dizem que são prejudicados diariamente
Mas, desde então, o que se verifica, na prática, é que o transporte público em Belém continua enfrentando problema, o que prejudica diariamente os usuários desse sistema. Isso está ocorrendo com seguidas apreensões desses veículos. Na hora de fazer o anúncio dos novos ônibus, a prefeitura de Belém assumiu o protagonismo desse processo. Agora, se exime de responsabilidade e atribui o problema às próprias empresas.
A redução da frota tem afetado diretamente a rotina dos usuários, que relatam aumento no tempo de espera, superlotação e prejuízos em compromissos diários, como trabalho, saúde e educação. Enquanto aguardava ônibus na avenida Almirante Barroso, no bairro do Marco, o aposentado José Dionísio Sobreira, de 70 anos, comentou os impactos da retirada dos coletivos. “Isso nos afeta diretamente. Afeta porque a gente tem para resolver questões de educação, de saúde e no dia a dia. Afinal, são menos ônibus circulando pelas ruas da cidade”, disse.
Com isso, afirmou, os usuários passam mais tempo nas paradas de ônibus. “Sem contar que, no dia a dia, já é muito complicado pegar ônibus. A gente espera mais de meia hora”, comentou. José Dionísio também defendeu uma solução para o problema. “Tem que pagar as dívidas. O usuário não tem nada a ver. O pessoal do governo tem que resolver. O usuário já é muito sacrificado no dia a dia”, afirmou.
“Eles anunciaram ônibus de graça, mas não tem ônibus”, diz manicure
A manicure Francisca Pereira, de 64 anos, citou longos períodos de espera e dificuldades para embarcar. “Fico uma hora na parada esperando ônibus. Dia de domingo eles botaram de graça, mas não tem ônibus. Eles colocam pouquíssimo ônibus”, contou. “Eu espero muito na parada. Tudo porque não tem ônibus. E, quando eles vêm, vêm lotados de manhã”, afirmou. Francisca lembrou um episódio recente. “Vou te dar um exemplo de ontem (terça-feira). “Eu cheguei (na parada de ônibus) 5 horas da tarde, aqui na entrada da (avenida) Júlio César. Eu saí 6 horas, porque passaram sete ônibus. Dizem que é conta de mentiroso, mas não é. Sete ônibus não pararam de tão lotado que eles iam”, disse.
Ainda segundo a manicure, a situação compromete os compromissos diários dela. “Prejudica. Só anda atrasada nos meus compromissos, mesmo saindo com antecedência de uma hora”, disse. Francisca também fez um apelo às autoridades. “Que eles ajeitem esses ônibus, porque todo mundo precisa. Todo mundo vai trabalhar e anda apertado dentro dos ônibus”, disse. “Não adianta fazer propaganda e não ter esses ônibus”, afirmou.
A ambulante Cristina Corrêa, de 43 anos, reforçou as dificuldades enfrentadas pela população. “Afeta muito, não só eu, como muitos que saem de casa já na expectativa de contar com esses ônibus e são esses ônibus que mais faltam nas ruas”, disse. A falta de ônibus prejudica os usuários, afirmou. “Eles não estão no local certo e nem na hora certa. Quem pena mais é o povo aí”, completou. Cristina destacou ainda o impacto para trabalhadores com horário fixo, como estresse e aborrecimento. “Eu trabalho por conta própria. E as pessoas que têm hora para chegar na hora certa no trabalho? Aí é que pegam mais. Passam esse constrangimento todo dia”, afirmou.
O que diz o Setransbel
Em nova nota divulgada nesta sexta-feira (8), o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belém (Setransbel) confirmou que parte da frota dos ônibus com ar-condicionado, conhecidos como “Geladões”, foi retomada pela instituição financeira responsável pelo financiamento dos veículos, por meio de medida judicial ligada aos contratos firmados para renovação da frota.
Segundo o sindicato, a situação decorre da dificuldade das empresas operadoras em manter o pagamento das parcelas do financiamento contratado há cerca de um ano, em meio ao que classificou como um cenário de “forte pressão financeira” sobre o sistema de transporte coletivo. A entidade afirma que o problema é consequência do “desequilíbrio econômico-financeiro” acumulado ao longo dos últimos anos.
O Setransbel argumenta que existe uma diferença crescente entre a tarifa pública homologada, valor pago pelos usuários, e a chamada tarifa técnica, calculada com base nos custos reais da operação. Conforme a entidade, quando essa diferença persiste por longos períodos, a arrecadação deixa de ser suficiente para cobrir despesas essenciais, como combustível, folha de pagamento, manutenção, peças, pneus, tributos e financiamentos.
Ainda de acordo com o sindicato, o cenário foi agravado pelo aumento do preço do óleo diesel e também pela incorporação de novos custos trabalhistas decorrentes dos acordos coletivos firmados em 2025 e 2026, que, segundo a entidade, ainda não teriam sido considerados na composição da tarifa vigente.
“O desequilíbrio compromete a capacidade das empresas de manterem seus compromissos financeiros, inclusive aqueles assumidos para a renovação da frota. Como consequência, investimentos realizados para melhorar a qualidade do serviço acabam sendo impactados”, informou o sindicato.
O Setransbel afirmou ainda que as empresas vêm adotando medidas operacionais para reduzir os impactos à população e que acompanha a situação junto às operadoras e à instituição financeira, buscando alternativas para regularizar os contratos de financiamento e manter os veículos em operação. A entidade destacou que eventuais novas retomadas dependerão das condições contratuais de cada financiamento e das negociações em andamento entre as empresas e o banco financiador.
O que diz a Prefeitura:
Em nota, a Prefeitura de Belém informa que está ciente da situação envolvendo a retirada de veículos do sistema de transporte público na Região Metropolitana e acompanha o caso de forma permanente, em diálogo com os órgãos competentes e com as empresas operadoras.
A gestão municipal ressalta que se trata de uma questão de natureza contratual e financeira entre as empresas de transporte e as instituições responsáveis pelo financiamento dos veículos, não sendo, portanto, uma dívida da Prefeitura. A Prefeitura também destaca que a situação decorre de obrigações assumidas pelas próprias empresas, sendo de responsabilidade direta das operadoras.
Ainda assim, considerando os impactos à população, a Prefeitura atua para mediar soluções que possibilitem a regularização da operação, auxiliando as empresas na busca por alternativas para reaver os veículos e garantir a continuidade e a qualidade do serviço prestado aos usuários. A Prefeitura reforça que seguirá monitorando a situação e adotando as medidas necessárias para evitar prejuízos à população. Para informações detalhadas sobre a operação, a orientação é que o Setransbel seja acionado, por se tratar de questões relacionadas à gestão e às obrigações das operadoras.
Cronologia da crise dos ônibus “Geladão” em Belém
Abril de 2025
Prefeitura anuncia “revolução” no transporte público
A Prefeitura de Belém anunciou a entrega de 300 novos ônibus do tipo “Geladão”, apresentados como a maior renovação de frota da história da capital paraense. Durante o lançamento, o prefeito Igor Normando afirmou que os veículos representavam um “avanço histórico” na mobilidade urbana e prometeu melhorias no conforto, segurança e acessibilidade do transporte coletivo.
Características e promessas dos novos ônibus
Os coletivos passaram a circular em linhas da Região Metropolitana de Belém equipados com: ar-condicionado; Wi-Fi; elevadores para cadeirantes; espaços reservados para pessoas com deficiência; câmeras de monitoramento interno; GPS em tempo real; motores menos poluentes.
A gestão municipal também vinculou a renovação da frota à implantação da gratuidade nos ônibus aos domingos e feriados, medida anunciada como incentivo ao uso do transporte público.
2025 e início de 2026 - Persistência de problemas no sistema
Apesar do anúncio de modernização, usuários continuaram relatando problemas recorrentes no transporte público, tais como: demora nas paradas; superlotação; redução da oferta de ônibus; atrasos para trabalho, consultas médicas e estudos.
Com o passar dos meses, os “Geladões” começaram a enfrentar problemas relacionados ao financiamento da frota.
Março de 2026 - Primeira grande apreensão de veículos
Quatorze ônibus do tipo “Geladão” foram apreendidos por decisão da instituição financeira responsável pelo financiamento dos veículos. Segundo o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belém (Setransbel), as empresas operadoras não conseguiram cumprir os compromissos financeiros assumidos na compra da frota.
Os veículos pertenciam às empresas:
Auto Viação Monte Cristo;
Transportes Canadá.
Maio de 2026 - Nova apreensão agrava crise no transporte
Na segunda-feira (4), pelo menos 12 novos ônibus “Geladão” foram retirados de circulação. Os veículos atendiam linhas em bairros de Belém — como Jurunas, São Brás, Bengui, Tapanã, Canudos, Terra Firme e Pratinha — além de Cidade Nova, em Ananindeua, e Mário Couto, em Marituba.
Os ônibus foram encontrados em um terreno e também em vias do bairro Boa Vista, em Marituba, próximos a uma empresa de guincho.
Motivo das apreensões
De acordo com as informações disponíveis:
As empresas de ônibus acumularam débitos com instituições bancárias;
Os veículos estavam financiados;
Diante da inadimplência, os bancos determinaram a apreensão dos coletivos.
A Prefeitura de Belém afirmou, em nota, que o problema é de natureza “contratual e financeira” entre empresas e instituições financeiras, destacando que a dívida não pertence ao município.
Impactos para a população
Com menos ônibus circulando, usuários passaram a enfrentar aumento do tempo de espera; ônibus ainda mais lotados; dificuldades para embarque; atrasos em compromissos diários; estresse e insegurança no deslocamento.
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