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Comportamento no trânsito impulsiona aumento de acidentes em Belém, avalia especialista

"É essencial que motoristas e motociclistas conheçam e pratiquem a direção defensiva", diz engenheiro Benedito Luis de França, especialista em trânsito

Dilson Pimentel

A morte da adolescente Clara Yasmin Sousa, de 14 anos, atropelada na tarde de sexta-feira (24) na avenida Senador Lemos com a passagem Gastão, no bairro da Sacramenta, em Belém, reforça um cenário de insegurança enfrentado diariamente por ciclistas na capital paraense. A jovem trafegava pela ciclofaixa quando foi atingida por um carro de passeio em frente a um posto de combustíveis, no momento em que retornava da escola. Ela morreu na hora.

O caso ocorre em meio ao aumento de sinistros de trânsito registrados em Belém, na Região Metropolitana e em todo o estado do Pará, situação que preocupa especialistas e autoridades. Para o engenheiro Benedito Luis de França, especialista em trânsito, a principal causa está diretamente relacionada ao comportamento dos condutores e ao desrespeito às normas básicas de circulação.

“Temos observado e constatado a ocorrência de diversos 'acidentes' de trânsito, que hoje nós chamamos de 'sinistros' de trânsito”, afirmou. De acordo com ele, essas ocorrências “se devem fundamentalmente à falta de observação dos motoristas e dos motociclistas em relação ao capítulo 3 do Código de Trânsito Brasileiro, que versa justamente sobre as regras gerais, sobre as normas gerais de circulação e conduta. O especialista destacou que é essencial que motoristas e motociclistas conheçam e pratiquem a direção defensiva. A palavra "acidente" carrega a ideia de algo inevitável, imprevisível - como se fosse fruto do acaso. Já o termo "sinistro de trânsito" é utilizado para reforçar que, na maioria dos casos, essas ocorrências podem ser evitadas, pois estão ligadas a fatores como comportamento humano, falhas de infraestrutura ou desrespeito às leis.

“É fundamental que o motorista e o motociclista conheçam, obedeçam e pratiquem a direção defensiva, obedeçam as normas gerais de circulação e conduta, que estejam respeitando a sinalização de trânsito, respeitando o direito de preferência numa determinada localização do sistema viário, quando você chega numa intersecção, num cruzamento”, explicou.

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No trânsito, mais vulneráveis os ciclistas e os pedestres, diz especialista

Ele também reforçou a importância de respeitar os usuários mais vulneráveis no trânsito. “Principalmente os motoristas respeitando os mais vulneráveis, respeitando os motociclistas, respeitando os ciclistas, porque, pela legislação, os mais fortes são responsáveis pelos mais vulneráveis. E, no trânsito, nós temos como os mais vulneráveis os ciclistas e os pedestres”, disse.

Apesar das regras estabelecidas, Benedito Luis de França apontou que muitos condutores insistem em cometer infrações. “Infelizmente, o que nós temos observado nas vias públicas da cidade de Belém são centenas de motoristas e motociclistas que insistem em serem infratores contumazes, que insistem em estarem cometendo infrações de trânsito. E, quando o motociclista e o motorista insistem em cometer infrações de trânsito, começam a ocorrer os sinistros de trânsito”, alertou.

Por isso, afirmou, é de fundamental importância conhecer as normas gerais de circulação e conduta e conhecer a sinalização de trânsito, "para que efetivamente possamos ter segurança viária no trânsito de Belém e de todas as cidades da região metropolitana e do Estado do Pará". Entre as principais orientações, ele destacou o respeito aos limites de velocidade, a manutenção da distância segura entre veículos e a conservação adequada dos automóveis. “É preciso respeitar os limites de velocidade. É preciso que o motorista não dirija com seu veículo ‘colado’ no veículo da frente, que ele respeite as distâncias de segurança. É de fundamental importância fazer a manutenção preventiva do seu veículo”, afirmou.

Tráfego na contramão e o uso indevido das calçadas

Ele também citou a necessidade de verificar itens como freios, suspensão, alinhamento e balanceamento. O engenheiro ressaltou ainda que a segurança viária depende de um conjunto de fatores. “É importante termos a engenharia de tráfego, termos a educação para o trânsito e termos a fiscalização de trânsito”, disse. Como exemplo de imprudência, ele citou a avenida Augusto Montenegro. “Se você observar a Augusto Montenegro, principalmente no período noturno, a partir das 18 horas, mesmo no período matutino, em finais de semana e feriados, a maioria dos motoristas ignora a sinalização semafórica existente em diversos pontos, avançando de forma absurda o sinal vermelho, desrespeitando a sinalização e a vida no trânsito”, contou.

Outras infrações também são recorrentes, como o tráfego na contramão e o uso indevido das calçadas. “Motoristas que, para fazer contramão, trafegam com seus veículos sobre as calçadas, que devem ser exclusivas dos pedestres”, disse Benedito Luis de França. Por fim, o especialista faz um apelo por mais conscientização. “É preciso que todos os motoristas e motociclistas tenham conscientização viária, respeito pelas normas de trânsito e fundamentalmente respeito pela vida no trânsito. Lembre-se: desacelere, seu bem maior é a vida no trânsito. No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas. Respeite sempre a vida no trânsito”, concluiu.

Ciclistas relatam dificuldades diárias pela cidade

Ciclistas que trafegam por diferentes vias de Belém relatam dificuldades diárias e riscos constantes diante da falta de infraestrutura adequada e do desrespeito de condutores. A realidade é vivida por pessoas de diferentes idades e profissões, que apontam problemas como ausência de ciclovias, invasão desses espaços por veículos e situações que colocam suas vidas em perigo.


A técnica de administração Nilda Seabra, de 65 anos, afirma que enfrenta obstáculos ao circular pela avenida Nazaré, um dos principais corredores de tráfego da capital paraense e onde não há ciclofaixa. Segundo ela, mesmo nas vias onde existe ciclovia, o espaço costuma ser ocupado irregularmente. “Nas vias que existem a ciclovia, são carros parados, motos que invadem a ciclovia”, contou.

Diante da falta de estrutura adequada, Nilda admite que, por vezes, precisa adotar práticas arriscadas. “Como a cidade não foi projetada para ciclista, infelizmente, eu ando na contramão. Eu sei que estou errada, mas fazer o que?”, diz. Ela explica que utiliza essa estratégia para conseguir visualizar melhor os veículos. “Aqui na Nazaré, eu ando na contramão para ter uma visão dos carros. Se a gente andar na mão, às vezes, o carro só falta sair levando a pessoa”, afirma.

Além disso, a ciclista conta que, em alguns momentos, precisa recorrer à calçada. “Às vezes eu vou para a calçada, com cuidado de não atropelar pessoas, porque não tem espaço”, destaca. Nilda também faz um apelo às autoridades para melhorar a segurança dos ciclistas. “Que tire esse povo da ciclovia que fica invadindo. Ali na Duque (avenida Duque de Caxias) é horrível”, critica. Segundo ela, a situação gera indignação e até conflitos. “Às vezes eu saio da bicicleta e mando a pessoa sair com o carro da ciclovia. É arriscado até eu levar um tiro, mas a revolta é grande”, afirma.

Falta de ciclovias

Já o entregador por aplicativos Matheus Farias, de 30 anos, que trabalha há cerca de sete anos na área, também circula pela avenida Nazaré e enfrenta desafios semelhantes. Para ele, a principal dificuldade é a falta de ciclovias. “Seria bem melhor para a gente. E, quando tem, o pessoal é mal educado, estaciona. E, se a gente for falar alguma coisa, corre risco de levar porrada”, afirma.

No dia a dia, ele adota cuidados para evitar acidentes. “Tento estar com a minha bicicleta em dia, pois isso ajuda muito, e ficar de olho no trânsito, porque tem muito carro e moto que não dão seta, jogam para o nosso lado, batem e vão embora”, conta. Outro problema frequente, segundo ele, envolve veículos estacionados. “Às vezes o passageiro abre a porta e não olha se vem alguém, e acaba batendo na gente”, diz.

Matheus reforça que a atenção precisa ser constante. “A tensão é redobrada, com certeza”, afirma. Como solução, ele defende maior fiscalização e investimento em infraestrutura. “Fiscalizar mais a ciclovia e fazer um levantamento para ver onde precisa ter ciclovia, porque ajuda bastante”, sugere. O estudante Guilherme Malcher, de 16 anos, também mencionou riscos ao trafegar de bicicleta pela avenida João Paulo II, em direção à avenida Doutor Freitas.

Segundo ele, um dos principais problemas está nas condições da ciclofaixa. “Como ela não está tão bem projetada, fica essas poças de água. A gente tenta desviar e acaba indo para a faixa, o que é perigoso”, explica. Ele também aponta outros obstáculos, como a presença de tachões e lixo na via. “Tem essas ‘tartarugas’ e muito lixo que o pessoal joga. Isso aumenta o risco”, afirma.

Além disso, obras na região têm agravado a situação. “Fecharam um lado da pista, que é nossa saída. A gente acaba vindo na contramão, o que é perigoso também”, relata. A invasão da ciclofaixa por motociclistas é outro problema frequente. “Moto invade muito. E ainda reclamam, buzinam, 'trancam ' a gente”, diz. Para se proteger, Guilherme afirma que mantém atenção constante e reduz a velocidade em trechos mais críticos. “A gente sempre tenta diminuir a velocidade, porque não sabe quem está vindo. Às vezes, precisa até dar prioridade para quem vem de moto. Hoje vinham dois rapazes de moto. Diminuimos a velocidade e esperamos ele passar, dando uma prioridade que eranossa”, destaca ele, que pedava com um amigo.

Acidente com Clara Yasmin

Na manhã de terça-feira (28), foi registrado mais um acidente envolvendo um ciclista na avenida Senador Lemos. A colisão ocorreu no mesmo cruzamento onde, na sexta-feira (24), um atropelamento resultou na morte da adolescente Clara Yasmin Sousa, de 14 anos. Sobre esse assunto, a Redação Integrada pediu um posicionamento mais amplo da Prefeitura de Belém e aguarda retorno.

Mas, esta semana, a Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade de Belém (Segbel), informou que já trabalha em um projeto para aprimorar a mobilidade e a segurança viária em toda a área onde a estudante morreu atropelada, com implantação prevista com a maior brevidade possível, buscando garantir mais segurança para ciclistas, pedestres e condutores que circulam diariamente pelo trecho.

A implantação de sinalização horizontal e vertical, além de equipamento semafórico, no cruzamento da avenida Senador Lemos com a passagem Gastão, no bairro da Sacramenta, já foi iniciada, o que pôde ser verificado na manhã desta quarta-feira (29). A secretaria reforça que a fiscalização de trânsito na região é realizada regularmente por agentes de trânsito, com ações de orientação, monitoramento e autuação de infrações. Diante dos recentes acidentes registrados no local, o trabalho operacional seguirá sendo intensificado para ampliar a segurança viária e contribuir para a redução de ocorrências.

E, na quinta-feira (30), a Prefeitura de Belém, por meio da Segbel, promoveu nesta quinta-feira (30), uma operação educativa estratégica no cruzamento da Avenida Senador Lemos com a Travessa Perebebuí, no bairro da Sacramenta. A ação, coordenada pela Educação para o Trânsito (CET) com suporte da fiscalização, destacou a importância da visibilidade como fator essencial para a redução de acidentes. O local escolhido recebeu um novo conjunto semafórico e reforço na sinalização viária, medidas que integram os investimentos municipais para organizar o fluxo em áreas de grande circulação de veículos e ciclistas.