Chuva volta a alagar bairros de Belém e moradores relatam prejuízos: 'A gente fica ilhado'
Comunidades do Curió-Utinga e Terra Firme denunciam ruas tomadas por lama e água suja, casas invadidas e dificuldades para sair de casa durante temporais
Após mais um período de fortes chuvas em Belém, como ocorreu na noite desta terça-feira (12), moradores voltaram a denunciar os transtornos provocados pelos alagamentos recorrentes em bairros historicamente afetados pela falta de infraestrutura e drenagem adequada. Com ruas inundadas, lama, água suja invadindo casas e dificuldades de mobilidade, famílias convivem diariamente com prejuízos e o medo constante de novas chuvas, mesmo diante da situação de emergência reconhecida na capital paraense.
Em muitos casos, moradores relatam que ficam ilhados dentro de casa e, quando precisam sair para trabalhar, ir à igreja ou resolver compromissos pessoais, são obrigados a “meter o pé na água” e enfrentar a lama acumulada nas vias. Essa é a realidade enfrentada, por exemplo, por moradores dos bairros Curió-Utinga e Terra Firme. E, quase um mês após a forte chuva que caiu sobre Belém em menos de 24 horas, a prefeitura de Belém segue sem dar respostas concretas para os moradores do Tapanã, Parque Verde, Cabanagem, os bairros da bacia do Igarapé Mata Fome.
Na última sexta-feira (8), o prefeito Igor Normando desmarcou a reunião, pela segunda vez, em que deveria informar sobre a obra para quem vive o medo constante de novos prejuízos com alagamentos, no entorno do Mata Fome.
Na passagem Gaspar Dutra, próximo à avenida João Paulo II, no Curió-Utinga, a água toma conta da rua sempre que chove forte. O aposentado Felipe da Silva, de 74 anos, morador da área há cerca de dez anos, disse que os alagamentos impedem os moradores até mesmo de sair de casa. “Quando dá uma chuva forte, atinge aquela área ali e a gente fica impedido de sair. Fica ilhado. Não pode sair de casa porque está muito ruim”, contou. Segundo ele, o problema se estende da avenida João Paulo II até o interior da passagem. “Dali da João Paulo para cá fica tudo alagado”, afirmou.
Felipe disse que, quando surge alguma necessidade urgente, não há alternativa além de atravessar a água acumulada na rua. “A gente tem que meter o pé na água para resolver alguma coisa necessária”, disse. Ele também contou que ambulâncias e motoristas de aplicativo evitam entrar na área durante as chuvas. “Com chuva, não conseguem entrar. Tem uns que ainda se arriscam, mas não é bom. Molha tudo dentro do carro”, afirmou. O aposentado fez um apelo às autoridades para que sejam tomadas providências na área. “Que eles venham fazer alguma coisa e olhem para esse lado nosso aqui, porque está complicado. Quando chove, vira um aguaceiro doido”, observou.
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Moradora chora ao falar das dificuldades diárias
A poucos metros dali, a empregada doméstica Elizabeth Dias, de 72 anos, também convive diariamente com os prejuízos provocados pelas enchentes. Enquanto limpava a frente da própria casa, na manhã desta quarta-feira (13), ela contou que já tentou elevar o nível do imóvel para evitar que a água invadisse a residência, mas sem sucesso. “Todo dia é isso (limpando), porque a chuva é forte”, contou.
“Eu mandei fazer essa calçada, mandei subir os tijolos, aumentei o nível da casa aqui na frente e lá atrás, mas não deu jeito”, lamentou. Segundo ela, a água entra na residência sempre que a chuva é mais intensa. “Desde ontem (terça-feira) eu estou presa dentro de casa, não posso sair”, contou. Elizabeth afirmou que os transtornos atingem até a rotina da família. “Meu neto tem carro e moto, mas nem traz mais para casa porque não tem condições”, contou. Ela acredita que o principal problema está na rede de drenagem entupida. “Essa tubulação está toda entupida. Se não fosse isso, não acontecia”, disse.
Os prejuízos financeiros também fazem parte da rotina da moradora. Na semana anterior, ela perdeu a geladeira após o motor do equipamento queimar por causa das enchentes. “Meu sobrinho tentou consertar, trocou o motor, mas a geladeira não ficou boa”, afirmou. Por causa disso, Elizabeth decidiu interromper a venda de "chopp" que fazia em casa. “Parei de vender porque minha geladeira pifou”, relatou. Cansada da situação, ela disse que pensa até em deixar o bairro. “Todo dia que chove forte eu tenho que tirar lixo da frente da casa. Eu não aguento mais isso. Estou cansada. Estou querendo até me mudar daqui”, desabafa. Na hora da entrevista, e ao relatar sua realidade diária, ela chorou.
Também morador da passagem Gaspar Dutra, o vigilante Manoel Brito, de 58 anos, contou que os alagamentos já causaram grandes prejuízos dentro da própria residência. Segundo ele, qualquer chuva é suficiente para transformar a área em um cenário de caos. “Qualquer chuvazinha que dá, alaga tudo. Não passa carro, não passa moto e nem a gente consegue passar, porque a água chega na cintura”, afirmou.
Manoel contou que já perdeu móveis e eletrodomésticos por causa das enchentes. “Já perdi sofá, já perdi geladeira. Agora estou com uma geladeira nova e coloquei até um tripé para deixar ela mais alta e não perder de novo”, contou. Segundo ele, o período chuvoso se tornou motivo de medo entre os moradores. “Quando chega o tempo de chuva, fica um Deus nos acuda”, afirmou.
Além da água acumulada, o vigilante citou o aparecimento de animais peçonhentos na área. “Aparece cobra aqui. Esses dias eu fui pegar a moto do meu filho e tinha uma cobra enorme lá atrás. Quase fui picado”, contou. Para ele, a solução passa pela substituição da tubulação da rua. “Tentaram desentupir quando o prefeito veio aqui, melhorou um pouco, mas voltou tudo de novo”, afirmou.
Idoso com mobilidade reduzida denuncia alagamentos históricos
O aposentado Cícero Soares Silva, de 61 anos, que possui mobilidade reduzida e utiliza muletas para se locomover, relatou as dificuldades enfrentadas diariamente para trafegar pela passagem Gaspar Dutra, próxima à avenida João Paulo II, no bairro do Curió-Utinga, em Belém.
Segundo moradores, a situação é histórica e a comunidade convive há anos com alagamentos, lama e a ausência de saneamento básico. Os problemas se agravam em dias chuvosos, como foi registrado entre a noite de terça-feira (12) e a madrugada desta quarta-feira (13), aumentando o sentimento de abandono entre quem vive na área.
De acordo com os relatos, a água acumulada dificulta a circulação de pedestres e veículos, além de aumentar os riscos de acidentes e doenças. “Tem que andar com muito cuidado aqui. Obrigação do prefeito chamar essas pessoas que trabalham na prefeitura para fazer a análises aqui. Eles estão errados mesmo”, desabafou Cícero, após passar pela água empossada.
Terra Firme: passagem vira rio
Na Terra Firme, o cenário é semelhante. Na passagem Kadjá, o carpinteiro José Amado Pinheiro Ferreira, 65, morador da área há 40 anos, afirmou que a situação só piorou ao longo das décadas. “Aqui, quando chove, vira um rio”, disse. Segundo ele, a lama e a água acumulada dificultam a circulação de moradores. Para amenizar os impactos, o próprio carpinteiro improvisa soluções. “Estou quebrando uma parede e vou colocar pedras aí para as mulheres e as pessoas passarem por cima”, contou.
José Amado criticou obras realizadas na área, que, segundo ele, não resolveram o problema. “Fizeram tubulação, disseram que ia melhorar, mas nunca terminaram. Está tudo enterrado aí”, afirmou. Ele também reclamou da falta de manutenção e disse que precisa limpar sozinho áreas tomadas por mato e entulho para evitar novos transtornos. “Quando começa a chover, já fica a preocupação da gente”, contou.
Os relatos mostram que, para muitos moradores de Belém, cada período de chuva significa enfrentar ruas tomadas por lama e água suja, casas invadidas pelas enchentes e o isolamento dentro das próprias residências. Enquanto aguardam soluções definitivas, comunidades inteiras seguem convivendo diariamente com os impactos causados pelos alagamentos recorrentes. A cada chuva, o drama recomeça.
Problemas:
Passagem Gaspar Dutra, bairro Curió-Utinga:
alagamentos constantes, moradores ilhados, água invadindo casas, lama e água suja nas ruas, dificuldade de acesso para ambulâncias e carros de aplicativo, prejuízos com móveis e eletrodomésticos, tubulações entupidas e aparecimento de cobras.
Passagem Kadjá, bairro Terra Firme:
rua tomada pela água durante as chuvas, lama dificultando a passagem de moradores, problemas de drenagem, obras consideradas inacabadas ou ineficientes, falta de manutenção e acúmulo de mato e entulho.
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