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Vacinação de porta em porta e combate às fake news são lições do Marajó no combate à covid-19

O Arquipélago marajoara abriga uma das populações mais vulneráveis do País diante de uma pandemia. Em maio de 2020, Breves chegou a ter 11,55% de taxa de letalidade da covid-19, que foi maior que a taxa registrada em Belém (11,29%)

Dilson Pimentel e Tarso Sarraf

Em janeiro de 2021, o Pará iniciava um dos esforços pela saúde pública mais esperados e debatidos dos últimos anos. O início da imunização contra a covid-19, que mobilizava esperanças, controvérsias globais e o trabalho de cientistas de todo o mundo, chegava finalmente ao território paraense, com as primeiras doses aqui desembarcadas - cercadas de grande repercussão e imbróglios logísticos, nacionais e também regionais.

No Arquipélago Marajoara, além das longas distâncias entre sedes municipais e comunidades ribeirinhas, entre as principais dificuldades no enfrentamento à pandemia esteva a desinformação, o que gerou dúvidas acerca da vacina e impediu que muitos se vacinassem contra o novo coronavírus na região. Ainda assim, alguns dos municípios marajoaras mais afetados pela doença driblaram adversidades e deram exemplos de como promover a imunização, apesar dos seus francos desafios socioeconômicos. 

"Como viram que aconteceu nada, e as pessoas não viraram jacaré, aderiram (à vacina contra a covid-19)" - Jucineide Alves Barbosa, secretária de Saúde de Breves.

Os dados do primeiro dia de junho de 2022 do painel Vacinômetro, da Secretaria de Saúde Pública do Estado do Pará (Sespa) mostraram que Breves, o município mais populoso, com 103 mil habitantes – e o que mais sofreu impactos no auge da pandemia, a partir de maio de 2020, quando nenhuma vacina ainda estava disponível -  já havia aplicado 166.754 doses da vacina contra a covid-19. A cobertura total (incluindo primeira, segunda e terceiras doses e mais a dose única) do município contra a covid-19 chegou aos 69,11% ao fim de maio. No Pará, a cobertura da primeira dose é maior: já é de 91,95%, enquanto a aplicação da segunda dose e da dose única alcançou o patamar de 88,18%. No Estado, 26,94% já foram imunizados com a terceira dose.

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Há dois anos, ao fim de maio de 2020, quando o Pará chegou aos 31 mil casos de covid-19 e a 2,5 mil mortes confirmadas pela doença, Breves, situada a 222 quilômetros de Belém, somava 476 casos e 55 óbitos. Naqueles dias, o índice de letalidade para a covid-19 no município alcançou o índice de 11,55% - maior que o da própria capital paraense, que, ao fim de maio de 2020, somava uma taxa de letalidade de 11,29% para a covid-19, com 10.452 casos e 1.180 mortes registrados. Ainda assim, recorda a secretária de Saúde de Breves, Jucineide Alves Barbosa, os moradores da zona rural eram muito resistentes à vacina. Além das rejeições naturais ao imunizante, como ocorre com qualquer vacina, havia a sombra das dúvidas quanto à eficácia da vacina e questionamentos nas redes sociais.

Famílias ribeirinhas do Marajó (Tarso Sarraf / O Liberal)

Como viram que aconteceu nada, e as pessoas não viraram jacaré, aderiram. Agora, a gente está com boa cobertura na zona rural. Na zona urbana a cobertura é bem melhor com dose de reforço”, avalia a secretária. Segundo ela, a resistência à vacina foi grande. Em janeiro e fevereiro deste ano, quando o Pará vivia a terceira onda da epidemia, havia muita gente com a segunda dose atrasada. “Fizemos uma megacampanha, com apelo à população. Em janeiro, fechamos as festas novamente, para poder conter o avanço da doença. Fechamos Breves por 15 dias. Os donos de estabelecimentos ajudaram. Conseguimos avançar bastante na vacinação”, disse.

Melgaço: há quase um ano sem óbitos, e sem morte alguma na zona rural

Apesar dos graves problemas sociais, o município marajoara de Melgaço, de 28 mil habitantes e localizado a 250 quilômetros de Belém (cerca de 13 horas de barco da capital paraense), se destacou no enfrentamento à pandemia. No total, foram registrados até agora 20 óbitos causados pela doença. E surpreendentemente, nenhum ocorreu na zona rural - exatamente onde se temia por números mais altos. Há quase um ano Melgaço também não registra óbito por covid-19. Ainda assim, o município também enfrentou dificuldades para promover a vacinação com mais agilidade.

 Jovem em Melgaço toma banho de máscara no rio em 2020 (Tarso Sarraf / O Liberal)

“A pandemia vinha devastando por onde passava. Nos preparamos para quando ela chegasse, montando nossas equipes, criando um plano de ação, dividindo funções e nos munindo de EPIs [equipamentos de proteção individual], testes, medicamentos, materiais e insumos para conter a propagação da covid-19”, detalha o coordenador geral da saúde municipal de Melgaço, o enfermeiro Daniel Dias Balbi.

Uma das estratégias de Melgaço foi criar um local para atendimento específico de casos suspeitos, além da abrir uma ala hospitalar para internação de confirmados. A saúde municipal também levou ações de casa em casa, por toda zona urbana e rural, instruindo moradores, orientando comunidades inteiras e identificando casos para que fossem tratados de imediato, em tempo hábil.

Kit Covid 2020 (Tarso Sarraf / O Liberal)

"Quando a gente conversava em grupos regionais médicos, eles achavam que não tínhamos chance nenhuma na pandemia. E nós conseguimos" - Handressa Maira Rodrigues Ribas, médica lotada em Melgaço.

“Em nossos pensamentos, havia o receio pelo desconhecido: quais seriam as consequências para Melgaço caso falhássemos no planejamento, na execução, diagnóstico, tratamento, contenção e erradicação do vírus”, justifica Daniel Balbi. “Os moradores passaram a adoecer e nos deixavam ansiosos para que houvesse um final feliz para cada caso. Quando ocorria um triste desfecho, todos nos deprimíamos. Mas tínhamos que seguir. E, além de lutar contra a doença física, passamos a conviver com as doenças mentais que foram surgindo na população, em decorrência de todo esse processo. Era preciso não desistir, sabendo o que seria de cada um caso perdêssemos o controle da situação”.

Meses de luta, de casa em casa, à espera da imunização

Balbi recorda quando o município passou a executar a campanha de vacinação, após uma exaustiva temporada de luta contra a pandemia – semanas a fio na linha de frente, quando apenas as máscaras, roupas especiais e os esforços de isolamento eram efetivamente os únicos escudos contra o coronavírus. Quando as doses finalmente chegaram, mais de oito meses depois do pior momento da pandemia vivido no Arquipélago Marajoara, a imunização foi levada a todos os postos de saúde da zona urbana e zona rural, simultaneamente, e de forma itinerante, literalmente de casa em casa, de porta em porta.

Escola Municipal Francisco Araújo em 2022 (Tarso Sarraf / O Liberal)

“Atualmente, aderimos ao cronograma da ação nas nossas escolas e locais onde se realizam programas sociais, para fazer todo o esquema vacinal. Além disso, tratamos das sequelas físicas e mentais que a doença deixou na população”, justifica o enfermeiro. Nesse esforço, passou a ser crucial falar da importância da imunização e combater a desinformação acerca da importância da vacina.

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Lotada em Melgaço, a médica Handressa Maira Rodrigues Ribas lembra que o cenário de trabalho era de “desespero” em alguns momentos, no auge da pandemia. “A área da saúde é muito complexa. Lidar com uma doença que não se tinha um mínimo de domínio era, para nós, a parte mais difícil”. Ao chegar em comunidades de difícil acesso, outro desafio: por questões religiosas, muitos não queriam ser atendidos. “Houve muita resistência. Teve dias em que perdemos horas sentados em uma comunidade, conversando com o pastor para liberarem nossa equipe para fazer testes”.

Melgaço é o município com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixo do Brasil. “Quando a gente conversava em grupos regionais médicos, eles achavam que não tínhamos chance nenhuma na pandemia. E nós conseguimos, com o pouco que tínhamos. A gente conseguiu passar por tudo isso. Perdemos poucos pacientes”, sorri a médica.

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“A gente criou um grupo para discutir o que seria feito. A decisão foi coletiva. E, no auge da pandemia, formou-se equipe específica para atuar só no combate à covid-19. O hospital tinha uma ala de covid, mas não podia atender só covid. Tinha partos, outras doenças, internações de idosos”, relembra o enfermeiro Jaymison Barbosa de Freitas. Ele esteve entre os que trabalharam diretamente no enfrentamento à doença no município. No começo da pandemia, atuou na atenção primária. Hoje é coordenador de Vigilância em Saúde de Melgaço.

Equipe de saúde 2020 (Tarso Sarraf / O Liberal)

“A gente não esperou paciente se agravar para procurar atendimento no hospital. Começamos pela zona rural. Fomos de casa em casa, independentemente de ter ou não alguém doente. Se tivesse, a gente ia na casa com a equipe”, pondera Barbosa. Para isso, era preciso se locomover por até quatro horas, de voadeira. A estratégia deu certo: apenas quatro pacientes da zona rural foram tratados na cidade. E não houve nenhum óbito de covid-19 na zona rural de Melgaço.

Enfrentando o receio da vacina

Em uma quinta-feira, no último dia 12 de maio, a reportagem de O Liberal acompanhou uma ação de vacinação, feita por profissionais de saúde na escola municipal Francisco Viana Araújo, na comunidade ribeirinha de Vila Jerusalém, no rio Tajapuruzinho, em Melgaço. A meta era vacinar crianças e adultos. A equipe usava camisas com a inscrição “repudie as fake news contra a vacina”. Quase um ano e meio depois do início do esforço de imunização contra a covid-19 no Brasil, ainda há comunidades inteiras com receio sobre os efeitos da vacina.

Equipe de saúde 2022 (Tarso Sarraf / O Liberal)

A dona de casa Janete dos Santos, 25 anos, toma a terceira dose. Ela é a mãe de Johnathan, de seis anos, que tomou a segunda dose. O pai dela, seu Antônio, de 80 anos, morreu de covid-19 em novembro de 2021. “Acho que tomou a vacina. Antes de pegar a covid-19, não tinha doença. Mas, depois, apareceu uns problemas de saúde nele”, diz a mãe. Janete foi imunizada. Mas ainda não se sentiu mais aliviada após tonar a vacina. “Não tenho a certeza de que ele [o filho] tomou a vacina e vai estar protegido, não vai pegar [o vírus]. Trouxe ele para tomar, mas vou ficar com cisma”.

Cristiane e seu filho em 2022 (Tarso Sarraf / O Liberal)

Mais adiante, a equipe de saúde de Melgaço para na casa de Cristiane Pantoja Maia Correia, dona de casa de 38 anos que mora na comunidade Assembleia de Deus do Brasil, no rio Quara. Com medo das notícias que circularam, não se vacinou antes. “Eu não tomei por descuido”, começou dizendo. Mas, depois, admitiu: “Meu marido mandava ir lá. Mas eu tinha medo de tomar e piorar. Por isso não ia. Meu marido Gedilson fala: “Tu vai ter que ir’”. Muito gripada, Cristiane não pôde ser vacinada nesse dia. “Olha, irmão, acho que nós todos peguemos. Não fizemos teste. A gente tomou muito remédio. Graças a Deus, melhoremos”.

Edelcilene Glória da Silva tomando sua primeira dose da vacina contra covid-19 (Tarso Sarraf / O Liberal)

Edelcilene Glória da Silva, 30 anos, aproveitou a movimentação para tomar a primeira dose. Ela mora “no interior” de Melgaço. São três horas de rabeta. “Fica difícil. Ainda não tinha dado. A gente só vai na cidade pra receber, quando consegue um dinheiro. E quando recebe, não dá mais tempo”. Nesse dia, Edelcilene conseguiu vacinar seus filhos Bianca, 12, Deibison, 6, e Paloma, 8. “São dez em casa. Todos pegaram. Meu pai foi mais grave. Mas hoje estão todos bem”.

“Já tomei. A dose única”, assevera Raimundo Ferreira da Silva, 51, que trabalha em limpeza de açaizal na comunidade Assembleia de Deus do Brasil. Separado, ele toma conta de três crianças. Raimundo diz para os profissionais de saúde que a filha dele, Nayara, ainda não tinha se vacinado. O pai procura a carteira de vacinação da filha. Senta no chão de madeira da pequena casa. Abre um saco plástico e começa a busca. E encontra. “Teve covid em casa. Aqui foi quase tudo, a bem dizer. Não foi forte”.

A equipe de saúde continua a viagem. Até chegar ao último e mais longínquo destino possível, entre as últimas comunidades da rota estabelecida em Melgaço. É lá que está a humilde casa de madeira de Nayara Pantoja, mãe de 17 anos, às margens do rio Quara.

Nayara Pantoja sendo vacinada contra covid (Tarso Sarraf / O Liberal)

Para entrar em sua casa, assim como nas demais da comunidade, o acesso é por palafitas, passarelas de madeira. São as calçadas das comunidades ribeirinhas. Nayara estava na rede com a filha, que vai fazer 10 meses de idade, quando a equipe chega. A jovem, que tomou a segunda dose, não teve covid-19. Para o marido dela, Armando, ainda falta tomar a terceira dose. “Estou mais aliviada em tomar agora”, diz, em tom de agradecimento, com o bebê de colo. A vida suspira. Mais um naco de esperança toma novo fôlego no peito da jovem mãe marajoara.

A série

Marajó: desafios e superação na Amazônia após auge da pandemia

Dois anos depois de relatar, nos municípios de Breves, Melgaço e Portel, o cotidiano e desafios no auge da pandemia da covid-19, em maio de 2020, O Liberal volta ao Arquipélago do Marajó e publica série especial, em sete partes, mostrando como a população enfrentou a pandemia e detalhando a rotina de superação e enfrentamento de velhos desafios - numa região ainda marcada com os piores índices socioeconômicos do Brasil. Personagens e suas histórias expõem contrastes do antes e depois no cenário imposto pelo coronavírus à saúde, economia e educação.

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Série do Marajó
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