Seletividade alimentar pode trazer impactos sociais e para a saúde de pessoas com TEA
A condição se caracteriza pela preferência restrita por determinados alimentos
A seletividade alimentar faz parte da rotina de 53,4% de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), segundo um estudo publicado na Revista da Associação Brasileira de Nutrição (Rasbran). A condição se caracteriza pela preferência restrita por determinados alimentos, além da resistência em experimentar novos, e exige respeito e paciência para garantir que a alimentação seja nutritiva e adaptada às necessidades de pessoas com autismo.
“A seletividade alimentar é muito comum em pessoas com TEA e pode acontecer principalmente por fatores sensoriais como aversão ou preferência a textura, cheiro, cor e temperatura, experiências anteriores negativas e pela necessidade de previsibilidade e rotina, que tornam mudanças na alimentação desafiadoras”, explica a nutricionista Thais Veloso, especialista em Nutrição nas doenças crônicas, com atuação em seletividade alimentar no TEA, TDAH e Síndrome de Down.
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O universitário Felipe Vilhena, de 22 anos, convive com uma seletividade alimentar abrangente. Ele possui diagnóstico de TEA desde 2021 e é nível 1 de suporte, o que faz com que tenha mais autonomia para algumas atividades, mas ainda assim precise de assistência. “Não gosto e evito comer feijão, cebola, alho, peixe e também certos molhos. Os motivos variam desde a textura, sabor, cheiro, aspecto, sensação na hora da deglutição ou até todos ao mesmo tempo”, conta.
Um dos principais problemas de Felipe é com a cebola, ingrediente clássico para o preparo dos alimentos na cozinha, como arroz, massas e carnes. Basta mastigar um pequeno pedaço em alguma comida para que ele sinta ânsia de vômito, situação que persiste desde a infância.
“Desde que me entendo por gente e consigo me comunicar com outras pessoas, sempre expressei meu desgosto por essas comidas. Uma vez meus pais me obrigaram a tentar comer um arroz com cebola e eu vomitei no meu prato inteiro, tudo que tinha comido, e fiquei sem fome. Mesmo hoje em dia eu acabo tendo bastante problemas para me alimentar devidamente”, relata.
Impactos
A seletividade alimentar pode levar a deficiências nutricionais, como falta de fibras, ferro, vitaminas e minerais, bem como problemas gastrointestinais como constipação, comum pela baixa ingestão de fibras. “Tem impacto social, devido a dificuldade em participar de refeições coletivas ou eventos. E risco metabólico, a partir do excesso de alimentos ultraprocessados, podendo aumentar risco de obesidade e doenças crônicas”, alerta a nutricionista Thais.
A nutricionista destaca que, na prática clínica, se observa que muitos indivíduos com TEA tendem a preferir alimentos de textura uniforme, como purês, massas, arroz branco, ou alimentos crocantes. Há também uma busca maior por comidas com sabor suave e previsível, como pão, batata, frango empanado e ultraprocessados.
“Os indivíduos também preferem alimentos de aparência simples e sem mistura de ingredientes, evitando misturas como o feijão com arroz e ensopados. É claro que isso varia muito de pessoa para pessoa, mas há uma tendência a buscar alimentos que transmitam segurança sensorial”, destaca.
Já na visão do universitário Felipe Vilhena, os desafios que surgem com a seletividade alimentar vão além da saúde física. Ele conta que conhece outras pessoas com TEA que possuem uma seletividade alimentar maior, que faz com que sintam grandes dificuldades em manter uma alimentação adequada, seja em variedade ou quantidade.
“Por conta dessas diferenças, alguns podem ser mais como eu, que tem problemas em contextos sociais, como almoços ou encontros onde que nada que é servido ele consegue comer. Já outros podem ter dificuldades em relação à saúde, ou problemas financeiros para conseguir um acompanhamento de um nutricionista”, argumenta.
Tratamento é individualizado
O tratamento da seletividade alimentar é realizado em conjunto com uma equipe multidisciplinar, composta por psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e outros profissionais. Na nutrição, o processo envolve avaliação nutricional detalhada, planejamento individualizado, com respeito às preferências e limitações sensoriais e sessões de terapia alimentar, sendo essencial para garantir variedade, equilíbrio e aporte nutricional adequado para a manutenção da saúde do paciente.
Em casos de resistência ao consumo de grãos e feijão, por exemplo, existem algumas estratégias para o desconforto gerado pela textura ou aparência. É possível transformar o feijão em bolinhos ou snacks crocantes, usar em hambúrgueres vegetais ou patês, para trazer um preparo diferente e adaptado.
A mistura deve ser gradual, em pequenas quantidades, em preparações já aceitas pela pessoa com TEA, com atenção para ser um alimento similar em grupo alimentar, textura, cor e sabor. No caso de crianças e adolescentes, os pais podem investir em uma apresentação lúdica, que desperte curiosidade, sem pressão para comer o alimento.
“Vale ressaltar que, para o paciente que apresenta seletividade alimentar, algumas etapas são importantes de acontecerem antes da ingestão do alimento se fato. São elas: tolerar, interagir, cheirar, tocar, provar e comer”, pontua Thais.
Na região Norte, existem alimentos ricos para a saúde, segundo a nutricionista. “Começando pelos peixes amazônicos, ricos em ômega-3); nosso açaí natural, fonte de antioxidantes e fibras; Castanha-do-pará, rica em selênio e gorduras boas; e frutas regionais como cupuaçu, bacaba e taperebá. A inclusão pode ser feita em formas adaptadas: sucos, cremes, farinhas, bolos, snacks ou misturados em preparações já aceitas pela pessoa com TEA”, diz.
O tratamento da seletividade alimentar, no caso de pessoas com TEA, exige respeito, paciência e criatividade. “O papel do nutricionista é fundamental para garantir que a alimentação seja nutritiva e adaptada às necessidades sensoriais e culturais”, finaliza Thais.
Estratégias em casa
Existem algumas formas de ajudar uma pessoa com TEA a melhorar a seletividade alimentar em casa:
- Apresentar o alimento sem obrigar a consumir
- Participação ativa do paciente no preparo, escolha e manipulação dos alimentos
- Garantir um ambiente tranquilo para as refeições, reduzir estímulos sonoros e visuais durante a refeição como TV, tablet ou celular
- A família deve dar exemplo por meio da alimentação saudável
Fonte: nutricionista Thais Veloso
*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Ana Laura Carvalho, coordenadora do Núcleo de Atualidades
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