Data center de IA em Belém é alvo de pedido de fiscalização ao Ministério Público do Pará
Deputada estadual Lívia Duarte questiona consumo de recursos do projeto BEL1; empresa afirma que operação terá impacto hídrico zero
A instalação do primeiro data center em Belém voltado para inteligência artificial, o projeto BEL1, motivou um pedido de fiscalização preventiva apresentado pela deputada estadual Lívia Duarte (PSOL) ao Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) na última segunda-feira (13). A representação cobra uma análise rigorosa e preventiva sobre a segurança hídrica, a estabilidade energética e os potenciais impactos socioambientais do empreendimento de R$ 250 milhões na capital paraense.
O empreendimento, planejado em parceria pelas empresas Elea Data Centers e Axia Energia na avenida Artur Bernardes, zona portuária, tem previsão para entrar em operação no 2º trimestre de 2027. Na primeira fase de operação, a estrutura terá capacidade elétrica de 7,5 Megawatts (MW), com projeção de expandir até 100 MW nas etapas futuras.
O ofício da parlamentar, encaminhado ao coordenador do Centro de Apoio Operacional de Meio Ambiente do MPPA, solicita que o órgão atue na tutela de direitos difusos e coletivos para apurar detalhadamente a viabilidade hídrica e elétrica da estrutura perto da subestação Miramar.
A reportagem tentou contato com o MPPA para obter esclarecimentos sobre a abertura do procedimento, mas o órgão estadual não retornou com respostas até o fechamento desta edição.
Deputada aponta riscos de sobrecarga de energia em Belém
No documento enviado ao MPPA, a deputada Lívia Duarte expressa preocupação com a estabilidade e com os possíveis impactos tarifários sobre o sistema elétrico regional. "A magnitude do empreendimento impõe rígida atenção e controle preventivo pelas instâncias de defesa da ordem jurídica e do meio ambiente (...) para resguardar o patrimônio ambiental, a segurança hídrica, a estabilidade energética e o interesse socioeconômico do povo paraense", justifica a parlamentar no ofício, cujo teor foi enviado à reportagem de O Liberal. Ela destaca que os servidores de inteligência artificial operam com Unidades de Processamento Gráfico (GPUs) de alto desempenho, que demandam cinco vezes mais eletricidade do que os servidores tradicionais.
"Especialistas apontam que, ao atingir a expansão planejada de 100 MW, o data center demandará uma carga contínua equivalente ao consumo de cerca de 500 mil residências de padrão médio", compara a deputada no documento. Além da rede de eletricidade, a representação aponta o risco de consumo excessivo de água no resfriamento das GPUs de alta densidade.
Diante do cenário de crise climática e das vulnerabilidades de saneamento da Região Metropolitana de Belém, a parlamentar cobra a apresentação de um plano de mitigação climática, inventário de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e salvaguardas sobre o uso de geradores a diesel para emergências energéticas.
Elea Data Centers garante consumo zero de água no resfriamento
Procurada pela reportagem de O Liberal, a Elea Data Centers esclareceu em nota oficial que o projeto BEL1 foi concebido para operar com total eficiência operacional e conformidade com a legislação ambiental. A empresa informou que o empreendimento utilizará um sistema de refrigeração por expansão direta (DX), que é uma tecnologia baseada em ar-condicionado. "Isso significa que o empreendimento não utiliza água no processo de resfriamento dos equipamentos, não havendo consumo hídrico para essa finalidade", ressaltou a companhia de tecnologia.
Dessa forma, a operação do BEL1 não deve concorrer com o abastecimento público de água da capital, nem exercer pressão sobre a infraestrutura hídrica municipal. Segundo a empresa, o modelo adotado em suas instalações permite que o índice médio de eficiência hídrica (WUE) resulte em uma ordem de 0,01, o que está entre os patamares mais baixos de todo o setor de tecnologia. A Elea acrescentou que a implantação do prédio está estritamente condicionada à conclusão de estudos técnicos, processos de licenciamento e diligência socioambiental sob a fiscalização da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas).
Abastecimento de energia do Bel 1 será gradual e renovável
Em relação ao fornecimento elétrico, a Elea Data Centers declarou que a primeira fase de 7,5 MW tem demanda energética comparável à de outros grandes empreendimentos urbanos de Belém, como shopping centers. O abastecimento dessa etapa inicial já está equacionado pela parceria com a Axia Energia, operadora da subestação de alta tensão Miramar, vizinha ao local do projeto. A companhia garantiu ainda que toda a energia utilizada no local será de origem 100% renovável, adquirida por meio de contratos de compra de energia (PPAs) certificados pelo sistema internacional de créditos de carbono I-RECs.
"Uma nova conexão somente é autorizada quando há capacidade disponível na rede. Essas regras garantem que a entrada de novos consumidores não comprometa a qualidade ou a estabilidade do fornecimento de energia para a população", ressaltou a empresa em nota técnica. A companhia explicou que a ampliação da capacidade do data center ocorrerá de forma planejada e gradual nas próximas fases, dependendo de novos estudos técnicos de viabilidade de rede e de novas autorizações dos órgãos reguladores, garantindo que o avanço tecnológico não dispute recursos diretamente com a população do Pará.
A Elea informou que ainda não teve acesso formal ao teor do ofício encaminhado pela deputada estadual Lívia Duarte ao Ministério Público, mas reforçou que mantém as portas abertas ao poder público. "A companhia permanece integralmente à disposição para abordar o projeto, prestar todos os esclarecimentos necessários, participar de reuniões e contribuir tecnicamente para o debate, sempre com o objetivo de construir soluções que promovam o desenvolvimento sustentável do Pará", declarou a empresa.
Projeto BEL1 - O que já foi anunciado
- Investimento inicial: R$ 250 milhões
- Previsão de início da operação: 2º trimestre de 2027
- Localização: avenida Artur Bernardes (zona portuária, próxima à subestação Miramar)
- Capacidade energética inicial: 7,5 MW (comparável à demanda de um grande shopping center)
- Capacidade energética máxima: até 100 MW (equivalente ao consumo contínuo de 500 mil residências de padrão médio)
- Origem da energia: 100% renovável, lastreada por contratos PPAs e certificados I-RECs
- Consumo de água: zero para resfriamento (tecnologia de expansão direta DX)
- Eficiência hídrica (WUE): índice médio de aproximadamente 0,01
Fontes: Elea Data Centers / AXIA Energia
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