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Um mês sem Maduro: veja o que mudou e o que segue igual na Venezuela

Abertura do setor petroleiro, anistia política e reaproximação com os EUA marcam nova fase

Hannah Franco

Um mês após a saída de Nicolás Maduro do poder, a Venezuela atravessa um período de transição acelerada, marcado por reaproximação com os Estados Unidos, mudanças profundas no setor petrolífero e sinais de flexibilização política. A queda do ex-presidente ocorreu após a ofensiva militar norte-americana iniciada na madrugada de 3 de janeiro, que resultou na captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, levados para Nova York para responder a acusações de narcoterrorismo, tráfico de drogas e conspiração. Ambos se declaram inocentes.

Desde então, o país vive um cenário que especialistas classificam como de “estabilidade tutelada”, sem ruptura completa com o chavismo, mas sob influência direta de Washington. A seguir, veja o que mudou e o que permanece igual na Venezuela sem Maduro.

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1. Novo comando, mas sem ruptura total

Com a prisão de Maduro, o poder foi assumido pela então vice-presidente Delcy Rodríguez, que governa de forma interina. Apesar de manter o discurso chavista e preservar figuras centrais do regime, como Diosdado Cabello e Vladimir Padrino López, Rodríguez promoveu trocas em ministérios e cargos estratégicos das Forças Armadas.

Analistas avaliam que o atual governo busca recalibrar o sistema, cedendo em pontos-chave para garantir estabilidade política e evitar novos confrontos. A propaganda oficial, no entanto, segue exaltando Maduro, tratado por aliados como “prisioneiro de guerra”.

2. Reaproximação com os Estados Unidos

Uma das mudanças mais visíveis foi a retomada das relações diplomáticas entre Caracas e Washington, rompidas desde 2019. Os Estados Unidos anunciaram a reabertura da embaixada em Caracas e nomearam Laura Dogu como nova representante diplomática no país.

O presidente Donald Trump afirmou publicamente que acompanha de perto os rumos da Venezuela e deixou claro que o cumprimento das metas acordadas será determinante para a continuidade do apoio político e econômico ao governo interino.

3. Abertura do setor petrolífero

Sob forte pressão internacional, o governo interino aprovou uma reforma da Lei de Hidrocarbonetos, abrindo o setor petrolífero à atuação direta de empresas estrangeiras. A nova legislação elimina a obrigatoriedade de joint ventures com a estatal PDVSA, reduz royalties e simplifica tributos.

A medida representa, na prática, o fim do modelo estatista implantado após a nacionalização do petróleo. O objetivo é atrair investimentos bilionários para recuperar uma indústria afetada por anos de corrupção e má gestão. Estimativas apontam que a Venezuela precisaria de cerca de US$ 150 bilhões para retomar plenamente sua capacidade produtiva.

4. Petróleo volta a fluir para os EUA

Caracas retomou o envio de petróleo para os Estados Unidos, agora sem os descontos impostos pelo embargo de 2019. Parte das receitas passou a ser administrada sob supervisão americana, e a primeira operação teria rendido cerca de US$ 500 milhões.

Trump também declarou que petroleiras americanas, como a Chevron, devem ter papel central na nova fase da exploração energética venezuelana.

5. Anistia e libertação de presos políticos

Outro ponto central da transição foi o anúncio de uma lei de anistia geral para presos políticos, ainda em tramitação no Parlamento. Desde 8 de janeiro, organizações de direitos humanos contabilizam centenas de libertações, incluindo jornalistas e opositores do regime.

Também foi anunciado o fechamento do Helicoide, prisão que se tornou símbolo de denúncias de tortura durante o governo Maduro. Apesar dos avanços, entidades afirmam que centenas de presos políticos ainda permanecem detidos.

6. O medo diminuiu, mas não desapareceu

Embora haja sinais de flexibilização, especialistas apontam que a repressão não foi totalmente desmontada. Críticas ao governo ainda são feitas com cautela, e o chavismo mantém forte presença institucional.

“O sistema não caiu. Ele está se adaptando”, avaliam analistas, que enxergam uma liberalização pontual, sem mudanças estruturais profundas no regime político.