‘É uma pirataria, para não dizer que é furto’, diz presidente da ANJ sobre uso de jornalismo por IA
Presidente-executivo da ANJ avalia como “histórica” decisão do Cade de aprofundar investigação sobre uso de notícias por plataformas digitais sem remuneração aos veículos de imprensa
A decisão do plenário do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) de aprofundar a investigação sobre o uso de conteúdo jornalístico pelo Google sem remuneração aos veículos de mídia foi classificada como “histórica” por Marcelo Rech, presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ). Em entrevista ao Grupo Liberal, ele afirmou que o avanço da inteligência artificial agravou os desafios à sustentabilidade econômica da imprensa e criticou o uso de reportagens por plataformas digitais sem compensação financeira.
Cade investiga uso de conteúdo jornalístico por plataformas
Segundo Marcelo Rech, a abertura do processo administrativo pelo Cade representa um avanço importante em uma discussão que se arrasta desde 2019 e agora passa a incluir o uso de conteúdo jornalístico por ferramentas de inteligência artificial.
“Parece uma decisão muito importante, uma decisão histórica muito positiva por parte do Cade”, afirmou.
Para ele, a expansão das plataformas de IA elevou a gravidade do problema ao utilizar conteúdos produzidos por veículos de imprensa para treinar modelos e oferecer respostas aos usuários sem redirecionamento às fontes originais.
Rech citou empresas como Google, OpenAI, Claude, Perplexity, DeepSeek e Grok ao afirmar que essas tecnologias utilizam reportagens, colunas e notícias produzidas “a um custo muito alto” pelas redações.
“Eles entraram nos sites, muitos deles protegidos por barreiras de assinatura, capturaram todos os conteúdos digitais, levaram para alimentar seus modelos e agora oferecem respostas sem pagar nada a quem produziu aquele conteúdo. Isso aí tem um nome, isso é uma pirataria, no mínimo, para não dizer que é furto”, declarou.
O dirigente defendeu que haja uma regulamentação baseada em acordos entre plataformas e empresas jornalísticas. “Nós acreditamos que o melhor processo é que haja um acordo entre as plataformas e os veículos de comunicação para que haja um uso autorizado desses conteúdos”, disse.
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Imprensa enfrenta adaptação após perda de receitas
Ao comentar o cenário econômico da imprensa brasileira, Marcelo Rech destacou que os jornais foram um dos primeiros setores impactados pela transformação digital e pela migração de receitas publicitárias para a internet.
Ele lembrou que, ainda nos anos 1990, os classificados impressos — importante fonte de receita para jornais — começaram a desaparecer com o avanço da internet comercial.
“Houve realmente uma perda muito significativa de receitas. Todos os veículos de comunicação do planeta, e no Brasil não é diferente, sofreram muito com a internet”, afirmou.
Apesar dos impactos, o presidente da ANJ avalia que o setor conseguiu se reinventar. Segundo ele, os jornais deixaram de ser apenas produtos impressos e passaram a operar em diferentes formatos e plataformas. “Os jornais hoje são usinas de informação que produzem conteúdo em 360 graus, 24 horas por dia, sete dias por semana”, declarou.
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