Paraenses criam cursinho digital gratuito e acessível para o Enem

O Japiim Educação entrega conteúdo e um plantão tira-dúvidas no WhatsApp dos alunos. Quem precisar, pode receber esse conteúdo já adaptado à Libras

Victor Furtado

Três professores, dois deles paraenses, idealizaram um cursinho popular, digital e gratuito, de preparação para o Enem. O conteúdo é entregue direto no WhatsApp dos alunos e o aplicativo de mensagens serve como um plantão tira-dúvidas. Chama-se Japiim Educação. É voltado a estudantes da rede pública e conta com aulas adaptadas na Língua Brasileira de Sinais (Libras). O projeto começou especificamente para reforço nos eixos de Humanas e Linguagens do exame. Rapidamente, a rede de educadores cresceu e já conta com voluntários para todas as áreas. Na manhã desta segunda-feira (10), há 74 alunos cadastrados. Pelo menos quatro deles possuem surdez.

Os três fundadores são Viviane Leite (Letras) e Oton Luna (História) — os dois paraenses — e Adriane Campos (Filosofia). Eles conversaram sobre os desafios da educação a distância (EAD) nos tempos da pandemia de covid-19, a grave doença respiratória causada pelo coronavírus sars-cov-2. Discutiam sobre acesso, democratização da educação e o que seria um modelo mais ideal de EAD, levando em conta as dificuldades de acesso à internet que existem no Brasil. Sobretudo nas áreas rurais. Por enquanto, não tem como ser de outro jeito. Esse é um dos motivos de muitos movimentos pedirem o adiamento ou suspensão do Enem 2020.

"É um projeto voluntário e independente, que visa levar a interação escolar para o ensino a distância nos tempos de pandemia. Somos uma central permanente de compartilhamento de dúvidas, com espaço virtual, que os alunos têm à disposição para conversar sobre os assuntos do Enem no tempo que for mais apropriado. Nossa principal preocupação é promover alguma forma de interação entre professores e alunos, sem que isso acontecesse apenas com aulas gravadas", explica Viviane.

Os professores então chegaram à conclusão que o aplicativo de mensagens WhatsApp seria o mais indicado. O app consome poucos dados, não demanda uma conexão muito forte com a internet e, na maioria dos planos de internet disponíveis entre as operadoras brasileiras, o uso do aplicativo é gratuito e à vontade.

 

Projeto tenta repensar educação a distância e mapear dificuldades

 

Oton explica que existem outras ferramentas para a entrega dos conteúdos. Todas gratuitas, como a Google Sala de Aula e materiais mais específicos no Instagram. Por sinal, a inscrição é pelo Instagram. O formulário serve para montar um mapa das necessidades e desafios dos alunos, que eventualmente pode se tornar uma base de dados para estudos de necessidades específicas dos estudantes paraenses.

"Tem uma aluna, de São Domingos do Capim, que tem uma internet muito instável", comenta o professor. Há professores e alunos de vários municípios do norte do Brasil. As inscrições mostram bem o quanto algumas pessoas dependem de iniciativas como essa. Sobretudo quem dependia de conteúdos na Libras.

Oton observa que muitos conteúdos de EAD são acabados e não dão a chance de interação e vivência entre os alunos e professores. Por isso, as aulas e dúvidas fluem em grupos do WhatsApp. Geralmente, o ritmo é dado pelas dúvidas trazidas e então as aulas acabam ganhando naturalidade. Um assunto vai puxando outro. Mas há também os conteúdos prontos, com incentivo às discussões em grupo e dúvidas. Os professores ressaltam que o projeto é uma plataforma de apoio. Outras formas de estudo mais formais não devem ser abandonadas.

Há grupos para cada eixo temático do Enem e um grupo exclusivo para os alunos surdos. Nesse, as discussões e aulas são condensadas em material na Libras. Para isso, o projeto conta com voluntários da Associação de Tradutores e Intérpretes da Libras no Pará (Astilp). Porém, não é sempre que há profissionais disponíveis. Então o projeto vai buscando apoio e trabalho voluntário de diversas formas, para dar uma chance de reduzir as desigualdades educacionais e de acesso ao ensino superior.

 

 

 

Estudantes relatam os desafios da falta de uma educação inclusiva e acessível

 

Duas estudantes que acessam a Japiim Educação, uma em Ananindeua e outra em São Domingos do Capim, têm diferentes experiências e desafios com a educação a distância. E mostram que o modelo de EAD não é simplesmente um padrão aplicável como solução final nos tempos de pandemia. No contexto paraense, já é difícil para uma aluna da região metropolitana de Belém. Para estudantes do interior, tudo é menos fácil ainda.

Letícia Alencar mora em Ananindeua e sonha em fazer Ciências Biológicas. Nasceu surda. O acesso à internet para estudar a distância ela não vem a ser exatamente o maior dos problemas. Ela sempre precisou de conteúdo adaptado para os estudos, mas profissionais fluentes na Libras não estão disponíveis em todas instituições de ensino. Até em cursinhos particulares não encontrou profissionais capacitados para atendê-la. Encontrar material acessível e gratuito por outros meios é outra dificuldade.

"Um amigo meu, que é surdo, me indiciou esse projeto. Atualmente, eu estudo num cursinho gratuito na escola pública, então achei o projeto e me inscrevi. Eu queria estudar num cursinho particular que tivesse intérpretes da Libras, mas não tem. Eu e a minha mãe procuramos tudo e não achamos. Conheço outros estudantes com a mesma dificuldade. Eu tenho internet, então então procuro informações sobre Enem, por exemplo. Conheci o Lucas Felipi, o garoto que tirou 1000 mil na redação no ano de 2018. Ele tem um canal, coloca legendas nos vídeos e é minha maior inspiração", diz Letícia.

Para a estudante de Ananindeua, educação precisa ser mais ampla e acessível a pessoas com deficiência. "Estudantes surdos precisam de intérpretes profissionais da Libras nos cursinhos particulares ou públicos. É obrigatório e tem que ser mesmo. Eles não podem perder várias oportunidades, eu perdi algumas, mas o Japiim me ajudou bastante", conta.

Em São Domingos do Capim, Kayane Victória Lopes, de 16 anos tem a barreira do acesso à internet. Em casa, o acesso dela nem sempre tem estabilidade suficiente. Tem dias que não tem como usar de forma mais prolongada. Logo, para ela, EAD em casa e de forma mais definitiva é algo impensável. Houve uma ocasião em que ela precisou usar o wi-fi de um vizinho, para acessar os conteúdos, mas também era instável. O acesso à internet segue como um desafio para mais pessoas do que se pode imaginar

"Sempre fui de escola pública e pelo Some (Sistema Modular de Ensino), o que é ainda mais desafiador. As dificuldades aumentaram pela ausência de professores na minha rotina de estudos, que era escola e cursinho. Então conheci esse projeto, que acabou se tornando muito importante pelo momento delicado que estamos vivendo. Ia ser difícil manter os cronogramas de estudos. Para algumas pessoas, nem recursos há para acessar aulas online. Iniciativas como essa Japiim são necessárias, pois os professores são atenciosos, nos incentivam muito, perguntam sobre conteúdos que queremos e esgotam as dúvidas. E tudo chegam no celular assim que a internet estiver disponível", comenta Kayane

Pará
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