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Em 2022, o número de naufrágios no Pará já superou registros de todo o ano passado

Já são 24 as ocorrências deste ano no Estado, contra 17 no ano passado. A última, da embarcação que afundou numa viagem entre Belém e o Arquipélago do Marajó, nesta quinta (8), chocou o Brasil. 

Dilson Pimentel, Ana Laura Carvalho e Saul Anjos

O número de naufrágios registrado este ano no Pará já superou os dados registrados durante todo o ano de 2021. De janeiro a dezembro de 2021, foram 17 ocorrências, segundo dados da Marinha do Brasil. Até agora, o ano de 2022 já soma 24 acidentes desse tipo. O último ocorreu na quinta-feira (8), quando a lancha “Dona Lourdes II”, transportava 82 pessoas.

Esse número leva em consideração a lotação máxima embarcação, que saiu de um porto clandestino em Cachoeira do Arari, na ilha do Marajó, para Belém e, segundo apurações preliminares das autoridades, afundou com todos os tripulantes e passageiros, no meio da baía do Marajó, mais precisamente em frente à ilha de Cotijuba, na capital paraense. As notícias dos corpos e dos sobreviventes resgatados, que passaram a se concentrar na ilha de Cotijuba, nos arredores de Belém, chamaram a atenção dos desafios da fiscalização dos transportes fluviais amazônicos para todo o Brasil.

Até a tarde deste sábado (10), a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup) confirmava 19 mortes no acidente: 11 mulheres, 5 homens e 3 crianças. Até então, 65 sobreviventes foram resgatados e trazidos a Belém.

A tragédia comoveu o Pará e o Brasil. Mas naufrágios e outros acidentes com embarcações são mais comuns do que se deveria achar aceitável no Estado. Segundo a Marinha do Brasil, em 2022 foram 60 registros, assim distribuídos: naufrágios (24); acidentes com pessoas em geral a bordo (4); encalhes (7); incêndios (4); deriva da embarcação (4); albaroamento (11); colisão (1); e quedas de pessoas na água (5).

Em 2021, os dados da Marinha contabilizam 88 acidentes, assim distribuídos: naufrágios (17); acidentes com pessoas em geral a bordo (17); encalhes (6), incêndios (3); deriva da embarcação (2); albaroamentos (27); colisão (3); e quedas de pessoas na água (13).

image Pescadores estavam navegando quando encontraram embarcação naufragada (Pescador Cláudio / Acervo Pessoal cedido para O Liberal)

Segurança pública e fiscalizações

Procurada por O Liberal, a Segup também informou seus dados computados: em 2021, de janeiro a dezembro, foram registrados 16 casos de acidentes marítimos e fluviais “com vítimas fatais em todo o Estado”. 

Já em 2022, segundo estima a Segup, de janeiro a agosto deste ano, foram computados quatro casos de acidentes marítimos e fluviais com mortes. A Segup não informou o número de pessoas mortas nesses acidentes nesses dois anos.

A Marinha do Brasil informou que em 2022 realizou 4.030 fiscalizações e 67 apreensões de embarcações no Pará, para tentar contornar o problema.

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Irregularidades são maiores no Tapajós, diz Arcon

Em nota publicada na noite de sexta-feira (9), a Agência de Regulação e Controle dos Serviços Públicos do Estado do Pará (Arcon-PA) informou que, de janeiro a setembro de 2022, foram aplicadas 51 multas e 4 notificações nos portos regulados do Estado do Pará.

Segundo diz a Arcon-PA, a maioria das multas e notificações são relacionadas a supressão de horários e negação da gratuidade. A região de maior incidência de irregularidades identificadas pela ARCON abrange a região do Rio Tapajós, em Santarém. "Em relação à fiscalização nos rios da Amazônia, a navegabilidade é competência da Capitania dos Portos", disse a agência reguladora.

image A embarcação Dona Lourdes 2 era ilegal e tinha como destino dois possíveis portos irregulares (Divulgação / Governo do Estado)

A Segup confirmou nesta sexta-feira que entregou esta semana à PM em Santarém uma nova embarcação para policiamento nos rios e furos da região.

Pará em luto oficial

O governador do Pará, Helder Barbalho, decretou luto oficial de três dias no Pará por conta do naufrágio ocorrido nesta quinta (8). Por sua vez, o prefeito da capital, Edmilson Rodrigues, também já havia decretado luto no município. O naufrágio na ilha de Cotijuba mobilizou um grande aparato de agentes para atuar no resgate dos mortos e no suporte às vítimas que sobreviveram. 

Mais 40 agentes dos órgãos do sistema de segurança pública (Sieds), como Polícias Militar, Civil e Científica, Corpo de Bombeiros Militar, Agentes dos Grupamentos Aéreo e Fluvial, além da Agência de Regulação e Controle de Serviços Públicos (Arcon), Secretaria de Assistência Social, Trabalho e Renda (Seaster), Fundação Parapaz, Secretaria de Articulação e Cidadania (SEAC), Companhia de Portos e Hidrovias (CPH), Fundação Papa João Paulo II (Funpapa) estão atuando de forma integrada em toda a logística - que ainda não tem prazo para encerrar atividades de busca.

As ações contam ainda com cerca de 80 militares da Marinha do Brasil embarcados no Navio Patrulha “Guanabara”, no Aviso Hidroceanográfico Fluvial “Rio Xingu” e na Agência Escola Flutuante “Mutirum”. Equipes de mergulhadores e uma aeronave UH-15 “Super Cougar”, também da Marinha, auxiliam as operações de busca e salvamento. Também estão empregadas nove embarcações dos órgãos de segurança e uma aeronave do Grupamento Aéreo de Segurança Pública, que estão atuando nas buscas.

image Zezinho disse que não soube de onde tirou forças para ajudar no resgate das vítimas (Igor Mota / O Liberal)

Pescador relata resgate de vítimas e fuga de suspeito

​Se tem uma pessoa que atuou como um verdadeiro herói no resgate de corpos e vítimas sobreviventes do naufrágio com a lancha “Dona Lourdes II”, na última quinta-feira (8), em frente à ilha de Cotijuba, em Belém, trata-se do José Cardoso Lemos, conh​​ecido como “Zezinho”, de 49 anos. Ele voltava da atividade de pesca, quando o acidente ocorreu. E contou com a ajuda dos filhos e um sobrinho para agir, assim que recebeu a notícia do naufrágio. “Zezinho” conversou com a reportagem de O Liberal e contou detalhes sobre aquela fatídica manhã que resultou na morte de ao menos 19 pessoas, contabilizadas até a tarde deste sábado. O pescador estima ter resgatado nove corpos e 50 pessoas com vida.

“Zezinho” acredita, inclusive, que ajudou a resgatar o comandante da embarcação, Marcos de Souza Oliveira, 34 anos, que fugiu do local. “Nós resgatamos o dono da lancha e ninguém sabia. Esse foi o primeiro. O dono com a esposa dele. Ele queria que eu trouxesse ele para a beira [do rio], sem poder ajudar os outros que estavam lá. Eu disse: ‘Não, eu vou ajudar todo mundo que aguentar aqui dentro do meu barco. Mas eu não vou te levar para a beira. Quando for todo mundo, tu vai junto’. Ele queria vim logo, porque ele queria registrar um BO [Boletim de Ocorrência], que estava dando um infarto nele e ele estava passando mal. E, quando acaba, ele fugiu. Não prestou socorro para ninguém”, relembrou.

Pescador há 35 anos e morador da ilha de Cotijuba, “Zezinho” disse que não sabe de onde tirou forças para resgatar as vítimas do acidente. Alguns anos atrás, ele sofreu um acidente e perdeu quase 50% do movimento do lado esquerdo do corpo. Um dos familiares que o ajudou foi o sobrinho José Carlos, de 19 anos, que tem deficiência auditiva.

“Estava voltando do serviço de pesca e me deparei com todas aquelas pessoas boiando. Idosos, crianças, então ajudei quem pude. Joguei fora minhas linhas e coisas. Eu moro perto da praia da Saudade”, relatou enquanto começou a chorar ao lembrar de um menino. “O garotinho dizia: 'Salva minha vó', mas não consegui. Tinha um rapaz que se abraçou comigo e pedia para procurar os filhos dele”, disse.

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