Clubes de leitura transformam férias em oportunidade para criar laços e descobrir novos universos
Enquanto muitas famílias aproveitam as férias de julho para viajar, há quem prefira permanecer em Belém e buscar novas formas de lazer
Enquanto muitas famílias aproveitam as férias de julho para viajar, há quem prefira permanecer em Belém e buscar novas formas de lazer. Entre as opções que vêm conquistando cada vez mais adeptos estão os clubes de leitura, que unem literatura, convivência e troca de experiências. Além de incentivar o hábito de ler, esses grupos oferecem um espaço para fazer amizades, compartilhar histórias e transformar os livros em ponto de partida para novas conexões.
Inspirado pelo BTS
Um exemplo é o Namjooning Club, criado em setembro do ano passado e inspirado em Kim Namjoon, líder do grupo sul-coreano BTS. O clube reúne fãs do artista e apaixonados pela literatura em encontros mensais realizados no Seven Coffee Belém, cafeteria temática de K-pop localizada no bairro do Bengui. Atualmente, o grupo conta com mais de 120 integrantes no WhatsApp, embora os encontros presenciais sejam limitados a cerca de 20 participantes para garantir que todos tenham espaço para participar das discussões.
A diretora do clube, a bióloga Luma Vaz, explica que a iniciativa nasceu da influência exercida por Kim Namjoon, conhecido por incentivar o hábito da leitura, o contato com a arte, a natureza e outras manifestações culturais. Segundo ela, esse estilo de vida inspirou milhares de fãs ao redor do mundo e motivou a criação do grupo em Belém. “O Namjooning Club surgiu em setembro do ano passado. O nome vem do ato de viver como Kim Namjoon. Ele costuma compartilhar nas redes sociais hábitos de leitura, visitas a museus, contato com a arte e com a natureza. Essa influência acabou inspirando o nosso clube e, no início, nossas leituras eram justamente livros indicados por ele. Depois, passamos a incluir outros autores e gêneros literários”, explica.
Os encontros acontecem sempre no último sábado de cada mês e vão muito além da discussão sobre a obra escolhida. Além da conversa sobre o livro, os participantes realizam atividades como pintura, colagens e outras dinâmicas relacionadas à leitura, criando um ambiente acolhedor tanto para quem concluiu a obra quanto para quem ainda pretende conhecê-la.
Luma destaca que a proposta é transformar a leitura em uma experiência coletiva, capaz de aproximar pessoas com interesses em comum. “Todo último sábado do mês a gente se reúne aqui. Normalmente, o encontro dura cerca de duas horas. Além de conversar sobre o livro, fazemos atividades relacionadas à leitura para incentivar a interação entre os participantes. Mesmo quem ainda não leu consegue participar e se divertir com o grupo”, afirma.
A leitura escolhida para este mês é Acaso, obra escrita por Maevi Lobato, um dos integrantes do próprio clube. O livro aborda encontros e desencontros entre duas pessoas e mostra como o acaso pode influenciar as relações interpessoais.
Embora a literatura seja o principal elo entre os participantes, o objetivo do grupo também é oferecer um espaço de convivência em meio à correria da vida adulta. Para Luma, reservar um tempo para um hobby tornou-se uma necessidade para quem busca mais qualidade de vida. “É muito difícil, na vida adulta, conseguir tempo para um hobby. Aqui, a maioria das pessoas trabalha, temos mães participando também. O clube permite que a gente saia um pouco da rotina, tenha um tempo de qualidade para si, compartilhe o gosto pelo BTS, pelo K-pop e pelos livros. Acho que isso torna a vida mais leve, porque vivemos uma rotina muito corrida”, destaca.
Além das reuniões mensais, o Namjooning Club mantém um grupo no WhatsApp e um perfil nas redes sociais, onde divulga as leituras do mês e abre inscrições para os encontros presenciais.
Literatura que aproxima pessoas
Entre as participantes que acompanham o projeto desde o início está a agente de saúde Janieire Mota, de 42 anos. Para ela, o clube representa muito mais do que um espaço para conversar sobre livros. As atividades promovidas incentivam novas experiências, passeios culturais e momentos de lazer que ajudam a aliviar a rotina.
Segundo Janieire, o ambiente também acolhe pessoas que ainda não desenvolveram o hábito da leitura, mostrando que o interesse pelos livros pode surgir naturalmente durante os encontros. “O foco é a leitura, mas não é só isso. A gente também faz passeios, participa de eventos, conhece lugares diferentes. Às vezes, a pessoa ainda nem conseguiu ler o livro, mas participa da conversa, gosta da discussão e acaba ficando motivada a fazer a leitura depois. Isso torna tudo muito mais leve e acolhedor”, observa.
Foi justamente por enxergar esse ambiente de convivência que Janieire decidiu convidar a filha para participar do clube. Há cerca de três meses, as duas passaram a compartilhar os encontros e descobriram juntas uma nova forma de aproveitar o tempo livre.
Para a agente de saúde, a experiência também abre espaço para conhecer novos interesses, ampliar o repertório cultural e fortalecer os laços de amizade. “É um momento de lazer, de extravasar, conhecer novas leituras, novos gostos e até descobrir novos hobbies. A gente também fortalece amizades e passa um tempo de qualidade com pessoas de quem gosta. Isso faz muito bem para a nossa rotina”, pontua.
Além das conversas sobre literatura, os encontros preservam elementos da cultura dos fãs de K-pop. Lanternas temáticas conhecidas como lightsticks, fotografias, álbuns e outros objetos colecionáveis ajudam a reforçar a identidade do grupo e aproximam pessoas que compartilham os mesmos interesses.
Outra tradição do Namjooning Club é o diário de leitura. Cada participante recebe um caderno personalizado para registrar impressões, dúvidas e reflexões sobre cada obra lida antes dos encontros mensais.
A enfermeira Adriane Vieira dos Santos, de 45 anos, explica que o material se tornou uma ferramenta importante para enriquecer os debates e preservar as experiências vividas ao longo das leituras. “Cada participante tem um diário de leitura. Nele, colocamos o título do livro, a data em que começamos a leitura, nossas dúvidas, opiniões e tudo o que sentimos durante a história. Depois, usamos essas anotações para debater no encontro. É uma forma de registrar nossas experiências e compartilhar diferentes visões sobre a mesma obra. Para nós, esse diário é muito importante”, afirma.
Segundo Adriane, o diário também guarda momentos marcantes vividos pelo grupo. Ela lembra que a primeira obra escolhida pelo clube ganhou um significado ainda mais especial quando a autora faleceu durante o período em que os participantes realizavam a leitura. “A gente viveu uma situação muito marcante logo no primeiro livro. Durante a leitura, a autora faleceu. Foi um encontro muito emocionante e o diário também guarda essas lembranças e sentimentos que compartilhamos naquele momento”, relembra.
Benefícios para a mente e a vida social
Para o professor Rodrigo de Lima, o hábito da leitura vai muito além da aquisição de conhecimento. Segundo ele, os livros despertam emoções, ajudam as pessoas a desacelerarem em meio à rotina intensa e permitem uma imersão em diferentes realidades. Nas férias, quando muitas pessoas conseguem reorganizar o tempo, a leitura pode ser uma aliada importante para o descanso mental e o bem-estar.
“A leitura tem uma função além de informar, que é emocionar. Ela desperta sentimentos de alegria, acolhimento, suspense e surpresa. Também nos ajuda a nos libertar um pouco da correria do mundo ao nosso redor, do trabalho, dos estudos e do excesso de informação a que somos submetidos diariamente. O importante é começar por temas com os quais a pessoa se identifica ou que despertem curiosidade. Assim, o texto conquista o leitor e ele fica imerso naquele universo”, explica.
O especialista ressalta ainda que a experiência se torna ainda mais enriquecedora quando é compartilhada com outras pessoas. Para ele, os clubes de leitura ampliam as possibilidades de interpretação de uma mesma obra e estimulam a construção coletiva do conhecimento. “Os clubes de leitura são uma ótima oportunidade para compartilhar conhecimentos e emoções despertadas pelos livros. Muitas vezes não percebemos todos os detalhes presentes em um texto, ou interpretamos uma história de maneira diferente de outra pessoa. Essa troca de percepções enriquece muito a leitura e torna a experiência ainda mais significativa”, afirma.
Além do aspecto literário, Rodrigo destaca que os encontros favorecem a convivência social e ajudam a fortalecer vínculos em uma fase da vida em que muitas pessoas têm dificuldade para criar novas amizades. “Certamente, os clubes de leitura estimulam as interações sociais. Com os debates e o convívio, as relações se fortalecem e as pessoas acabam criando amizades. Primeiro pela afinidade com a leitura e, depois, por outros interesses e momentos de convivência”, observa.
Outro benefício apontado pelo professor está relacionado aos impactos da leitura sobre o funcionamento do cérebro. Segundo ele, o hábito contribui para o desenvolvimento das funções cognitivas e para a saúde mental. “A leitura estimula diversas áreas do cérebro por meio da neuroplasticidade. Ela ajuda a prevenir o envelhecimento cerebral, melhora a concentração, promove o bem-estar emocional, reduz o estresse e fortalece as funções cognitivas”, destaca.
Para quem deseja criar o hábito de ler, mas acredita não ter tempo suficiente, Rodrigo recomenda começar sem cobranças e escolher temas que despertem interesse. Segundo ele, a constância é mais importante do que a quantidade de páginas lidas. “O ideal é começar por temas que despertem curiosidade ou que façam parte da realidade da pessoa. Poesias e crônicas, por exemplo, são boas opções porque têm textos mais curtos. Com o tempo, esse hábito se fortalece, o próprio cérebro passa a sentir falta da leitura e os livros acabam fazendo parte da rotina. Outra dica é trocar livros com amigos e participar de clubes de leitura, porque essa dinâmica incentiva ainda mais o gosto pela leitura”, orienta.
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