Câncer de intestino soma 1.148 casos no Pará em dois anos e meio
"Dois grandes fatores estão relacionados ao desenvolvimento da doença, a genética e a alimentação", diz o cirurgião do aparelho digestivo e professor de Medicina da Uepa Marcus Vinícius Henriques Brito
De janeiro a julho de 2026, 180 casos de neoplasias malignas do intestino delgado, cólon, junção retossigmoide e reto foram registrados entre moradores do Pará. Segundo o cirurgião do aparelho digestivo, gastroenterologista e professor de Medicina da Universidade do Estado do Pará (Uepa) Marcus Vinícius Henriques Brito, dois grandes fatores estão relacionados ao desenvolvimento do câncer de intestino: a predisposição genética e a alimentação. O tema ganhou repercussão após a divulgação de que o cacique Raoni Metuktire, de 94 anos, está sob cuidados paliativos depois de ser diagnosticado com câncer no aparelho digestivo.
Os dados sobre os casos no Pará são do Painel de Oncologia e foram divulgados à Redação Integrada de O Liberal pela Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa). Em 2024, foram registrados 486 casos das neoplasias consideradas no levantamento. Em 2025, foram 482. No acumulado de 2024 a julho de 2026, Belém concentra o maior número de registros, com 440 casos, seguida por Ananindeua, com 124, e Santarém, com 60. Em relação à mortalidade, a Sespa informou a ocorrência de 313 óbitos por esse tipo de câncer em 2026. Nos anos de 2024 e 2025, somados, foram 922 mortes. Neste ano, os municípios com maior número de óbitos são Belém, com 98; Ananindeua, com 30; Santarém, com 16; Marabá, com 11; e Castanhal, com 10.
De acordo com Marcus Vinícius, cerca de 95% a 98% dos cânceres de intestino são adenocarcinomas. O especialista explica que, além da predisposição genética, os hábitos alimentares podem contribuir para o desenvolvimento da doença, especialmente quando há consumo elevado de produtos com conservantes e baixa ingestão de fibras.
“Quanto mais alimentos com conservantes você ingerir, quanto menos fibras você ingerir, quanto mais alterações do trânsito intestinal, ou seja, prisão de ventre, para ser mais claro, você tiver, maior é o tempo de contato desses alimentos, desses conservantes com a parede do intestino e a maior possibilidade de ter uma neoplasia. Obviamente que você tem que ter o fator genético também que vai facilitar isso”, explicou.
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Alimentação e fibras
Para a prevenção do câncer de intestino, Marcus Vinícius recomenda reduzir o consumo de alimentos industrializados e aumentar a presença de alimentos naturais e fibras na alimentação. “Quanto aos bons hábitos, não tenha dúvida, quanto menos alimentos industrializados você comer, alimentos mais naturais, fibras, a quantidade de fibras adequada”, afirmou.
Segundo o especialista, a ingestão de fibras deve ocorrer nas principais refeições do dia. “Você tem que comer no café da manhã, no almoço, na janta, você tem que comer essa quantidade de fibra suficiente para que você possa ter um hábito intestinal de uma a duas evacuações ao dia, diminuindo com isso o tempo de trânsito colônico, o tempo de trânsito em que a comida fica em contato com o intestino. Fazendo isso você vai ter menos chance de substâncias carcinogênicas levarem à formação do câncer. Comer bem, se hidratar, se alimentar bem leva a uma maior prevenção”, afirmou.
O médico também destacou a importância do histórico familiar. Famílias em que o câncer de intestino ou do tubo digestivo aparece com frequência ou em várias gerações devem ter atenção especial ao rastreamento. Os sintomas podem variar de acordo com a localização do tumor. “Os tumores de colo direito, do lado direito do intestino, eles sangram muito mais, eles dão alterações de hábito intestinal, como diarreia, como fezes com muco e tudo mais, do que os do lado esquerdo”, explicou. Já os tumores localizados no lado esquerdo tendem a provocar mais sintomas de obstrução, porque essa parte do intestino é mais estreita. O especialista ressaltou, porém, que essa diferença é geral e não representa uma regra fixa para todos os pacientes.
Diagnóstico precoce
O professor do curso de Medicina do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS) da Uepa também afirmou que o diagnóstico precoce aumenta as possibilidades de tratamento. “Hoje, a gente consegue fazer diagnóstico muito mais precoce desses cânceres. Por isso, a colonoscopia, feita a partir dos 35 anos, quando há histórico na família de câncer do tubo digestivo, e a partir dos 45 anos, quando não há histórico, consegue pegar a grande maioria desses tumores em fase inicial. E, com isso, a minha chance de cura é muito maior do que quando você pega ele em uma fase já tardia. Então, a prevenção é fundamental nesses casos”, disse.
Segundo Marcus Vinícius, se a colonoscopia estiver normal, o exame deve ser repetido a cada cinco anos. Quando são encontrados pólipos com displasia ou outras alterações, a frequência pode ser maior, chegando, dependendo dos achados, a seis meses. O professor afirmou que o câncer do intestino grosso é atualmente bastante frequente, mas disse não haver dados estatísticos confiáveis para dimensionar com precisão um possível aumento.
“A impressão é que o número de câncer de intestino aumentou muito depois do Covid. Não há uma relação direta, mas talvez até porque as pessoas estão procurando mais sistema de saúde, esteja sendo mais diagnosticado”, disse. Na prática, ele citou a frequência observada em clínicas que realizam grande volume de exames. “Clínicas do porte da nossa, que fazem em torno de mil exames endoscópicos por mês, a gente tem um diagnóstico de 70 a 80 casos de câncer nesses pacientes. Ou seja, é bastante frequente, não é uma coisa rara”, afirmou.
Como surge o adenocarcinoma
O adenocarcinoma é o tumor mais frequente do tubo digestivo e pode atingir o estômago e o intestino. Segundo o médico, ele se origina das glândulas intestinais e da mucosa, o tecido que reveste internamente o intestino. Quando essas glândulas são agredidas ou existe um fator genético, podem ocorrer alterações e crescimento anormal das células. O processo pode começar com pólipos hiperplásicos. Se não forem tratados ou retirados, eles podem sofrer alterações genéticas e se transformar em pólipos displásicos. As displasias podem ser de baixo, médio ou alto grau e, posteriormente, evoluir para uma neoplasia.
Esse processo costuma ser lento no intestino. “Esse processo evolutivo, no intestino, demora cerca de cinco a oito anos para aparecer - desde que o pólipo aparece até se transformar em uma neoplasia maligna. No estômago, isso é muito mais rápido - esse processo costuma demorar entre 2, 3, 4, 5 anos no máximo, mas é duas ou três vezes mais rápido que no intestino”, afirmou.
Os tumores de cólon apresentam maior incidência a partir da quarta e quinta décadas de vida. Segundo Marcus Vinícius, no passado o diagnóstico era mais frequente em pessoas de 60 ou 70 anos, mas hoje o processo pode começar mais cedo. “Então, por isso, a gente começa o rastreamento após os 45 anos. É claro que a cada década de vida do paciente, a chance de neoplasias, não só do tubo digestivo, mas de todos os outros lugares, é cada vez maior”, disse.
O médico orientou que pessoas acima dos 40 e 50 anos procurem acompanhamento médico para avaliação preventiva. O rastreamento, segundo ele, pode continuar ao longo da vida. Para pacientes acima de 75 anos, Marcus Vinícius recomenda, de modo geral, que endoscopia e colonoscopia sejam realizadas em ambiente hospitalar, devido ao maior risco de complicações e à possibilidade de necessidade de suporte de UTI. Até os 75 anos, em geral, os exames podem ser feitos em clínicas especializadas, embora condições cardíacas possam indicar ambiente hospitalar mesmo em pessoas mais jovens.
Dados e prevenção no Pará
Sobre o número de pessoas acometidas no Pará, o especialista afirmou não haver estatística confiável devido à baixa notificação. “A gente consegue fazer por mês, acredito que no estado, de 300 a 500 diagnósticos por mês no estado todo, o que não é uma coisa tão baixa assim. Mas não há estatísticas relevantes publicadas hoje na literatura, no nosso estado do Pará”, disse.
Já a Sespa informou que as ações de prevenção dos cânceres de cólon e reto são realizadas nas campanhas ao longo do ano, com ênfase à alimentação saudável; combate ao tabagismo e consumo de álcool; e exame de sangue oculto nas fezes. A detecção e o diagnóstico precoce são muito importantes por meio de encaminhamento para consulta de primeira vez para casos diagnosticados ou com alta suspeita, o que deve ser feito por qualquer unidade da Rede Básica de Saúde para as policlínicas, centros de referências e hospitais de alta complexidade, conforme Protocolo de Acesso de média e alta complexidade em Oncologia.
A Sespa acrescentou que o tratamento em alta complexidade dos cânceres pelo SUS no Pará é oferecido no Hospital Ophir Loyola, no Oncológico Infantil Octávio Lobo e no Hospital Universitário João de Barros Barreto, em Belém; no Hospital Regional de Castanhal; no Hospital Regional do Baixo Amazonas (HRBA), em Santarém; no Hospital Regional de Tucuruí e Hospital Regional do Sudeste do Pará "Dr. Geraldo Veloso", em Marabá.
Principais orientações
Alimentação: reduzir alimentos industrializados, enlatados e processados e priorizar alimentos naturais e ricos em fibras.
Fibras: manter ingestão adequada de fibras e hidratação.
Funcionamento intestinal: buscar hábito intestinal regular.
Histórico familiar: pessoas com casos de câncer de intestino ou do tubo digestivo em várias gerações devem ter atenção especial ao rastreamento.
Colonoscopia: a partir dos 35 anos para quem tem histórico familiar e dos 45 para quem não tem, segundo o especialista.
Periodicidade: se o exame estiver normal, repetir a cada cinco anos; diante de pólipos com displasia ou outras alterações, a frequência pode ser maior.
Sintomas: sangramento, alterações do hábito intestinal, diarreia, fezes com muco e sintomas de obstrução devem ser avaliados por um médico.
Idade: pessoas acima dos 40 e 50 anos devem procurar acompanhamento médico para avaliação e rastreamento.
Idosos: para pacientes acima de 75 anos, endoscopia e colonoscopia devem, de modo geral, ser realizadas em ambiente hospitalar.
Prevenção: alimentação adequada, hidratação e rastreamento periódico ajudam a identificar a doença precocemente, quando as possibilidades de tratamento são maiores.
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