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Transplante de órgão devolve qualidade de vida e permite retomada de sonhos

No Dia Mundial do Paciente Transplantado, entenda como o transplante representa muito mais do que um tratamento médico e passa a significar a recuperação da autonomia e qualidade de vida

João Thiago Dias

Voltar a trabalhar, estudar, viajar, conviver com a família e retomar sonhos que pareciam impossíveis. Para quem recebe um órgão, o transplante representa muito mais do que um tratamento médico: significa recuperar a autonomia e a qualidade de vida. Esse é o principal consenso entre especialistas ouvidos pela reportagem para o Dia Mundial do Paciente Transplantado, celebrado neste sábado, 6 de junho.

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A data chama atenção para uma realidade que transforma milhares de vidas. Somente no Pará, 1.167 transplantes foram realizados em quase 2 anos e meio, no balanço referente ao período de 2024 até o dia 3 de junho de 2026. Os principais procedimentos realizados no Estado são os transplantes de rim, fígado, medula óssea, córnea e tecido ósteomuscular. Enquanto isso, a atualização mais recente, do mês de abril deste ano, apontou que 1.308 pacientes ainda estão na lista de espera por transplante de córnea, rim e fígado. Os dados são da Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa).

Vidas transformadas

Entre as vidas transformadas pelo transplante está a da bióloga e professora Railene Alencar, de 42 anos, moradora de Belém. Hoje, como paciente retransplantada de fígado, ela fala sobre qualidade de vida e novos projetos, mas o caminho até aqui foi marcado por muitos desafios. Railene convive desde os 15 anos com uma doença hematológica que acabou comprometendo o fígado após uma trombose. Quando recebeu a notícia de que precisaria de um transplante, sentiu o chão desaparecer. "Quando soube que a única saída seria um transplante de fígado, o meu mundo desabou. Achava que não iria resistir", relembra.

O primeiro transplante, realizado em outubro de 2008, trouxe esperança, mas ela precisou enfrentar uma nova batalha ao descobrir que necessitaria do retransplante. Esse segundo procedimento foi realizado 15 dias depois do primeiro. "Fazer um transplante já é complicado, achar alguém compatível com você é muito difícil, igual ganhar na loteria. E saber que precisaria passar tudo de novo e precisar de um segundo transplante é voltar à estaca zero", afirma.

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Segundo ela, o momento foi ainda mais delicado porque havia risco de morte. A chegada de um novo órgão compatível, porém, mudou completamente o cenário. "Descobrir que tem um órgão compatível com você é a melhor notícia. Receber um telefonema desse não tem explicação. Significa uma segunda, terceira, quarta chance de viver."

Após os dois transplantes, Railene afirma que conseguiu retomar planos que estavam interrompidos pela doença. "Depois do transplante é outra vida. Tive a chance de retomar os meus sonhos e projetos que tinha deixado estagnados. Voltei a estudar, trabalhar, ter qualidade de vida. Poder estar com a família e amigos novamente não tem preço."

Ela ressalta que os cuidados permanecem por toda a vida, com consultas regulares, uso de medicamentos imunossupressores e hábitos saudáveis. "Para aqueles que estão à espera de um órgão, desejo que nunca percam a esperança e a fé, pois após o transplante há uma vida linda para ser vivida." 

Railene também reforça a importância da doação. "A nossa missão nessa vida é procurar conscientizar as pessoas da importância de ser um doador. Doar salva vidas, assim como a minha foi salva. Doe amor, doe vida."

Pará registra centenas de transplantes e mantém lista única de espera

Dados da Central Estadual de Transplantes, vinculada à Sespa, mostram que foram realizados 634 transplantes em 2024. Em 2025, o número chegou a 464 procedimentos. Em 2026, até balanço divulgado dia 3 de junho, já foram contabilizados 69 transplantes. A lista única de espera registra atualmente 763 pacientes aguardando transplante de córnea, 523 esperando por um rim e outros 22 na fila por um fígado, conforme levantamento de abril deste ano.

Com exceção do transplante de córnea, que também é realizado por clínicas habilitadas da rede privada, os demais procedimentos são concentrados em unidades de referência como o Hospital Ophir Loyola, responsável pelos transplantes renais em adultos e de córnea; a Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará, referência em transplante pediátrico e hepático; o Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santarém; e o Hospital Regional de Redenção, ambos habilitados para transplante renal. Também realizam transplante de córnea o Hospital Universitário Bettina Ferro e a Clínica Cynthia Charone, entre outras clínicas oftalmológicas habilitadas.

Nova fase exige cuidados permanentes

Com relação ao transplante de rim, o nefrologista Leonardo de Oliveira Rodrigues da Silva, do Hospital Pronto-Socorro Dr. Roberto Macedo e mestre em Saúde na Amazônia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), explica que representa uma mudança profunda na rotina dos pacientes, especialmente daqueles que dependiam de sessões frequentes de hemodiálise.

O especialista avalia que muitas pessoas recuperam a disposição para trabalhar, viajar, praticar atividades físicas e aproveitar melhor o convívio social após receberem um novo órgão. "Para muitas pessoas, receber um rim transplantado significa ganhar uma nova oportunidade de viver com mais liberdade", afirma.

O especialista destaca que a melhora vai além da saúde física, refletindo diretamente na autoestima e na qualidade de vida. Apesar dos benefícios, ele alerta que o transplante não representa a cura definitiva da doença renal crônica. "Na verdade, ele marca o início de uma nova fase que exige responsabilidade e acompanhamento contínuo."

Entre os principais cuidados estão o uso correto dos medicamentos imunossupressores, consultas periódicas, realização de exames, controle da pressão arterial e do diabetes, alimentação saudável e prática regular de atividades físicas. Ainda conforme o nefrologista, muitas doenças renais evoluem silenciosamente durante anos. As principais causas de perda da função dos rins são justamente duas condições muito comuns: hipertensão arterial e diabetes.

"Muita gente se surpreende ao descobrir que os rins podem adoecer por anos sem causar sintomas importantes. Quando os sinais aparecem, muitas vezes a doença já está em estágio avançado." Segundo ele, a maioria dos casos poderia ser retardada ou até evitada com diagnóstico precoce e controle adequado dos fatores de risco.

Avanços ampliam expectativa e qualidade de vida

Para a diretora médica e especialista em transplantes Sílvia Casas, de São Paulo, os transplantes representam uma das maiores conquistas da medicina moderna por oferecerem alternativas de tratamento para doenças que muitas vezes não possuem outras opções eficazes. Ela destaca que o principal impacto não está apenas no aumento da sobrevida, mas na recuperação da independência e da capacidade funcional dos pacientes. "Mais do que prolongar a vida, eles permitem recuperar qualidade de vida, autonomia e capacidade funcional."

Segundo a especialista, pacientes que antes dependiam de tratamentos complexos conseguem voltar a trabalhar, estudar e conviver normalmente com suas famílias após o procedimento. Sílvia observa que o transplante renal continua sendo o mais realizado no Brasil, seguido pelos transplantes de fígado, córnea, coração e pulmão. Entre as principais causas que levam à necessidade de um transplante de rim estão justamente a hipertensão arterial e o diabetes, que também são apontados pelos nefrologistas como os maiores responsáveis pela doença renal crônica.

Ela ressalta que o sucesso do procedimento depende tanto da cirurgia quanto dos cuidados adotados ao longo da vida. "O sucesso do transplante depende não apenas da cirurgia, mas também dos cuidados mantidos ao longo da vida."

A especialista também destaca os avanços conquistados nos últimos anos. Entre eles estão melhorias nas técnicas cirúrgicas, nos métodos de preservação dos órgãos, nos medicamentos imunossupressores e nas ferramentas que avaliam a compatibilidade entre doador e receptor. Como resultado, afirma, os pacientes vivem mais e melhor. "Como consequência, os pacientes vivem com maior qualidade de vida e melhor funcionamento dos órgãos transplantados."

 

- Transplantes no Pará

•  Transplantes realizados em 2024: 634
•  Transplantes realizados em 2025: 464
•  Transplantes realizados em 2026 (até balanço divulgado dia 3 de junho): 69


- Principais transplantes realizados

• Rim
• Fígado
• Medula óssea
• Córnea
• Tecido ósteomuscular


- Lista de espera (abril de 2026)

•  Córnea: 763 pacientes
•  Rim: 523 pacientes
•  Fígado: 22 pacientes
 

- Hospitais de referência

• Hospital Ophir Loyola
• Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará
• Hospital Regional do Baixo Amazonas (Santarém)
• Hospital Regional de Redenção

FONTE: SESPA