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Esporotricose em Belém: doença de pele provocada por fungo registra alta de 172,4% em gatos

A esporotricose é uma doença fúngica, que causa lesões na pele de gatos e pode ser transmitida para humanos

Ayla Ferreira

A esporotricose é uma doença fúngica, causada pela espécie Sporothrix brasiliensis na grande maioria dos casos no Brasil. Somente em 2025, em Belém, foram registrados 1.547 casos da doença em felinos e 169 em humanos — um aumento de 172,4% e 108,%, respectivamente, em comparação ao ano de 2024, que contou com 568 casos em felinos e 81 em humanos. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma), a doença é tratável e a eutanásia é indicada somente em último recurso ou impossibilidade de tratamento.

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“A doença surgiu primeiramente no Rio de Janeiro em 1998, com crescimento exponencial a cada ano que passava acometendo humanos e principalmente felinos. Do Rio de Janeiro, a doença se expandiu para todos os outros estados do Brasil e outros países da América Latina, sendo hoje a principal zoonose presente entre nós”, explica Leonildo Galiza da Silva, médico veterinário e professor da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). Especialista em Microbiologia e doenças bacterianas e fúngicas, ele destaca que o fungo se adaptou à pele do gato, que hoje é o principal transmissor para outros gatos e para o homem.

Veja os números de casos em Belém nos últimos anos

  • 2023 - 223 felinos e 37 humanos
  • 2024 - 568 felinos e 81 humanos
  • 2025 - 1547 felinos e 169 humanos

Fonte: Sesma

Clima quente e úmido pode favorecer a transmissão

Os gatos são animais semi domiciliados, que saem de casa à procura de alimentos, demarcação de território ou reprodução. É nesses momentos que eles podem acabar brigando com outros gatos, ou até mesmo contrair ou transmitir a doença durante o ato reprodutivo. O abandono de animais doentes em locais distantes também pode levar ao surgimento de novos focos, já que os animais contaminados liberam um grande número de leveduras na secreção das feridas, que podem infectar o meio ambiente. 

“Eles podem contaminar o solo e troncos de árvores pelo hábito de cavar a terra para enterrar suas fezes e urina, e arranhar os troncos para afiar suas garras. Neste caso ocorre a transmissão indireta de um animal para o outro. Em nosso clima, quente e úmido, é muito provável que o fungo se reproduza com maior facilidade no meio ambiente. Lembramos que a principal forma de transmissão é de um gato para o outro”, afirma o professor da Ufra.

“Por se tratar de uma zoonose, pode ser transmitida do animal doente para o humano principalmente pela inoculação direta, seja arranhadura ou mordedura. A doença pode
apresentar desde lesões dermatológicas únicas, podendo avançar para um quadro com múltiplas lesões e/ou apresentar quadros sistêmicos graves. Tem tratamento, mas este é longo, geralmente de alguns meses, dependendo da gravidade e da resposta imunológica do paciente”, diz Eliomar de Moura Sousa, médico veterinário e vice-presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Pará (CRMV-PA).

Sinais clínicos

Nos gatos, um dos principais sinais clínicos da doença são feridas únicas ou múltiplas na pele do animal, principalmente face, membros e dorso, às vezes começando pelo nariz ou, em caso de brigas, em qualquer outra parte do corpo. “Pode atingir também a cadeia linfática do animal. Pelo hábito de se lamber, pode também levar o fungo para outras partes do corpo, então nós encontramos a levedura na boca e unhas do animal”, destaca Leonildo. 

Já nos humanos, a lesão inicial se assemelha a uma picada de inseto, que pode evoluir para feridas ou nódulos, segundo o Ministério da Saúde. Em casos mais graves, por exemplo, quando o fungo afeta os pulmões, podem surgir tosse, falta de ar, dor ao respirar e febre. 

A portaria n° 6.734, do Ministério da Saúde, criada em março de 2025, torna a notificação da esporotricose humana obrigatória em todo território nacional. Os humanos podem ser infectados pela doença por meio do arranhão ou mordida de um gato doente, ou mesmo de um portador sadio.

“Na hora de manipular um gato com ferimentos, devemos utilizar equipamentos de proteção individual como luvas, máscaras, avental e óculos de proteção. Fazer carinhos em gatos de rua pode aumentar o risco de transmissão pois não sabemos se ele está incubando ou não a doença”, afirma o professor da Ufra.

Tratamento pode durar meses

Tanto em animais quanto em humanos, o tratamento é realizado à base de antifúngicos. “Para isso, o ideal é procurar um veterinário ou um médico para indicarem a medicação e a dose correta. Ele dura de um a seis meses, ou enquanto durarem as lesões e mesmo curado, o homem e o animal devem ser tratados por mais um ou dois meses ou duas culturas negativas”, explica Leonildo Galiza da Silva.

Os tutores de animais com suspeita de esporotricose devem procurar imediatamente um médico veterinário para as orientações e tratamento do animal, que deve ficar em isolamento, não ter contato com outros animais da casa e o menor contato possível com pessoas da casa, principalmente crianças, idosos e pessoas imunocomprometidas. A Sesma orienta que o animal seja levado à unidade de vigilância de zoonoses para o diagnóstico.

Em Belém, a Prefeitura realiza o diagnóstico da doença em felinos e prescreve a receita para que o tutor do animal compre a medicação e realize o tratamento em casa, segundo a Sesma. A pasta realiza inquéritos em áreas com muitos casos positivos de forma periódica, buscando mais animais suspeitos ou de pessoas que não tenham condições de levar o seu animal à unidade de vigilância de zoonoses para o diagnóstico. Além disso, é feito um serviço de educação em saúde em toda Belém voltado ao agravo e como se prevenir e mitigar novos casos.

Segundo a Secretaria de Saúde Pública (Sespa), do Governo do Pará, o processo de implantação do Sistema de Vigilância Epidemiológica para a notificação de casos de esporotricose e outras 18 micoses foi iniciado pelo Ministério da Saúde em 2025, em todo o Brasil. O objetivo é conhecer a real incidência da doença nas regiões de saúde, assim como disponibilizar tratamento para os casos humanos.

No Pará, o processo iniciou em maio de 2025 com um treinamento realizado para os 13 Centros Regionais e alguns serviços hospitalares, incluindo um treinamento prático no sistema de informação on-line, criado para notificação e solicitação de medicamentos. A implantação está sendo feita gradativamente, tendo começado pelo Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB), 9º CRS, em Santarém, e agora nos municípios de Belém e Ananindeua. As demais regiões estão utilizando um formulário on-line para registro e solicitação de medicamentos.

A Sespa informa ainda, que a esporotricose é uma das 19 micoses classificadas pelo Ministério da Saúde como endêmicas oportunistas e a única de notificação compulsória.  A doença é causada por fungos e pode provocar graves lesões de pele em humanos e em animais, principalmente em gatos. Até o momento, foram notificados 21 casos de esporotricose em humanos, no Pará, sendo 01 em Belém e 20 casos em Ananindeua.

Veja como prevenir o quadro:

  • Evitar o acesso dos animais à rua, principalmente os doentes, estes precisam ficar
  • isolados durante todo o tratamento;
  • Castrar os animais, o que ajuda a diminuir as disputas/brigas pelas fêmeas ou por
  • território;
  • Tratar os animais doentes até a alta por cura;
  • Evitar o contato direto com os animais doentes ou suspeitos, sem a devida
  • paramentação com os EPIs (Equipamento de Proteção Individual);
  • Cremação dos cadáveres dos animais doentes para evitar a contaminação do solo;
  • Criteriosa higienização com hipoclorito (água sanitária) dos espaços de isolamento onde os animais doentes estiverem.

Fonte: Eliomar de Moura Sousa. Médico Veterinário / Vice-presidente do CRMV-PA.

*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de João Thiago Dias, coordenador do Núcleo de Atualidades