'Mudança climática é machista', alertam ONGs

Relatório aponta que a crise climática pode levar mais de 158 milhões de mulheres e meninas à pobreza extrema até 2050

AFP
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As consequências da mudança climática sobre as desigualdades de gênero, durante muito tempo relegadas a segundo plano, têm sido alvo de alertas de organizações não governamentais. Às vésperas da reunião do G7, entidades denunciam a distância entre os discursos políticos e a realidade do financiamento internacional voltado às mulheres.

“A mudança climática é machista”, afirmou Mathilde Henry, da CARE France. Segundo ela, eventos extremos ampliam a vulnerabilidade feminina. “Quando há secas e as colheitas fracassam, são as mulheres que comem por último e em menor quantidade”, disse.

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Atualmente, cerca de 47,8 milhões de mulheres a mais do que homens enfrentam insegurança alimentar no mundo, segundo a Action contre la Faim (Ação contra a Fome), que aponta as desigualdades de gênero como causa e consequência da fome.

O aumento das temperaturas também impacta diretamente a segurança das mulheres. Um estudo divulgado em abril de 2025 pela Spotlight Initiative, parceria entre União Europeia, ONU e governo do México, apontou que cada aumento de 1°C na temperatura global está associado a um crescimento de 4,7% nos casos de violência doméstica.

Fenômenos climáticos extremos, como as enchentes em Bangladesh, também têm sido associados ao aumento da violência de gênero e dos casamentos infantis, segundo as ONGs.

Dados do relatório Gender Snapshot 2025, da UN Women, indicam ainda que a falta de ação contra as mudanças climáticas pode empurrar mais 158,3 milhões de mulheres e meninas para a pobreza extrema até 2050.

Diplomacia feminista e cortes no financiamento

Embora a França, que preside o G7 neste ano, tenha adotado uma estratégia de diplomacia feminista para o período de 2025 a 2030, organizações afirmam que os cortes na ajuda internacional comprometem políticas voltadas às mulheres.

Segundo a Organisation for Economic Co-operation and Development, a ajuda pública ao desenvolvimento dos países membros e associados do Comitê de Ajuda ao Desenvolvimento somou US$ 174,3 bilhões em 2025, queda de 23,1% em relação ao ano anterior — a maior retração anual já registrada. Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido, Japão e França concentraram a maior parte da redução.

Para a Plan International France, o Fundo de Apoio às Organizações Feministas, considerado uma das principais iniciativas da diplomacia feminista francesa, foi diretamente afetado pelos cortes. “Há um ataque ideológico, financeiro e até à própria linguagem ligada à igualdade”, afirmou Léa Cros, da Ação contra a Fome.

Segundo as entidades, a redução de recursos já provocou o encerramento de dezenas de programas internacionais e afetou organizações locais que atuam na linha de frente do atendimento a mulheres e crianças.

Mulheres pedem participação nas decisões

Especialistas de países do Sul Global defendem maior participação feminina na formulação de políticas públicas relacionadas ao clima. Além de sofrerem os impactos das mudanças climáticas, mulheres também estão à frente de soluções de adaptação, especialmente nas áreas de agricultura e proteção ambiental.

“As mulheres não são apenas vulneráveis. Se forem apoiadas, podem se tornar agentes de mudança”, afirmou a pesquisadora vietnamita Hoang Thi Ngoc Ha, especialista em adaptação climática e soluções baseadas na natureza.

Já a especialista equatoriana em agroecologia Gladys Yolanda Guamán Casillas afirmou que mulheres indígenas continuam “quase sistematicamente excluídas” dos espaços internacionais de decisão. Ela pediu que governos ampliem a participação feminina nas discussões globais sobre clima e desenvolvimento.

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