Aonde a IA não se garante: profissões que não temem a modernidade
Profissionais avaliam benefícios e malefícios da IA no dia a dia das profissões
Após a explosão da Inteligência Artificial (IA) e das diversas ferramentas que se originaram dessa tecnologia para facilitar a rotina das pessoas, surgiu também o medo da substituição da mão de obra humana. A praticidade das respostas rápidas e a redução do tempo que atividades repetitivas levavam antes, conquistaram um público grande. Mas, ainda existem setores que se mantém distantes desse medo, entre outras coisas, pela necessidade específica da atividade humana nessas tarefas, como áreas da saúde, criativas e outras mais práticas, com interação direta e, muitas vezes, física.
O exemplo mais direto é o das profissões estritamente práticas, como no segmento da construção civil, com pedreiros e demais atividades mais braçais. No entanto, algumas áreas chamam atenção pela interação necessária entre humanos para existirem, a exemplo da psicologia, que, apesar de não explorar serviços manuais, lida com uma parte ainda mais complexa do ser - a mente. O psicólogo clínico paraense Vitor Almeida, que atua com foco em psicoterapia para adultos, explica que a sua atividade vai além de apenas uma escuta ativa. “Ela envolve cuidado, responsabilidade e um compromisso ético com quem nos procura”, afirma.
“É importante entender que desabafar não é o mesmo que fazer terapia. O psicologo não oferece respostas prontas nem soluções rápidas. Ele acompanha a pessoa ao longo do tempo, ajudando ela a compreender o que sente e a lidar com as suas questões de forma mais consciente”, explica Almeida.
Na sua visão, esse profissional não atua como uma ferramenta, mas como parte do processo, conduzindo e oferecendo mecanismos de aperfeiçoamento dentro das situações específicas de cada pessoa, o que exige um tipo de sensibilidade humana inata a essas tecnologias. Mas, apesar disso, não faltam exemplos de pessoas procuram as IAs, para desabafar, o que tem levantado alertas sobre os impactos negativos dessa troca e da segurança das informações compartilhadas, por exemplo.
Para Vitor, esse cenário evidencia o que ele descreve como “o real problema” a se preocupar - a falta de investimento e estrutura no atendimento psicológico da população. A estrutura a que se refere e do Sistema Público de Saúde (SUS) e dos Centros de Atenção Psicossocial (Capes), que atendem principalmente a população mais vulnerável economicamente.
“Esse movimento, que eu digo que até é um sintoma, não significa que o trabalho do psicólogo esteja sendo substituído. Na realidade, ele mostra o quanto as pessoas estão precisando de escuta, só que é importante entender que desabafar não é o mesmo que fazer terapia”, avalia o profissional.
Ainda na área da saúde, mas com cuidados mais práticos, o oftalmologista e vice-presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM-PA) Doutor Lauro Barata reforça que as IAs “vieram para somar, em vez de substituir”. Segundo ele, além da sua atividade mais direta, o alento que os pacientes necessitam só podem ser fornecidos por outros seres humanos. Mas, apesar dessa preocupação, o profissional ressalta que “existem várias situações em que a IA facilita o diagnóstico preciso e mais precoce de diversas doenças oftalmológicas”, inclusive com esforços do próprio CRM-PA para orientar o uso mais adequado desses novos mecanismos.
“Já existe até quadro de cirurgia robóticas oculares, não só cirurgia robóticas como cirurgia geral já existe, uma possibilidade de que um médico faça uma cirurgia ocular à distância nos paciente, por exemplo. Ou seja, tudo que a tecnologia poderá vir a nos favorecer, nós temos que estar na vanguarda e sabermos no momento correto de usá-lo”, completa Barata.
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Olhar humano
Com a ampliação doa cesso as IAs, um dos recursos bem disseminados foi relacionado a criação de imagens, o que levantou a discussão sobre o fim das profissões mais criativas, agora que um toque poderia produzir uma imagem com muita similaridade as características físicas humanas. A fotógrafa paraense Carolyne Matos avalia que a inteligência artificial deve ser entendida mais como uma ferramenta do que como uma ameaça às profissões criativas.
Para ela, apesar dos avanços, a tecnologia ainda apresenta muitas falhas e atua como uma aliada no processo de criação, não como uma substituta do trabalho humano. Embora observe o uso de IA na produção de ensaios fotográficos, Matos vê a prática como problemática, sobretudo pela distorção de imagem, e não pela possibilidade de perda de espaço no mercado.
Segundo ela, quem opta por ensaios feitos por inteligência artificial dificilmente seria seu cliente. Ela reconhece que a escolha pode estar relacionada a diferentes fatores, como limitações financeiras ou à falta de percepção sobre o valor do trabalho artístico e da estética profissional. Ainda assim, afirma que isso não gera prejuízo ao seu trabalho, já que seu público a procura justamente por seus valores, sua experiência e, principalmente, pelo olhar autoral que construiu ao longo da carreira.
O mesmo olhar atento se faz necessário na área do serviço social, conforme explica o assistente social paraense Hermes Santos. Ele argumenta que o trabalho social exige contato humano, escuta qualificada e acolhimento, especialmente em situações de vulnerabilidade, algo que a IA não pode replicar. A função dos assistentes sociais vai além do assistencialismo, visando garantir e facilitar o acesso aos direitos dos usuários.
“Uma Inteligência Artificial não é atravessada por experiências humanas, por isso ela não vai sentir na pele o que acontece. Essa é a extrema necessidade do sistema social, ter a pessoa física ali presente”, aponta o assistente social.