Tomate, cenoura e batata acumulam altas muito acima da inflação em Belém e pesam no bolso
Produtos básicos da alimentação registraram reajustes expressivos no primeiro semestre de 2026, impulsionados por fatores climáticos, custos logísticos e dependência de abastecimento de outras regiões
O primeiro semestre de 2026 foi marcado por fortes aumentos nos preços da batata, do tomate e da cenoura em Belém, pressionando o orçamento das famílias e elevando o custo da alimentação. Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/PA) mostra que os três produtos acumularam reajustes muito superiores à inflação do período, estimada em cerca de 3,3%.
Somente entre abril e maio, o tomate teve alta de 18,17%, passando de R$ 10,40 para R$ 12,29 o quilo. A cenoura subiu 16,78%, de R$ 8,82 para R$ 10,30, enquanto a batata aumentou 5,99%, chegando a R$ 7,96 o quilo. No acumulado de janeiro a maio, o tomate liderou os reajustes, com alta de 69,28%, seguido pela cenoura, com 65,86%, e pela batata, com 27,56%.
Produtos disparam acima da inflação
Os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, também confirmam a escalada dos preços na capital paraense. No acumulado do ano, a cenoura registrou aumento de 102,4%; o tomate, de 63,28%; e a batata-inglesa, de 31,46%, índices muito superiores à inflação geral.
Segundo o supervisor técnico do Dieese/PA, Everson Costa, a alta é resultado de diferentes fatores que afetam a cadeia de abastecimento.
"A alta dos preços resulta da combinação de eventos climáticos extremos, da dependência do abastecimento de outras regiões e dos elevados custos logísticos. Os levantamentos preliminares de junho indicam que essa pressão deverá continuar, com expectativa de novas altas no tomate, na cenoura e na batata, mantendo esses produtos entre os principais responsáveis pelo aumento do custo da alimentação básica das famílias em Belém", afirma.
Consumidores sentem impacto nas compras
Quem faz compras semanalmente percebeu a oscilação dos preços ao longo do semestre. A professora Érika Canavarro afirma que os valores passaram por sucessivas mudanças antes de se estabilizarem nas últimas semanas.
"A gente teve durante este semestre uma montanha-russa desses valores. A gente começou o ano com um valor um pouco maior, depois diminuiu, voltou a aumentar e agora deu uma estabilizada", relata.
Ela afirma que a batata chegou a ultrapassar os R$ 10 por quilo no início do ano, mas atualmente é encontrada entre R$ 8,40 e R$ 8,50. Sobre o tomate, a professora diz que houve redução recente. "Hoje em dia a gente já paga um pouco menos pelo tomate do que pagou no início do ano”, declarou.
O aposentado Marcos Rendero também percebeu aumento nos preços, especialmente da cenoura.
"A cenoura está R$ 10,90. Eu pagava R$ 5, R$ 6 no início do ano", conta. Sobre o tomate, ele destaca a instabilidade do produto. "O tomate varia. Às vezes está R$ 6 e depois vai para R$ 14. É um produto muito sazonal”, disse.
Já a técnica de enfermagem Maria Costa afirma que a alta foi sentida em todos os itens.
"O tomate era em torno de R$ 6, R$ 7 e hoje eu pago mais do que o dobro. A batata era R$ 3, R$ 4 e agora está R$ 8, R$ 9. Dependendo do lugar, vai até R$ 10. A cenoura era R$ 4, R$ 5 no começo do ano e hoje está R$ 11, R$ 12", afirma.
Pressão deve continuar
De acordo com o Dieese/PA, a combinação entre problemas climáticos nas regiões produtoras, elevados custos de transporte e a dependência do abastecimento vindo de outros estados continua pressionando os preços dos hortifrutigranjeiros comercializados em Belém.
A expectativa é de que tomate, cenoura e batata permaneçam entre os principais responsáveis pelo aumento do custo da cesta de alimentos ao longo dos próximos meses.
Economista explica causas da alta e aponta vulnerabilidade de Belém
Para o economista paraense Nélio Bordalo, membro do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon PA/AP), a forte elevação dos preços da batata, do tomate e da cenoura no primeiro semestre de 2026 foi provocada principalmente por fatores conjunturais, ou seja, acontecimentos temporários que reduziram a oferta desses produtos no mercado.
Segundo ele, entre as principais causas estão as condições climáticas desfavoráveis nas principais regiões produtoras do país, como excesso ou falta de chuvas e variações bruscas de temperatura, que prejudicaram o desenvolvimento das lavouras, reduziram a produtividade e, em alguns casos, comprometeram a qualidade dos alimentos.
"O clima teve papel determinante na redução da oferta desses produtos. Quando há quebra de safra nas principais regiões produtoras, os preços reagem rapidamente, sobretudo em alimentos perecíveis como tomate, cenoura e batata", explica.
Bordalo destaca ainda que a elevação dos custos de produção agrícola também contribuiu para o encarecimento dos alimentos. Fertilizantes, defensivos, sementes, energia e combustíveis ficaram mais caros, elevando o custo para produzir e distribuir as hortaliças.
O economista ressalta que, no caso de Belém, existe um fator estrutural que amplia os impactos das oscilações de preços: a forte dependência do abastecimento de hortaliças produzidas em estados das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul do país.
"Qualquer problema nas áreas produtoras ou aumento dos custos de transporte, especialmente do frete rodoviário, repercute diretamente no preço pago pelo consumidor paraense. Quanto maior a distância entre a produção e o mercado consumidor, maior é a sensibilidade dos preços às oscilações logísticas", observa.
Na avaliação de Bordalo, embora essa dependência seja uma característica permanente do abastecimento da capital paraense, a disparada registrada em 2026 decorreu principalmente da combinação entre problemas climáticos, redução da oferta agrícola e aumento dos custos de produção e transporte.
Preços de tomate, cenoura e batata em Belém (Dados do Dieese/PA)
Tomate
- Preço em abril/2026: R$ 10,40/kg
- Preço em maio/2026: R$ 12,29/kg
- Variação em maio: +18,17%
- Acumulado de janeiro a maio/2026: +69,28% (maior alta entre os três produtos)
Cenoura
- Preço em abril/2026: R$ 8,82/kg
- Preço em maio/2026: R$ 10,30/kg
- Variação em maio: +16,78%
- Acumulado de janeiro a maio/2026: +65,86%
Batata
- Preço em abril/2026: R$ 7,51/kg
- Preço em maio/2026: R$ 7,96/kg
- Variação em maio: +5,99%
- Acumulado de janeiro a maio/2026: +27,56%
Inflação no período (jan.–maio/2026): cerca de 3,30%, bem abaixo dos reajustes registrados pelos três produtos.
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