Percentual de famílias endividadas alcança 79,5% no país, por outro lado, a inadimplência recua

Dados são da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC)

Valéria Nascimento e Gabi Gutierrez
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Em janeiro de 2026, o percentual de famílias brasileiras com dívidas voltou a atingir 79,5%, repetindo o maior patamar da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), alcançado pela primeira vez em outubro de 2025.  Apesar do volume recorde do endividamento, o percentual de quem está devendo o pagamento de alguma parcela recuou para 29,3%, a menor taxa desde abril do ano passado. Os números são da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgados no dia 6 de fevereiro.

Em Belém, o economista e doutor em Relações Internacionais, Mário Tito, observa que é necessário diferenciar endividamento de inadimplência. No endividamento, a pessoa posterga para o futuro o pagamento de um bem que adquiriu, então em vez, por exemplo, pagar no crédito, ela paga no crédito e, fica com parcelas a pagar, acreditando que pode pagar. Na inadimplência, a pessoa não consegue pagar as parcelas, ou seja, ela não cumpre o compromisso de pagamento.

"O endividamento não é necessariamente negativo”, destaca o professor Mário Tito. A observação está alinhada à consideração feita pelo presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, por ocasião da divulgação da pesquisa, no último dia 6. Tadros ressaltou que ainda que o endividamento tenha voltado ao topo, como em outubro de 2025, ele deve ser visto com cautela.

“É uma variável da economia que está estreitamente relacionada à taxa de juros cobrada no Brasil, uma das maiores do mundo”, afirmou Tadros. “É fundamental priorizar o equilíbrio das contas públicas para que a política monetária possa ser flexibilizada, aliviando a carga sobre consumidores e empresas”, acrescentou ele.

A pesquisa não divulga números regionais, no entanto, como os dados são coletados em todas as capitais, o professor Mário Tito analisou a condição das regiões com renda média mais baixa, como o Norte e o Nordeste.

"É claro que quanto menor a sua classe social, portanto a sua renda, e você quer adquirir um produto, porque nós trabalhamos com o desejo de ter, você considerando a sua renda atual, você abre crédito, então você se endivida. Então o aumento do endividamento pode representar lá na frente o inadimplemento, é uma possibilidade”, disse.

Tito chamou atenção para o fato da pesquisa apontar que o aumento do endividamento não apareceu acompanhado do aumento do inadimplemento. “É um dado que mostra claramente que de certa forma a economia tem se estabilizado: aumentou a renda da população e essa população passa a se endividar mais, no sentido de comprar a crédito e comprar em parcelas, e ao mesmo tempo tem confiança de que vai manter esse patamar para fazer frente a essa dívida contraída”.

"Agora, é importante destacar que isso traz um problema, que é o problema dos juros altos. Pois, se por um lado, do ponto de vista da economia real, você tem sim uma situação que manifesta dados positivos, e não é só a questão do PIB, a inflação está controlada, a taxa de desemprego baixa, crescimento das reservas internacionais e etc. E nós temos isso. Por outro lado, nós também temos juros muito altos e essa é a grande armadilha, quando a população mais pobre recorre ao crédito”.

Mário Tito frisa: “A taxa selic está a 15%, então, muito mais do que comprar a crédito, o que mais preocupa são os juros altos que vão encarecer, ainda mais, o custo do dinheiro que as pessoas pagam”.

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