Pará se aproxima de 500 mil pequenos negócios com presença do Sebrae em todos os municípios

Diretor-superintendente do Sebrae Pará, Rubens Magno afirma que o estado quase dobrou o número de empreendimentos desde 2019, destaca avanço da capacitação empresarial e avalia os impactos da COP 30 para os pequenos negócios

Gabriel da Mota

Com mais de 244 mil microempreendedores individuais (MEIs) e um universo que já se aproxima de 500 mil pequenos negócios, o Pará vive um ciclo de expansão do empreendedorismo. Em entrevista ao Grupo Liberal, o diretor-superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no estado, Rubens Magno, atribui esse crescimento à combinação entre dinamismo econômico, interiorização dos serviços de apoio ao empreendedor e ampliação da capacitação empresarial. Ele também destaca os resultados da Semana do MEI realizada em maio, os desafios de gestão enfrentados pelos empreendedores e os legados deixados pela 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30) para a economia local.

O LIBERAL: Com relação à Semana do MEI, realizada em maio, qual balanço o senhor faz dos atendimentos no Pará?

Rubens Magno: Essa Semana do MEI foi, mais uma vez, diferenciada. Desde 2019, quando assumimos o Sebrae aqui no estado do Pará, víamos muitas oportunidades de crescer o atendimento e a experiência que o cliente tem conosco. A Semana do MEI já existia, e percebemos que era um grande canal de atuação com esses pequenos negócios, que, na verdade, representam o início da jornada empreendedora para a maioria. Tanto que, aqui no Pará, a quantidade de MEIs é muito superior à de MEs e EPPs.

Neste ano, realizamos a maior feira de todas, com um espaço amplo e climatizado, mas, principalmente, com o intuito de trazer experiências modernas, já que a nossa assinatura deste ano é "O Futuro do Sebrae". Não poderíamos fazer nada diferente do que permitir que o próprio MEI se sentisse um grande empresário; ele é um pequeno empresário apenas no nome, mas esses caras são realmente gigantes. Tínhamos o objetivo de 45 mil atendimentos; para você ter uma ideia, chegamos a quase 100 mil.

Fizemos tudo isso pautado em uma estratégia que desenhamos lá no começo, em 2019, e avançamos muito por conta disso. A primeira estratégia foi a capilarização do Sebrae. Somos o único Sebrae do Brasil com presença em 100% do seu território. O estado do Pará hoje é coberto nos 144 municípios. Ativamos a Semana do MEI em todos eles. Claro que quem puxa esse número é Belém, a capital, pelo maior volume de empreendedores, mas tivemos ativações em outros cinco municípios, com rodadas de negócios, feiras, cozinha show e várias programações. Isso atraiu esses empreendedores, não só para o processo de regularização — que antecede a entrega do "Imposto de Renda do MEI" no final de maio — mas também para a formação desse empreendedor.

O LIBERAL: Quais são os números atualizados dos micro e pequenos negócios no Pará?

Rubens Magno: Hoje são mais de 244 mil MEIs, e já nos avizinhamos aos 500 mil pequenos negócios, somando ME e EPP. Esse número muda diariamente, porque estamos em um avanço muito grande. Quando assumimos, em 2019, existiam cerca de 275 mil pequenos negócios entre MEI, ME e EPP. Hoje chegamos quase ao dobro. Isso é uma junção de fatores: o próprio governo do Estado ajuda a economia a ter um processo evolutivo, o que faz com que empreendedores se lancem no mercado. Há também a necessidade de empreender; muitos possuem outras atividades e usam o MEI como uma segunda renda, e muitos migram da sua atividade inicial quando veem o negócio prosperar.

O LIBERAL: O senhor mencionou que o Sebrae está presente em todos os municípios. Como chegam a essa geografia complexa? Existe alguma atividade principal realizada apenas na Semana do MEI, ou os serviços de capacitação são realizados regularmente?

Rubens Magno: Todos os serviços disponíveis aos MEIs acontecem durante todo o ano, nos 144 municípios. Mas a Semana do MEI tem um diferencial: conseguimos colocar em pauta muitas rodadas de negócios, onde colocamos o MEI com a possibilidade de vender para grandes parceiros. Temos também a condição de oferecer ao MEI a experiência de uma feira de eventos, onde ele vem presencialmente e consegue ter acesso, por exemplo, à Inteligência Artificial. Ele entende quais são os outros mercados em que pode atuar, ou, se ainda não tem um negócio, quais pode começar a atender. É como uma grande convenção, onde ele vê, experiencia e, de repente, investe.

image Rubens Magno, diretor-superintendente do Sebrae no Pará (Ivan Duarte / O Liberal)

O LIBERAL: Como o senhor avalia a atual taxa de mortalidade das micro e pequenas empresas no Pará? O que leva essas empresas a fecharem tão cedo?

Rubens Magno: Essa é uma pergunta interessante porque já melhoramos muito esse índice. No passado, as empresas não chegavam a dois anos de vida — o que acaba sendo a média brasileira. Hoje, alargamos esse tempo para uma média de quatro anos. Ou seja, as empresas já têm um pouco mais de longevidade. Isso é bom, apesar de não ser satisfatório ainda para a gente. A maioria fecha por falta de planejamento. Quando falo em planejamento, refiro-me a diversas coisas, mas o principal é o planejamento financeiro, onde o empreendedor confunde o dinheiro do seu negócio com o da sua carteira pessoal. É um problema muito sério que precisa ser corrigido; é preciso haver essa divisão.

Esse é um ponto crucial: a gestão de fluxo de caixa e o entendimento da mudança de mercado. O mercado muda diariamente, muito rápido. Se você não tem planejamento e não está antenado, não consegue diversificar seus canais, como o digital. O canal digital veio para, ou aumentar a possibilidade de venda, ou fechar o negócio. O Sebrae é o melhor canal para traduzir o que o mercado faz, o que muitas vezes o empresário tem dificuldade de entender.

O LIBERAL: Quais são as áreas mais fortes de atuação dos MEIs no Pará?

Rubens Magno: Como não somos um estado muito industrializado, nosso processo acontece principalmente no comércio e na prestação de serviços. Destaco alimentação fora do lar e vestuário, que são áreas muito importantes onde o Sebrae tem uma atuação forte, pois são as maiores demandas. Não posso deixar de falar da construção civil; isso foi muito impulsionado pelas obras estruturantes do governo federal, estadual e municipal com relação à COP. Nos últimos três anos, fomos um canteiro de obras e a construção civil foi muito importante. Não falo só de mão de obra, mas de toda a cadeia de materiais. O comércio, porém, sempre está no ‘top’ cinco.

O LIBERAL: Como as vendas online ajudam esses empreendedores?

Rubens Magno: A pandemia, lamentavelmente, aconteceu, mas foi um grande impulso para esse tipo de negócio, porque as pessoas se obrigaram a criar um canal diferente de venda. O Sebrae já trabalhava com digitalização há anos, mas tínhamos dificuldade em fazer o mercado entender essa necessidade. Hoje esse é um mercado muito importante. Existem negócios exclusivamente online, mas também enxergamos o digital como uma filial da loja física. Precisamos que o cliente entenda que ali é um outro canal, com características, consumidores, atitudes e estratégias diferentes. Voltamos à importância da estratégia: o Sebrae tem soluções para tudo isso, desde o cliente que não sabe nada até aquele que já é efetivo, ensinando a usar Instagram, WhatsApp Business, criação de CRM, banco de dados, sites e portais. Temos a jornada completa para oferecer.

O LIBERAL: Especificamente sobre a administração financeira, quais são as principais capacitações ofertadas pelo Sebrae?

Rubens Magno: A primeira, e principal, é entender a diferenciação entre o seu dinheiro e o dinheiro do seu negócio. Fazer com que ele tenha a mente para tirar o seu salário, o seu pró-labore, e entender que CPF é diferente de CNPJ. Depois, o auxílio ao crédito. Nós não somos uma entidade que dá crédito ou entrega recursos, mas somos o principal ente que ajuda na aplicação direta e consciente desse recurso. Não adianta pegar um dinheiro barato ou um empréstimo e não saber utilizar; pode ser uma âncora para te levar ao fundo, e não uma corda para te salvar. A prova disso foi a operação que fizemos no período da COP, com mais de R$ 156 milhões para pequenos negócios. Todo esse dinheiro era dirigido; orientávamos como investir, seja no estoque, fachada ou sistema.

O LIBERAL: Além dessa injeção de recursos, quais são os principais gargalos para os pequenos empresários conseguirem crédito? É o desconhecimento, a falta de garantias, ou as duas coisas?

Rubens Magno: O principal problema é o endividamento causado pela falta de planejamento. Muitos negócios ficaram endividados por questões da pandemia. Ajudamos o Estado a fazer o Fundo Esperança, um movimento integral do governo, mas muitos tomaram recursos no mercado com juros altos e se enrolaram por não planejarem a utilização. Isso trouxe o endividamento e o "nome sujo", o que dificulta o acesso a operações bancárias. Nós atuamos, mais uma vez, como garantidores através do FAMP (Fundo de Amparo às Micro e Pequenas Empresas). Não cedemos o dinheiro, mas somos garantidores. Ainda assim, são os bancos que decidem, e a restrição impede o crédito. O Sebrae tem processos internos que ajudam esse cliente a fazer a limpeza do seu nome, dando os remédios específicos para ele se curar.

image Rubens Magno, diretor-superintendente do Sebrae no Pará (Ivan Duarte / O Liberal)

O LIBERAL: Qual a sua visão sobre o teto atual do MEI: R$ 81 mil?

Rubens Magno: Essa é uma bandeira nacional do Sebrae e um pleito realmente importante. Queremos aumentar esse teto para além dos R$ 120 mil por ano. Isso ainda não existe, é um pleito pelo qual batalhamos muito. É um ponto importante, porque ao chegar aos R$ 80 mil, o empreendedor entra em um ponto de inflexão, preocupado com o aumento da tributação. Mesmo continuando no Simples, a mudança acarreta custos maiores. Trabalhamos nisso, mas é uma decisão do governo federal.

O LIBERAL: Em uma análise geral do legado da COP 30 em Belém: o que ficou de legado, e o que foi impulsionado?

Rubens Magno: A COP foi extremamente positiva. O Sebrae entrou de cabeça, criamos a "Agência Sebrae COP 30", direcionada aos pequenos negócios. Fizemos uma quantidade de capacitações nunca vista anteriormente no Brasil em tão pouco tempo. Criamos a possibilidade de crédito com o governo do Estado e o Banpará. O governo Helder foi muito diligente. Tivemos também o projeto "Capacita COP 30", do governo do Estado, onde entregamos, só pelo Sebrae, quase 20 mil pessoas capacitadas. O governo foi um aglutinador, chamando Sesc, Senac, Senai e Senar.

Um dos legados foi forçar o empreendedor a se adequar a uma pauta internacional. Outro é entender a Amazônia e que muitos pequenos negócios, que nunca tinham tido a experiência com estrangeiros, são capazes de grandes operações. O Pará foi colocado na pauta mundial. Deixamos equipamentos, mas o maior legado foi a mudança de ‘mindset’ [mentalidade]. Entender que o gringo não é um bicho de sete cabeças. A língua é uma barreira, sim, mas limitada, pois existem aplicativos e pessoas dispostas a aprender. A receptividade do paraense foi extraordinária. Muitos que não falavam inglês se jogaram, usaram mímica ou tradutor.

Além das capacitações, montamos a "E-Zone" (Zona do Empreendedorismo). Foi a primeira vez que existiu, e estamos conversando com a Turquia para ver se eles continuam a fazer isso lá. Foi o ponto mais falado das ações externas da COP. Tivemos a "Casa Pará", em parceria com a Guá Arquitetura, para mostrar a identidade legítima do nosso estado.

O LIBERAL: Para fechar: representantes de setores ligados ao turismo local relatam um boom de turistas e circulação de dinheiro durante a COP, mas uma diminuição considerável após o evento. Com relação aos investimentos feitos pelos empreendedores paraenses para o evento climático, o Sebrae observa alguma dificuldade na administração de dívidas resultantes?

Rubens Magno: Os que seguiram nossos conselhos estão muito bem, exatamente pelo planejamento e uso correto dos recursos. Muita gente investiu recursos próprios, então não há endividamento. Mas é um processo natural ter picos de onda, cíclicas, quando vem um evento desse porte. Tivemos o Círio de Nazaré, que já é uma movimentação financeira gigante, e logo depois a COP. Tivemos dois Círios, basicamente. Depois do pico, vem a queda, o que é natural. Mas essa queda não voltou aos patamares de antes da COP. Os hotéis, por exemplo, não desceram ao nível anterior. Estamos em um novo patamar.

Precisamos continuar fomentando a vinda de pessoas para cá. A governadora Hana Ghassan, inclusive, tem trabalhado muito na pauta das mulheres. O Sebrae tem trabalhado com ela o empoderamento feminino através de programas como o "Sebrae Delas". A maioria dos pequenos negócios do Pará é dirigida por mulheres. Em 2019, tínhamos 147 mil atendimentos por ano. Com a estratégia de capilarização, o ano passado chegamos a mais de 1,2 milhão de atendimentos. Desses, 57% foram para mulheres. Precisamos fortalecer essa categoria para garantir a perenidade dos negócios.

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