Pará corre contra o tempo para preparar empresas para nova cadeia do petróleo
Estado terá de qualificar fornecedores, trabalhadores e infraestrutura antes que a exploração comercial da Margem Equatorial avance. Produção pode começar apenas daqui a seis ou sete anos.
A descoberta de petróleo no poço Morfo, na Bacia da Foz do Amazonas, anunciada no início desta semana, abre para o Pará a perspectiva de participar de uma nova fronteira energética, mas também impõe uma corrida contra o tempo. Para a Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), o desafio agora é preparar empresas, trabalhadores e infraestrutura para que os investimentos associados à exploração não apenas passem pelo Estado, mas se transformem em negócios, empregos, renda e desenvolvimento local.
A entidade avalia que o Pará já reúne ativos importantes para ocupar uma posição estratégica na cadeia de óleo e gás, como polos metalmecânico e naval e empresas com experiência no atendimento a grandes projetos. No entanto, a existência dessa estrutura não garante, por si só, que os fornecedores paraenses conseguirão disputar os futuros contratos.
“Potencial e ativos existentes, sozinhos, não garantem protagonismo”, afirma o presidente da Fiepa, Alex Carvalho. Segundo ele, o Estado precisa avançar em infraestrutura, qualificação profissional, desenvolvimento de fornecedores, tecnologia e melhoria do ambiente de negócios. A preocupação é especialmente relevante para pequenas e médias empresas, que podem enfrentar dificuldades para cumprir as exigências técnicas e de gestão impostas pela indústria de petróleo e gás.
Entre os obstáculos estão os custos de certificações, como a ISO 9001, além de exigências relacionadas à saúde e segurança ocupacional, como a ISO 45001. Carvalho afirma que muitas empresas paraenses possuem capacidade técnica e experiência, mas ainda precisam estruturar processos internos, gestão da qualidade, documentação e equipes para atender aos padrões exigidos por grandes companhias.
“Muitas empresas locais têm capacidade técnica e experiência — e temos no Pará uma base importante nos segmentos metalmecânico, naval e de serviços industriais —, mas parte delas ainda precisa estruturar processos internos, gestão da qualidade, documentação e equipes dedicadas”, diz.
A Fiepa defende, por isso, a criação de programas de desenvolvimento de fornecedores capazes de preparar as empresas para as auditorias e exigências da Petrobras. A entidade cita como referência experiências realizadas em outros estados, como o Prodfor, no Espírito Santo, que aproxima grandes empresas compradoras de fornecedores locais.
“Em vez de simplesmente dizer ao empresário que ele ainda não está pronto, precisamos ajudá-lo a chegar lá”, ressalta Carvalho.
Mão de obra
A preparação também passa pela formação de mão de obra. A Fiepa defende a participação do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) na construção de uma estratégia de qualificação capaz de antecipar as competências que serão demandadas pela nova cadeia. A ideia, segundo Carvalho, não é formar trabalhadores exclusivamente para o petróleo, mas desenvolver habilidades que também possam ser aproveitadas em outras atividades industriais e energéticas. “Não entendemos que seja possível construir uma estratégia de formação profissional nessa escala, com o nível de competência técnica exigido pela indústria de óleo e gás, sem a participação do Senai”, defende.
A própria Universidade Federal do Pará (UFPA) já mantém formação específica na área. Atualmente, 278 alunos estão ativos no curso de Engenharia de Exploração e Produção de Petróleo, no campus de Salinópolis. A instituição, porém, informou à reportagem que não dispõe de dados consolidados e atualizados sobre a taxa de absorção dos egressos pelo mercado de trabalho local.
Para a Fiepa, a janela de preparação não deve ser desperdiçada. A entidade considera que quanto mais cedo forem identificadas as demandas da indústria, as certificações necessárias e as competências exigidas, maior será a possibilidade de participação das empresas paraenses na cadeia. “Precisamos construir essa ponte antes que os grandes investimentos aconteçam”, pontua o presidente da federação.
Petróleo pode transformar Amazônia, mas legado dependerá de decisões tomadas agora
O primeiro indício de petróleo na Foz do Amazonas ainda está longe de significar que a produção comercial na Margem Equatorial está garantida. Para o geólogo e professor titular da Universidade Federal do Pará (UFPA) Pedro Walfir Souza Filho, serão necessárias novas perfurações para dimensionar a possível reserva e confirmar se a exploração será economicamente viável.
Segundo o pesquisador, a Petrobras deverá realizar pelo menos mais três furos exploratórios para determinar quantos milhões de barris podem existir na área e qual será o custo de produção. Também serão analisados os materiais sedimentares coletados, a idade das formações e a qualidade do óleo encontrado.
“Se os resultados confirmarem a viabilidade comercial, a produção poderá começar em cerca de seis ou sete anos”, afirma Pedro Walfir.
Enquanto a exploração ainda depende de uma série de etapas, o pesquisador avalia que a região precisa começar desde já a se preparar para uma eventual instalação da indústria de óleo e gás. Entre as prioridades, cita melhorias na infraestrutura portuária, construção de dutos e estradas, conclusão do asfaltamento da BR-156, que liga Macapá a Oiapoque, e estruturação de uma rede de fornecedores capazes de atender à nova atividade.
Walfir também chama atenção para a necessidade de ampliar a capacidade de pesquisa científica na própria Amazônia. Ele participa de um projeto desenvolvido em parceria com a Petrobras para estabelecer parâmetros ambientais que permitam, no futuro, comparar as condições da região antes e depois de uma eventual exploração de petróleo.
O projeto prevê o levantamento do chamado fingerprint [impressão digital] do óleo encontrado nos ambientes costeiros e a construção de uma central analítica geoquímica no Instituto de Geociências da UFPA, com estrutura comparável à existente no Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), no Rio de Janeiro. A proposta é ampliar a capacidade das instituições amazônicas de produzir e controlar conhecimento sobre os impactos ambientais associados à atividade. “Para que nós, das instituições amazônidas, possamos ser responsáveis por esse controle, com o auxílio e a parceria da maior estatal desse país, que é a Petrobras”, explica.
Legado
Para o pesquisador, entretanto, a principal questão não será apenas quanto petróleo poderá ser produzido, mas o que a exploração deixará para a região quando o ciclo terminar. Ele defende que parte dos royalties e impostos gerados pela atividade seja destinada, desde o início, a investimentos em ciência, tecnologia, inovação e educação.
“Qual legado nós vamos deixar a partir da exploração da Margem Equatorial, se isso acontecer e for economicamente viável?”, questiona.
Walfir cita os ciclos anteriores de exploração de recursos naturais na Amazônia como uma experiência que não pode ser repetida. A preocupação é evitar que o petróleo se transforme apenas em mais um ciclo de extração de riqueza. “A gente precisa transformar o país para que o ciclo do óleo e gás seja completamente diferente”, afirma o pesquisador.
Na avaliação de Walfir, a oportunidade pode ser especialmente relevante diante do esgotamento gradual de parte das reservas que hoje sustentam a produção brasileira. Ele considera que a Margem Equatorial pode se tornar uma das próximas grandes fronteiras de óleo e gás do país e defende que a sociedade esteja preparada para decidir como utilizar os recursos gerados. “Nós temos uma oportunidade real de promovermos desenvolvimento social e econômico. Isso depende da sociedade, depende de nós”, conclui.
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