Feijão sobe mais de 50% em Belém e pesa no bolso de consumidores:‘Diferença de preço tá muito séria’
Com quilo chegando a R$ 10 em supermercados, consumidores mudam hábitos de compra, enquanto economista aponta clima, logística e dependência de outros estados como causas da alta
O feijão, um dos alimentos mais tradicionais da mesa dos brasileiros, ficou significativamente mais caro em Belém. Dados da cesta básica do Dieese/PA (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), em parceria com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), mostram que o preço médio do quilo do feijão acumulou alta de 54,91% entre janeiro e abril de 2026. Nos últimos 12 meses, entre abril de 2025 e abril de 2026, o aumento também ultrapassou os 50%, passando de R$ 5,68 para R$ 8,52.
Mesmo com a forte alta, a prévia da inflação de maio, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), indica apenas uma leve estabilidade no preço do feijão-carioca. Em comparação com abril, o reajuste foi de apenas 0,05%, sinalizando uma interrupção momentânea na escalada, mas ainda sem redução no valor pago pelo consumidor.
Consumidores sentem alta e mudam hábitos de compra
Nos supermercados e feiras da capital paraense, consumidores relatam dificuldade para manter os mesmos hábitos de consumo diante do aumento do preço do alimento.
O engenheiro eletrônico Antonio Almeida afirma que já precisou substituir parte das compras devido ao encarecimento do feijão-carioca.
“Senti o aumento do preço do feijão aqui em Belém, principalmente do feijão-carioca. Tô pagando em média quase R$ 10. Antes, pagava R$ 7,50”, relata.
Segundo ele, a diferença de preços entre os tipos de feijão levou a uma mudança no carrinho de compras.
“Hoje eu tô levando o feijão preto, que tá R$ 7. Eu não estou levando o feijão-carioca. Eu sempre levo um de cada um. Mas hoje a diferença de preço tá muito séria”, afirma.
Antonio destaca ainda que o impacto no orçamento familiar vai além do grão.
“Não só o feijão. Temos lá atrás as frutas e verduras que tiveram um aumento tão assustador quanto o feijão, na ordem de 30% a 35%”, acrescenta.
A técnica de enfermagem Auzanete Carvalho também percebeu o aumento nos últimos meses e afirma que, mesmo pagando mais caro, não conseguiu reduzir o consumo.
“Hoje em média eu pago R$ 9, R$ 10. Antes, era R$ 8, era R$ 7. Eu continuei comprando feijão do mesmo jeito, porque é o jeito. A gente não tem outra opção”, diz.
Ela afirma que nem mesmo buscar alternativas mais baratas tem resolvido o problema.
“Não tenho buscado outros tipos de feijão mais baratos pra compensar, porque pra onde a gente corre o preço tá caro”, comenta.
Auzanete relata ainda que o aumento generalizado dos alimentos afetou diretamente sua renda.
“O aumento do preço do feijão impactou porque eu trabalhava com refeição e tive que parar um pouco devido ao aumento geral da alimentação”, explica.
O funcionário público Rogério Bittencourt afirma que manteve o consumo, mas passou a procurar promoções e outras marcas.
“Apesar da alta do feijão, eu continuei consumindo na mesma quantidade porque a gente não pode ficar sem ele”, afirma.
Segundo Rogério, o preço atual chega a R$ 10, bem acima do valor pago anteriormente. “Antes eu chegava a pagar R$ 6,35. Eu tenho procurado ofertas, outras marcas, mas às vezes nem compensa tanto assim”, relata.
Ele também observa que a pressão no orçamento doméstico não se restringe ao feijão. “Tem café, leite, biscoitos. Todos eles aumentaram”, diz.
Clima, logística e dependência de outros estados explicam alta
Para o economista André Cutrim, a disparada do preço do feijão em Belém está relacionada, sobretudo, à redução da oferta e aos custos de abastecimento.
“A alta do feijão em Belém decorre, principalmente, de problemas de oferta, já que a produção é muito sensível ao clima e qualquer quebra ou atraso de safra reduz a disponibilidade do produto no mercado”, explica.
Segundo o economista, a dependência de feijão vindo de outros estados também pesa no preço final pago pelos consumidores da capital paraense.
“Belém depende de feijão vindo de outros estados, o que incorpora custos de transporte, armazenamento, intermediação e perdas logísticas ao preço final pago por nós consumidores”, afirma.
Estabilidade em maio não significa alívio definitivo
Apesar da leve estabilidade registrada em maio, André Cutrim alerta que ainda é cedo para afirmar que os preços deixaram de subir.
“A estabilidade recente ainda não permite afirmar que o preço do feijão continuará estável nos próximos meses”, pontua.
Segundo ele, o cenário mais provável é de desaceleração das altas, mas ainda com risco de novos reajustes, especialmente em razão de fatores climáticos e logísticos.
“O mês de maio indica uma pausa no aumento, não necessariamente uma tendência consolidada de queda ou estabilidade prolongada”, conclui.
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