Saiba por que ensino superior não garante retorno ao mercado

Brasileiro recém-formado espera quase um ano e meio para conseguir voltar ao mercado, aponta pesquisa

Redação Integrada

Os trabalhadores com ensino superior são os que levam mais tempo para conseguir voltar ao mercado de trabalho quando ficam desempregados, de acordo com a consultoria iDados, com base nas informações do terceiro trimestre da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Um brasileiro que concluiu a faculdade demora, em média, 16,8 meses (quase um ano e meio) para se recolocar. Como comparação, um profissional com ensino médio gasta 14,7 meses para encontrar um novo emprego, e quem concluiu ensino fundamental demora cerca de 13,1 meses.

Uma série de fatores, segundo especialistas, explica as razões para os trabalhadores mais escolarizados do país demorarem mais para se recolocar. Os brasileiros com ensino superior costumam trabalhar em regime formal, então, em caso de demissão, recebem indenização – como multa do Fundo de Garantia de Tempo de Serviço (FGTS) e seguro-desemprego – e conseguem ter alguma folga no orçamento para buscar uma recolocação. “Uma pessoa mais qualificada tem mais probabilidade de ter um vínculo formal e, portanto, já são criadas proteções para o indivíduo, o que diminui o grau de urgência para encontrar um novo emprego”, afirma o pesquisador Bruno Ottoni.

Pelo lado das empresas, a contratação de um trabalhador mais qualificado também costuma ser mais lenta. “Acredito que, na verdade, essa questão não é conjuntural, é da natureza das ocupações que exigem ensino superior. São processos de seleção mais criteriosos, a disponibilidade de vagas específicas é muito pequena. Isso não deve estar atrelado à conjuntura, até porque a taxa de desemprego desse público é menor do que a de outros grupos”, diz o economista Cosmo Donato. Não por acaso, historicamente, esses trabalhadores sempre demoraram mais para se recolocar. No terceiro trimestre de 2018, por exemplo, eles levavam 15,7 meses para voltarem ao mercado.

Recrutador

A preferência das companhias por profissionais que já estão empregados é outro fator que contribui para aumentar a espera por vagas dos trabalhadores com ensino superior que estão fora do mercado, observa Renato Trindade, gerente de uma consultoria especializada em recrutamento de executivos.

“A gente tem que pensar também com a cabeça do recrutador. Tem muitos profissionais com ensino superior no mercado, é uma gama muito grande de perfis para analisar. E ainda existe o preconceito com quem está fora do mercado, muita gente prefere contratar alguém que esteja empregado e queira se movimentar. Aí a régua [de exigências] sobe.”

O fato de os trabalhadores mais qualificados levarem mais tempo para se recolocar não significa que eles sejam os principais afetados pelo desemprego. Pelo contrário: no terceiro trimestre, a taxa de desocupação entre os que tinham ensino superior completo era de 5,8%. No mesmo período, o país tinha uma taxa de desemprego total de 11,8%.

Economia
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