Mulheres têm menos reserva de emergência e maior dificuldade para equilibrar orçamento, diz Serasa
Pesquisa aponta que 19% das mulheres têm reserva para imprevistos, contra 32% dos homens
Uma pesquisa da Serasa, realizada em parceria com o Instituto Opinion Box, aponta que as mulheres enfrentam mais dificuldades para construir uma reserva de emergência e manter uma folga financeira em comparação aos homens. Segundo o levantamento, 81% das mulheres afirmam não possuir nenhum tipo de reserva, índice 12 pontos percentuais superior ao registrado entre os homens.
O estudo mostra que apenas 19% das mulheres têm algum valor guardado para imprevistos, enquanto entre os homens esse percentual chega a 32%. Além disso, somente 17% do público feminino consegue pagar todas as contas do mês e ainda economizar, contra 29% dos homens.
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A dificuldade também aparece entre os consumidores inadimplentes. De acordo com o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa, referente a maio de 2026, as mulheres representam 50,5% dos brasileiros com contas em atraso. Na comparação com o mesmo período de 2025, a inadimplência feminina cresceu 9,2%, enquanto entre os homens o aumento foi de 7,8%.
Para Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira, os dados refletem a dificuldade de muitas mulheres em conciliar as despesas do mês com o planejamento financeiro de longo prazo.“Quando a renda é consumida pelas despesas essenciais, sobra pouco espaço para formar uma reserva de emergência ou lidar com imprevistos sem recorrer ao crédito”, afirma.
Segundo a economista Maria Amélia Enriquez, professora titular da Faculdade de Economia da Universidade Federal do Pará (UFPA), a dificuldade não está relacionada apenas ao comportamento de consumo das mulheres, mas a fatores econômicos e sociais. “A dificuldade das mulheres em acessar recursos financeiros e equilibrar o orçamento não significa, necessariamente, que elas estejam gastando mal. Essa é uma visão equivocada”, afirma.
De acordo com a economista, um dos fatores que ajudam a explicar esse cenário é o próprio perfil demográfico e familiar. As mulheres representam 51,5% da população brasileira e, em Belém, esse percentual chega a 53%. Além disso, entre os inscritos no Cadastro Único na capital paraense, 74% têm mulheres como responsáveis familiares. “Somos maioria da população e também assumimos, em muitos casos, o papel de principais provedoras da família, principalmente entre as famílias de baixa renda. Isso gera uma sobrecarga”, explica.
A professora também destaca a desigualdade de renda como um dos elementos que influenciam a capacidade de poupança. Segundo dados citados por ela, considerando apenas trabalhadores empregados formalmente, 61% são homens e 38,7% são mulheres. Entre as mulheres empregadas, a renda média corresponde a cerca de 80% do rendimento dos homens. “Somos maioria da população, assumimos responsabilidades familiares e ainda temos uma renda menor. Em um cenário inflacionário, isso naturalmente aumenta a pressão sobre o orçamento feminino”, afirma.
Orçamento das mulheres em Belém
Para Maria Amélia, além da renda, o aumento do custo de vida também contribui para dificultar a formação de reservas financeiras. Em Belém, ela destaca a alta nos preços de itens considerados essenciais, como aluguel, transporte e alimentação.
Segundo a economista, em 2025, ano em que a capital paraense sediou a COP, os aluguéis registraram uma elevação próxima de 18%. Ela também cita o reajuste da tarifa de ônibus, que passou de R$ 4 para R$ 4,60, como outro fator de pressão no orçamento.“São despesas que não podem ser substituídas. As pessoas precisam pagar aluguel e precisam se deslocar para trabalhar. São gastos considerados inelásticos”, explica.
A professora também aponta o impacto dos combustíveis e dos alimentos no orçamento das famílias. “Temos, de um lado, uma renda que não acompanha esse aumento e, de outro, um custo de vida maior. Esses fatores contribuem para o agravamento das dificuldades financeiras”, afirma.
O levantamento da Serasa também indica que a principal preocupação financeira de homens e mulheres é semelhante: quitar dívidas atrasadas. O tema foi citado por 45% das mulheres e 43% dos homens.
Controle de gastos e equilíbrio financeiro
Apesar das diferenças na capacidade de poupar, homens e mulheres apresentam níveis próximos de acompanhamento das próprias finanças. Segundo a pesquisa, 65% dos homens afirmam controlar todos ou a maior parte dos gastos, contra 55% das mulheres.
Entre os principais obstáculos para manter as contas em dia, a renda insuficiente para cobrir as despesas aparece como o fator mais citado pelas mulheres, mencionado por 30,3% delas. Entre os homens, o índice foi de 21,5%.
Para Maria Amélia, o controle financeiro é importante, mas não depende exclusivamente da renda disponível. Segundo ela, a construção de uma reserva também está ligada ao desenvolvimento de hábitos de planejamento. “Existem pessoas com rendas elevadas que continuam endividadas porque gastam acima do que recebem. Da mesma forma, há pessoas com rendas menores que conseguem reservar uma pequena parcela todos os meses porque desenvolveram esse hábito”, afirma.
Segundo a economista, uma das estratégias é acompanhar de perto receitas e despesas. “O primeiro passo é entender para onde o dinheiro está indo: registrar todos os gastos e todas as receitas, seja em um caderno ou em uma planilha”, orienta.
Ela também defende a ampliação da educação financeira desde a formação básica, com iniciativas envolvendo escolas e universidades. “Ensinar crianças e jovens a lidar com dinheiro, criar o hábito de guardar uma parte da renda e planejar o futuro é fundamental”, afirma.
A professora ainda alerta para o impacto das facilidades de consumo oferecidas pelas plataformas digitais e redes sociais. Segundo ela, o acesso facilitado ao crédito, combinado à pressão pelo consumo, pode aumentar o risco de endividamento. “De um lado, existe uma grande oferta e facilidade de compra; de outro, muitas pessoas enfrentam restrições financeiras. Sem uma formação adequada e uma estrutura de planejamento, o risco de endividamento aumenta”, conclui.
*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia
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