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Com saca acima de R$ 1.800, cafeterias de Belém tentam segurar aumento do café

Empresários do setor afirmam que o aumento do grão já pressiona margens, mas consumo segue impulsionado pela experiência nas cafeterias

Thaline Silva*

O aumento no preço do café no mercado internacional já começa a repercutir no dia a dia das cafeterias em Belém. Em março de 2026, a saca de 60 quilos do café arábica é negociada acima de R$ 1.800, impulsionada por problemas climáticos em países produtores e por uma oferta mais restrita no mercado global.

Apesar da alta da commodity, estabelecimentos da capital paraense ainda buscam evitar repasses significativos ao consumidor. Proprietários afirmam que parte do aumento tem sido absorvida pelas próprias cafeterias para manter a competitividade e preservar a experiência do cliente.

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A empresária Melissa Casimiro afirma que a valorização do café no mercado internacional impacta toda a cadeia produtiva, desde a produção até a logística e distribuição. “O mercado internacional do café passou por uma valorização muito forte nos últimos meses, principalmente do café arábica, devido a fatores climáticos no Brasil e no Vietnã e ao aumento da demanda global”, explica.

Segundo ela, essa pressão nos preços exige maior atenção na gestão da operação. “No dia a dia da cafeteria, isso exige um controle maior de estoque, planejamento de compras e otimização dos processos, para garantir que a qualidade do produto continue alta sem comprometer a operação”, afirma.

Casimiro explica que apenas uma pequena parcela do aumento foi repassada ao consumidor. A maior parte dos custos adicionais foi absorvida pela operação para evitar impacto imediato nos preços do cardápio. “Um percentual de 2% foi repassado para o consumidor, enquanto cerca de 98% do aumento foi absorvido pela operação para não gerar impacto imediato”, diz.

Mesmo assim, alguns itens precisaram passar por ajustes discretos, com reajustes médios entre 1% e 2%. A estratégia tem sido acompanhar o mercado de forma gradual. “Tentamos evitar repasses bruscos para manter os preços competitivos dentro do segmento de cafés especiais”, afirma.

Estratégias para enfrentar a alta

Para lidar com o aumento da matéria-prima, cafeterias têm adotado diferentes estratégias comerciais. Entre elas estão a criação de combos promocionais, como café acompanhado de pão de queijo ou doces, promoções em horários específicos e o lançamento de novas bebidas especiais. Outra alternativa é apostar em produtos complementares e adicionais, que ajudam a equilibrar a margem de lucro.

Em alguns casos, a relação direta com produtores também ajuda a garantir estabilidade no fornecimento. O empresário Rodrigo Oliveira afirma que trabalha com cafés especiais provenientes de um produtor em Minas Gerais, com quem mantém parceria de longa data. “Minha estratégia é tentar absorver ao máximo essas variações de preço para não impactar o cliente. Não quero que ele veja uma notícia sobre aumento do café e já imagine que vai encontrar preços maiores no cardápio”, diz.

Segundo ele, a fidelização do público também é um fator importante para sustentar o negócio em momentos de oscilação do mercado. “Quando o cliente entra e gosta da experiência, ele tende a voltar. Temos pessoas que frequentam a cafeteria desde 2020”, afirma.

Mesmo quando a margem diminui, Oliveira diz que procura evitar mudanças frequentes no cardápio. “O café é uma bebida que costuma ter uma margem de lucro interessante. Mesmo que ela diminua um pouco em momentos de alta, ainda é possível absorver parte desses custos”, explica. O empresário acrescenta que reajustes acabam ocorrendo apenas em situações mais extremas e costumam ser feitos de forma gradual.

Consumo segue impulsionado pela experiência

Mesmo com o encarecimento do grão, empresários afirmam que o movimento nas cafeterias ainda não registrou queda significativa. Para muitos consumidores, o café continua sendo um pequeno prazer cotidiano.

A estudante de medicina Lohana Ayres conta que costuma frequentar cafeterias em Belém como forma de lazer. “Faz parte da minha rotina. Gosto de sair com minhas amigas e aproveitar o ambiente”, afirma.

 

Ela diz que já percebe diferenças de preço entre os estabelecimentos, o que pode influenciar na escolha. “Tem cafeterias que são bem caras e eu acabo não indo. Prefiro lugares que tenham qualidade, mas também um preço mais agradável".

Para empresários do setor, a experiência oferecida — que inclui ambiente, atendimento e convivência social — continua sendo um fator decisivo para atrair e fidelizar clientes, mesmo em um cenário de alta no preço do café.

*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia