Acordo Mercosul-UE: Pará tem biodiversidade e câmbio a favor, mas trava em gargalos logísticos

Redução de tarifas abre portas para produtos da bioeconomia amazônica. Especialistas e produtores alertam que rastreabilidade e infraestrutura são os maiores desafios para o Estado.

Gabriel da Mota
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A consolidação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE) coloca o agronegócio do Pará diante de uma oportunidade histórica de inserção global. Se por um lado a biodiversidade amazônica e a valorização do euro oferecem uma vantagem competitiva natural, por outro, a precariedade da logística interna e as rigorosas exigências ambientais europeias exigem uma corrida contra o tempo para a profissionalização do campo, dizem especialistas no assunto ouvidos pelo Grupo Liberal.

No Pará, setores como o de fruticultura, carne e bioativos despontam como os principais beneficiários da queda das tarifas. Contudo, o setor produtivo local demonstra preocupação com o rigor do Regulamento da UE para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR). A Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap) foi procurada pela reportagem para detalhar as projeções de crescimento, mas não houve retorno até o fechamento desta edição.

Vantagem competitiva e ativos naturais

Para a professora de Relações Internacionais e especialista em comércio exterior, Sabrina Sena, o Pará detém ativos naturais escassos que são difíceis de replicar em outras regiões do globo.

"O Pará possui uma vantagem competitiva estrutural e estratégica, especialmente no que se refere à biodiversidade aplicada a cadeias produtivas de alto valor agregado, como cacau, óleos essenciais, bioativos e insumos da sociobiodiversidade. Trata-se de uma vantagem de natureza territorial, ecológica e econômica, o que se enquadra no conceito técnico de vantagem baseada em dotações naturais. Quem atua no território paraense já reconhece que o estado reúne condições singulares de se posicionar como um hub estratégico da bioeconomia amazônica no mercado internacional, especialmente frente às novas agendas globais de sustentabilidade e transição verde", avaliou.

A especialista destaca, no entanto, que a distância geográfica e a imagem da região ainda são obstáculos para o produtor paraense. "Os produtos apresentam alto grau de diferenciação qualitativa em relação aos concorrentes da África e Ásia, mas enfrentam desvantagens estruturais. O primeiro obstáculo é a logística: a distância entre a Amazônia e os portos europeus eleva os custos, impactando o preço final. Além disso, existe a questão da rastreabilidade e do compliance ambiental. A Amazônia é frequentemente associada no imaginário europeu a riscos ambientais, o que impõe uma assimetria reputacional aos nossos produtos. Carecemos de um sistema institucional integrado de rastreabilidade territorial capaz de comunicar essas credenciais de forma estratégica", explicou.

Os riscos do protecionismo verde

Um dos pontos mais sensíveis da análise de Sena reside no chamado "protecionismo verde", onde critérios ambientais são usados como barreiras comerciais.

"Existe um risco real e crescente de protecionismo verde por parte da União Europeia. Trata-se de uma nova forma de barreira não tarifária, na qual mecanismos como o Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM) e a nova legislação anti-desmatamento funcionam, na prática, como filtros de acesso ao mercado. Embora esses instrumentos sejam justificáveis sob a ótica ambiental, eles favorecem países com maior capacidade tecnológica e institucional. Para o Pará, isso significa que a competitividade futura dependerá menos do produto em si e mais da capacidade de comprovar, monitorar e certificar o território produtivo de forma contínua", alertou.

Por outro lado, o cenário econômico atual, marcado pela valorização do euro frente ao real, pode acelerar investimentos estrangeiros no Estado. "A relação cambial amplia significativamente a margem de rentabilidade dos exportadores brasileiros. Do ponto de vista da atração de investimentos, a desvalorização do real torna o Pará um destino extremamente competitivo para o Investimento Estrangeiro Direto (IED). O câmbio funciona como um indutor de reindustrialização verde, pois estimula empresas europeias a internalizarem etapas produtivas no território paraense, aproveitando custos menores, acesso direto aos insumos e incentivos fiscais regionais", detalhou.

A Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa) vê o acordo com cautela. Guilherme Minssen, diretor técnico da entidade, aponta que o maior inimigo do produtor não está necessariamente no exterior.

"Este acordo tem mais de 20 anos de negociação e já enfrentou cordilheiras de imensas dificuldades. A precariedade de nossa infraestrutura na logística de transportes e portos é cruel com os produtores rurais, mas consegue perder para a insegurança jurídica no Estado. Teremos sérios problemas para enfrentar alguns setores da UE como lacticínios e os vinícolas, mas temos os produtos cárneos de melhor qualidade e de menores preços do planeta", destacou.

Cooperativismo e rastreabilidade

As cooperativas já se movimentam para adequar os negócios às normas internacionais. O Sistema OCB/PA tem investido no programa ESGCOOP para garantir a sustentabilidade dos negócios. "As cooperativas que desejam iniciar o processo de exportação precisam promover a adequação de seu processo tendo sua cadeia produtiva completamente rastreável, do campo ao embarque. O acordo pode servir como incentivo para a união das cooperativas por meio de centrais ou a realização de processos de fusão para que elas ganhem força e alcancem esses mercados", informou a assessoria da entidade.

A Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta) é um exemplo de quem já utiliza o modelo de Sistema Agroflorestal (SAFTA) para superar as barreiras verdes.

"O conceito é pegar terras degradadas e plantar em consórcio com árvores nativas para no futuro conseguirmos fazer uma floresta. O selo Amazônia é um apelo muito forte e valorizado na Europa, mas precisamos de outros certificados também para valorizar nosso produto. O acordo facilita a entrada em outros países, mas as empresas que não estiverem adequadas às exigências ambientais e de qualidade terão problemas", concluiu José Ono, diretor comercial da Camta.

O reconhecimento da qualidade regional é um diferencial que o município já carrega. O cacau de Tomé-Açu foi o primeiro produto paraense a receber o registro de Indicação Geográfica (IG), concedido em janeiro de 2019. Esse selo de procedência atesta que o modo de produção local confere características únicas ao fruto, o que ajuda a vencer as barreiras técnicas e agrega valor comercial frente aos concorrentes internacionais.

Como acessar o mercado europeu

O que o produtor paraense precisa para exportar

  • Rastreabilidade: registro completo do campo até o embarque, comprovando a origem da matéria-prima
  • Compliance ambiental: provas de que a produção ocorre em áreas livres de desmatamento recente
  • Certificações: selos de sustentabilidade, orgânicos e fair trade aumentam o valor e o acesso
  • Logística: planejamento para garantir a entrega rápida e a qualidade de produtos perecíveis
  • União: participação em cooperativas para ganhar escala e força nas negociações internacionais
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