Vida de Lourdes Barreto vira livro

“Puta Autobiografia” é um marco político e cultural que conta e reconta a história da prostituta e ativista, fala de suas memórias de vida e do país.

Alexandra Cavalcanti
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Ao contar suas histórias de décadas como prostituta, a ativista Lourdes Barreto, de 79 anos, quer, entre outras coisas, desmistificar a palavra “puta”. E para isso, ela que é mãe de 4 filhos, avó de 10 netos e bisavó de 7 bisnetos, fundadora da Rede Brasileira de Prostitutas com Gabriela Leite, do Movimento de Promoção da Mulher e do Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará (Gempac), precisou mergulhar fundo em suas memórias até emergir o livro “Puta Autobiografia”, previsto para ser lançado no segundo semestre deste ano. Longe de ser uma obra erótica, é antes de tudo um livro sobre a luta pela democracia e pela defesa dos direitos das mulheres e das prostitutas, que ainda hoje são vistas com preconceito e discriminação pela sociedade. Entremeados nesses temas, traz ainda um panorama da cultura e da história de cada época retratada.

Com curadoria de Leila Barreto, primeira filha de Lourdes, especialista em Educação em Direitos Humanos e Diversidade/UFPA e Comunicação Fiocruz/Brasília; e de Elaine Bortolanza, doutora em Psicologia Clínica, pesquisadora do tema e ativista da Rede Brasileira de Prostitutas, a obra é resultado da transcrição fala da autora, feita em detalhes preservando inclusive a forma como ela usa as palavras. “O livro se estabelece pela narrativa proposta pela autora. Decidimos por manter o modo como ela usa as palavras, entendendo que a sua oralidade é uma escrita”, explica Elaine.

Nascida em Catolé do Rocha, na Paraíba, ela chegou a Belém na década de 1950, onde fez sua vida, família, conheceu amigos, amores, construiu e acompanhou diversas lutas, que estão registradas no livro. “Nele, falo sobre a questão da mulher, da luta delas, porque o que expressam ainda hoje é que a prostituição é uma coisa suja, sem valor, que são mulheres que não têm capacidade, e isso não é verdade. Fui ser puta porque queria conviver com os dois lados da moeda e mexer na concepção de valores de uma sociedade. Dentro dessa questão de gênero, há uma dificuldade da sociedade entender. Pelo fato dela ser mulher, ela não pode ser dona do seu corpo? Fazer o que ela quer com o seu corpo? O livro também vai falar da história da cidade, falar do carnaval, da cultura da cidade, do Palácio dos Bares, da Estrela do Norte, entre outros”, antecipa.

A obra não deixou de fora nem mesmo os temas mais espinhosos. “A forma que lidei com a família. A minha sinceridade e lealdade. Nunca neguei de onde levei o dinheiro. Fui educando para eles verem isso como qualquer outro trabalho e isso muitas não conseguiram fazer. A sociedade não vê a puta como mãe. Eu fui uma puta mãe, sou uma puta avó e uma puta bisavó. Sempre me preocupei com a educação dos meus filhos, netos, bisnetos. Tenho hoje filhos e netos formados”, diz.

E foi revirando esse baú da vida para rever alguns episódios, que Lourdes se viu diante de uma explosão de sentimentos até então acalmados e guardados em algum canto da alma. “É uma puta emoção, fico muito emocionada ...saindo até lágrimas dos meus olhos, porque para outras mulheres isso não aconteceria nunca, parece que isso nunca seria possível. É um sonho realizado. É motivo de muito orgulho, satisfação e de felicidade pela dedicação toda que eu tive até hoje com a sociedade. Sou eu contando a história como uma grande historiadora. Isso tudo faz você acreditar em sonhos, esses sonhos estão sendo realizados”, destaca.

Em um desses mergulhos, ela chegou ao Primeiro Encontro Nacional “Fala, Mulher da Vida”, realizado no Rio de Janeiro em 1987, evento que ganhou um destaque especial na obra. "Essa foi uma realidade, um sonho muito grande. A Gabriela passou mal e eu que mal falava em público, essa nordestina forte e determinada tive que falar no Circo Voador para quase 500 pessoas. Tinham vários artistas apoiando, o Martinho da Vila, a Lucélia Santos, a Elza Soares e muitas companheiras do Sudeste e outros estados. Era um sonho realizado, porque, quando entrei na zona, percebi que havia a necessidade de se organizar, de contar essa história. Desde essa época, a gente já falava de feminismo com outra linguagem, não é uma coisa de agora, é de muitos anos”, relembra.

Na obra, em uma de suas passagens sobre o tema, ela descreve assim esse primeiro encontro. “E em 1987 com a maior coragem, com a maior determinação, vontade de transformar e de falar para sociedade, nós fundamos a Rede Brasileira de Puta. Duas putas: uma, que tinha tido acesso à academia, outra, que não tinha tido acesso à academia; mas tinha um conhecimento prático e político de enfrentar a ditadura militar. De ir presa, de mobilizar para reabrir a zona de Belém, uma zona grande, o Quadrilátero do Amor, que tinha mais de três mil trabalhadoras sexuais. Em correr atrás de estrutura para segurar as companheiras nossas que nos anos 70 ficaram presas dentro das casas.” [trecho do livro Lourdes Barreto: Puta Autobiografia]

A necessidade desse Primeiro Encontro surgiu, segundo ela, a partir da urgência de se debater diversos assuntos ligados à vida na zona. “Muitas de nós vivem violência como qualquer outra mulher, não somos diferentes. Mas me sentia protegida também na zona. Porque a exploração acontece em qualquer indústria, qualquer trabalho, eu já questionava isso na zona. Na Boate Long Beach, por exemplo, a gente tinha que trabalhar várias horas quando chegavam os clientes estrangeiros do cais. Eu liderei muito isso, de reivindicar melhores condições de trabalho, da gente ter direito ao lazer, de descansar duas horas. Foi na zona em que eu comecei todo esse movimento”, justificou.

Foi daí que começou a se firmar a liderança de Lourdes frente à luta em prol das mulheres e principalmente das prostitutas, que se seguiu por várias décadas e permanece até hoje e ainda é fonte dos anseios da ativista. “Hoje, nós temos três redes no Brasil, vários coletivos de prostitutas. Há mais respeito e visibilidade, mas ainda há muito injustiça social e discriminação. Mas acho que evoluiu da prostituta ser respeitada como cidadão de direito. Nunca vivi dentro da zona lutando somente pelos direitos das prostitutas, porque independente da minha profissão, sou mulher. E eu de dentro da indústria do sexo lutando como mulher, isso foi uma revolução cultural e política, porque eu estava dentro da zona, mexendo com uma concepção de valores de uma sociedade, dizendo que sou puta, afirmando o meu trabalho com meus órgãos sexuais. Porque não vejo diferença nenhuma da minha boca, dos meus dedos, dos meus órgãos sexuais. Nós trabalhamos com o corpo”, afirma.

Por outro lado, mesmo com esse ganho, ainda há um longo caminho a percorrer. “Temos que ver que hoje com todo esse retrocesso político se fala sobre a questão do racismo, das pessoas trans, dos gays, das lésbicas, a sociedade não quer falar sobre as prostitutas, os políticos não querem discutir sobre prostituição por causa dessa concepção de valores hipócrita com relação a sexualidade”, avalia.

 

Organização - Colocar todas as vertentes de Lourdes em um único volume não foi fácil. Para fazer isso, as curadoras precisaram se guiar fielmente pelas falas da ativista . “Ela é recorrente em nos dizer e escrever sobre formas de lutas e afeto. Seja ao afirmar sua identidade, seja ao lutar pela família e pela sociedade, o critério é trazer a autora em sua generosa forma de luta. Possível que os leitores procurem nomes, mas o livro traz a forma, nos diz como fazer e ser. A puta autobiografia de Lourdes segue sua maneira de agir e pensar, formata o corpo de sua própria história. Ela escreve com o corpo. É sua forma de escrita e luta”, afirma a Leila.

O livro se estrutura em trazer a oralidade potente de Lourdes na escrita textual, sendo a base a narrativa atemporal, contínua e precisa da autora. “É uma espécie de corpo-livro, onde ela se escreve. Sua literatura fala e inova, mostra-se por dentro da vida, da cidade e de suas relações. A base da organização do livro é o registro oral da autora”, diz Elaine.

O encontro de Leila e Elaine na curadoria se deu para trazer e organizar a escrita de Lourdes, tendo o cuidado de não intervir no modo como ela se escreve, como ela escreve. “Não serão capítulos, mas sim ondas, múltiplas camadas em movimento de uma fala que atravessa a sociedade, conjunturas políticas e sociais desde os anos 50 aos dias atuais, um futuro que é presente, que cria mundos nesse escrita corpo-luta. Múltiplas camadas de uma história viva, que se movimenta contemporânea ao revisitar o seu passado e imaginar o futuro. Como uma história coletiva que não tem fim, que quer se manter viva”, completa Leila.

A delimitação do tempo da obra segue desde o momento  que eu saí da casa da minha família na Paraíba nos anos 1955 e 1956 até os dias atuais. As relações que fui construindo, os afetos que me fortaleceram na luta, a exemplo de Dulce Aciolli, do Moprom, Deise Veloso e a Dona Conchita (o marido dela era médico e atendia as prostitutas na Igreja do Rosário). Foram mulheres ativistas que contribuíram muito e que me fortaleceram dentro do movimento, além de personagens da história dessa cidade”, conclui Lourdes.

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