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'Sinal Aberto': sonoridades amazônicas de Rafael Lima ecoam em álbum póstumo

Lançamento desse trabalho inédito do cantor e compositor, falecido em 2022, ocorrerá nesta sexta (22) nas plataformas digitais

Abílio Dantas e Eduardo Rocha
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A partir desta sexta-feira (22), o público poderá desfrutar nas plataformas digitais de "Sinal Aberto", álbum póstumo do cantor e compositor paraense Rafael Lima, falecido em 8 de outubro de 2022, aos 65 anos de idade. O álbum foi gravado nos últimos anos de vida de Rafael e reúne canções inéditas compostas por ele e em parceria com nomes como Joãozinho Gomes, o também falecido Sidnei Piñon, Fernando Dacko e Antônio Moura. Nesse trabalho, os ouvintes conferem a sonoridade produzida de forma intensa por esse artista que chegou, inclusive, a morar na Europa sem nunca ter deixado de lado suas raízes amazônicas, as quais estão presentes em "Sinal Aberto" por meio do carimbó ao lado do reggae, rock e jazz fusion, além do canto de Lima, nitidamente com a ousadia e a militância social de quem nasceu na Amazônia. 

"Sinal Aberto" traz 9 músicas de Rafael Lima. São elas: "Sinal Aberto", "O Círio", "Preta", "Pau Torando", "Gotas de Sol", "Onça Braba", "Passarinha", "Serenata" e "O Bruto". Antes de falecer, Rafael gravou três clipes que podem ser acessados no YouTube: 'Gotas de Sol", "Pau Torando" e "O Bruto". 

No disco, surgem versos com relatos pessoais em primeira pessoa, mas também, o diálogo com a estética do jazz fusion, que sempre inspirou o músico, além dos ritmos regionais, canções de denúncia. Rafael era fã do grupo Weather Report e, em particular, do baixista da banda, o lendário Jaco Pastorius. A filha de Rafael Lima, a cantora Ju Abe, detalha como foi revisitar a obra e o legado artístico de Rafael durante o processo de produção do disco. 

"O álbum foi deixado por ele totalmente pronto; o que nós fizemos foi somente o projeto gráfico, divulgação e contato com a distribuidora. Tivemos também que decidir a ordem das canções, pois isso ele não deixou determinado. É sempre difícil ter de retornar às lembranças dele, porque pra nós da família Lima de primeiro grau, a partida dele ainda parece muito recente. Ele tomava a frente de tudo nesta família, e portanto, a partida dele fez com que a dinâmica da vida alterasse em 180º. As mudanças, somadas ao luto, criaram um estado anestésico, porque a gente não teve nem tempo pra chorar, pra sentir". 

"Hoje, passados mais de três anos, o sentimento muitas vezes ainda é o de que 'a ficha ainda não caiu', porque as lutas se intensificaram, e tivemos que assumir várias tarefas que antes eram dele. Portanto, nos momentos em que temos que ficar de frente com as lembranças dele, é quando vivemos este luto que não tivemos tempo pra viver, e é sempre triste", diz Ju Abe. "A obra é onde mais sentimos a presença dele. Quando ouvimos a voz dele cantando, é como se ele ainda estivesse aqui, sentimos a presença dele, por meio da música dele. E é triste, pois quando a música se vai, fica a ausência. Mas continuamos a lutar pela divulgação da obra, porque sabemos, ainda há muito o que divulgar. Foram cinco álbuns inéditos com músicas de caráter atemporal. É preciso expandir mais, pois o legado musical dele é grande e necessário à cultura amazônica", acrescenta.  

"Sinal Aberto", como o próprio Rafael dizia, apresenta-se como uma representação lírica da fase "urbana" dele. "Dentre os cinco álbuns lançados, podemos dizer que o 'Arribadas' e o 'Apuí' remetem a uma Amazônia rural, enquanto 'Nômade' e o próprio 'Sinal Aberto', a dilemas de um eu-lírico vivente da Amazônia urbana, como era o caso pessoal dele, nascido e criado em Belém. Já o '500 years, so what (500 anos de quê)?' passeia entre estes dois cenários", conta Ju Abe. 

Portanto, nos dois álbuns "rurais", como explica Ju, tem-se o eu-lírico dando voz a personagens inspirados nos caboclos da Amazônia rural, inspirados na maioria das vezes nos romances de Dalcídio Jurandir, de quem ele era fã. Já nas poesias dos álbuns "urbanos", como é o caso do "Sinal Aberto",  estão os relatos pessoais em primeira pessoa, portanto, relatos de experiências próprias dele e dos parceiros dele, que são o Fernando Dacko, o Odorico Ribeiro, o Joãozinho Gomes, o Antônio Moura. "É um álbum confessional que traz ao público um eu-lírico que reflete sobre os próprios dilemas, desafios e paixões", salienta Ju. 

Ousadia

Entre as faixas do álbum, a que mais a emocionou Ju Abe foi "Onça Braba", feita em homenagem ao líder do MST e amigo próximo Ulisses Manaças, morto em agosto de 2018. "Ele contava que no dia em que Ulisses se foi, ele recebeu a visita de um passarinho que ficou lá com ele, brincando com ele durante muito tempo. Ele tomou aquilo como um sinal da natureza, de que Ulisses fizera sua passagem em paz e escreveu essa canção".

"Os versos de 'Onça Braba', assim como 'Vôo do Cantador' (parceria com Antônio Juraci Siqueira em homenagem ao também falecido Ruy Baldez, integrante da primeira formação do Arraial do Pavulagem, do álbum 'Nômade'), trazem reflexões dele sobre a vida após a morte muito fortes, e o eu-lírico é ele conversando com estes amigos que partiram, ou seja, é uma comunicação com o outro plano. Todas as vezes que escuto e canto, a sensação que tenho é que ele está me sentindo no outro plano, pois são mensagens projetadas para a outra vida que ele eternizou com sua voz. É muito forte, parecem orações fúnebres, diálogos com pessoas que não estão mais aqui e, portanto, não tem como não sentir ele", diz Ju Abe. 

Rafael Lima foi um artista ousado e militante, buscando justiça na Amazônia, no Brasil. Ju Abe destaca essas características como as principais contribuições do compositor para a cena cultural. "Duas foram as contribuições. Primeiro foi essa estética, mais presente nos álbuns 'Arribadas' e 'Apuí', que é uma mistura de jazz fusion com a música amazônica tradicional e contemporânea, inspirada também nos moldes da Tropicália e do rock internacional da era hippie, que realmente foi algo diferente. Uma sonoridade de fato amazônida com uma roupagem muito ousada, que se desprendia totalmente de todas as formas impostas pela indústria cultural e cujo único princípio era a 'arte pela arte'. Foram essenciais pra construção desta estética pessoas como Walter Freitas, Albery Albuquerque e os integrantes da banda Sol do Meio-Dia, mestres de quem ele bebeu da fonte". 

"Outra contribuição foi a militância. Grande parte de suas canções são homenagens ao MST, com dois registros em melodia ('Sagas' e 'As Pedras Gritarão') de um dos maiores acontecimentos da história do Pará - o Massacre de Eldorado dos Carajás, e inúmeros outros versos que contam a história e as lutas do movimento. O disco '500 years, so what (500 anos de quê?)?' foi lançado no ano em que o Brasil preparava uma grande comemoração dos 500 anos do 'descobrimento', no qual ele contestava esse 'descobrimento' muito antes da expansão dos estudos decoloniais”, detalha a cantora. 

Outras canções denunciam injustiças, descasos, tragédias, como a privatização da Vale do Rio Doce, o assassinato do indígena Galdino, a destruição da mata na região sul do Pará, as chacinas do povo preto nas periferias de Belém. É uma obra com grande registro sóciopolítico do Pará e do Brasil, como frisa Ju.

"Sinal Aberto" traz ao público um compositor genuíno de Belém do Pará, autodidata, de timbre personalístico e forte e jeito de compor descompromissado, que conheceu bem suas raízes e buscou expressá-las de forma verdadeira em melodias que muitas vezes remetem à cantoria, à MPB e à música tradicional paraense, mas arranjos que dialogam com estruturas que vão do jazz-fuzion ao reggae, como diz Ju Abe. 

"Mas, além disso, o álbum retrata um ser humano cujo lado passional e jovem foi um dos motores de sua vida e obra, e o qual ele conscientemente buscou preservar até os últimos dias, pois sabia que este lado seria o que preservaria a sua conexão íntima e particular com o público. Ele não queria ser o artista que 'ensina' ao público, mas sim o que está intimamente conectado com o público". 

"Foi um ser humano cujo 'coração' era 'muito moço' onde só cabia 'espaço pra paixão' como diz o verso da canção que dá título ao álbum, e isso o público verá de uma forma nunca antes vista. Mas o público também pode esperar muita denúncia e grandes participações, como a voz de Nilson Chaves no carimbó raiz 'Preta' e a poesia impactante de Joãzinho Gomes em 'Gotas de Sol', adianta Ju Abe, emocionada ao lembrar de Rafael Lima, trovador amazônico cuja biografia começa a ser escrita pelo jornalista Ismael Machado. 



 

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