Povo Guarani conta sua história de resistência em filme vencedor do 33º FCV
O diretor do filme, Marcelo Guarani (Wera Djekupe) conta como foi essa odisseia que arrebatou prêmios no Festival de Cinema de Vitória (ES): Melhor Longa e Melhor Contribuição Artística
“A gente vive isso!”. Ao contar como se deu a construção do filme “A Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywareté” (ES), vencedor do Troféu Vitória de Melhor Filme e de Melhor Contribuição Artística, entre os longas, no 33º Festival de Cinema de Vitória, o diretor Marcelo Guarani (Wera Djekupe) compartilha com o público um processo que traduz bem a necessidade de respeito entre as partes para se construir uma convivência e, então, obter resultados. “Na verdade, a história já está na nossa mente, né? No nosso coração, né? E a gente vive isso. A gente vive essa conexão com a espiritualidade, com respeito aos mais velhos, ouvir os mais velhos e tudo mais. E aí, o que a gente precisava mesmo era de roteirista para escrever e tal”, relata. Eles resolveram a questão com a ajuda da companheira dele, Fernanda Carneiro Moraes (Fernanda Keretxu, roteirista e co-produtora), com Ricardo Sá (produtor) e outros amigos e amigas.
Entretanto, em geral, na sociedade brasileira, ainda não se tem essa determinação para que os direitos dos povos indígenas sejam respeitados. E o filme “A Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywareté” trata justamente disso. Aborda a jornada de 35 anos da líder xamânica guarani Tatatxi Ywareté, que caminhou com seu povo do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo em busca da "Terra Sem Males". O longa documental trata da memória familiar, espiritualidade e resistência indígena.
Marcelo Guarani conta que foi batizado por Tatatxi Ywareté (Fumaça Sagrada em guarani) e chamava o companheiro dela de bisavô. Ele conta que nasceu na própria caminhada.
Na caminhada para a Terra Sem Males, quando a bisavó de Marcelo chegou do Rio Grande do Sul ao litoral de Aracruz, no Espírito Santo, encontrou indígenas Tupiniquim nessa área. Ocorre, porém, que transcorria a época da Ditadura Militar, e o SPI (Serviço de Proteção aos Índios) levou muitos guaranis e tupiniquis, inclusive, Tatatxi, para uma fazenda em Carmésia, em Minas Gerais, onde o Governo mantinha uma espécie de presídio de indígenas de diferentes etnias. Nesse caminho, foi que Marcelo Guarani nasceu, sendo inclusive, registrado em Carmésia (MG). Aos 8 anos de idade, voltou para o Espírito Santo.
Tatatxi teve a estratégia de voltar com o povo dela – só depois de todos voltarem para o Espírito Santo, ela deixou o local, fugindo da vigilância, como conta Marcelo.
Em solo capixaba, guaranis e tupiniquins juntam-se para lutar pela demarcação da terra. Essa luta toda, Marcelo Guarani decidiu contar em filme para que não fosse esquecida. O filme foi construído com a Lei Paulo Gustavo e da Secretaria de Estado de Cultura do Espírito Santo.
Memória na tela
“Eu sempre gostei de cinema, sempre vi filmes. Eu gostava muito de viajar nas histórias do cinema, na ficção, filmes de outros países, filmes brasileiros. E eu sempre tive um sonho de fazer alguma coisa. Por que não fazer um trabalho importante sobre o meu povo, né? É uma longa história, as memórias ficam gravadas em nossa cabeça, porque as histórias do Povo Guarani são repassadas por meio da oralidade. Então, fomos pesquisando, gravando e montando aos poucos esse filme. Foram dois anos, mais ou menos, para a gente deixar o filme como ele ficou”, ressalta Marcelo. Os anciãos indígenas foram ouvidos pela equipe de técnicos para se montar o trabalho cinematográfico.
A bisavó do cineasta, Tatatxi Ywareté, nasceu no Paraguai, na divisa com o Brasil, e o povo dela sofreu muito por causa da questão da terra, diante de grileiros e invasores em geral. A ponto de os guaranis sediados no Brasil buscarem refúgio em seus pares de mesma etnia no Paraguai, e, assim, Tatatxi nasceu nesse país vizinho.
Ela nasceu com o dom da cura, de comunicação espiritual. Depois, ela voltou ao Brasil, morando no Rio Grande do Sul. ‘E aí ela teve a revelação de que tinha que caminhar”, conta Marcelo. O Povo Guarani, desde antes da colonização, há milhares de anos, já fazia essa passagem (travessia) para a ‘Terra Sem Males” (mundo celestial e ainda o espaço onde se pode viver em paz). Daí, a caminhada do Povo Guarani contada no filme.
Uma preocupação relacionada à intenção da equipe do filme é a de conscientizar indígenas e não indígenas acerca da necessidade de serem preservados conhecimentos de conexão espiritual com a floresta, com o Grande Criador, com os animais, com a água, com o tempo das coisas, em contraste com a “invasão’ da televisão, celulares, internet e outros produtos com um impacto muito grande dentro das comunidades indígenas.
“Pensamos: vamos gravar algo que é da cultura, para que a gente conscientize os jovens e as crianças da comunidade a manter o ritmo e a essência guarani. Então, gravamos o depoimento da Tatatxi Ywareté, reunimos fotos, focamos na história, no que aconteceu, para que os jovens, hoje, entendam que estamos aqui por causa dela, da revelação, da caminhada, que não é uma coisa qualquer”, destaca Marcelo Guarani. “Um povo que não guarda memória, não tem história para contar”, assinala.
Para Marcelo, “é muito melhor um indígena contar a sua própria história que mandar outras pessoas, que não fazem parte do dia a dia dos povos indígenas, gravarem ou então escreverem algo”. “Então, por que não o próprio indígena fazer esse papel de cuidar da memória do povo?”.
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