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Clarice Senna apresenta a vanguarda amazônica em seu álbum de estreia

Com produção de Dante Ozzetti e participações especiais de importantes instrumentistas brasileiros, o “A Boca no Mundo” revela uma sonoridade sofisticada que transforma a linguagem assistiva em expressão artística e amplia os horizontes da música contemporânea

O Liberal

Na próxima quinta-feira (18), aos 44 anos, a cantautora paraense Clarice Senna lança "A Boca no Mundo", seu álbum de estreia. O lançamento, que para alguns pode soar tardio, na verdade escancara a desigualdade de oportunidades que ainda atravessa o fazer cultural de artistas com deficiência visual.

O disco celebra a união de grandes nomes do mercado fonográfico em torno de um ideal de sonoridade e reparação artística. A produção musical e os arranjos são assinados pelo premiado músico Dante Ozzetti. O projeto ganha ainda mais peso com a engenharia de som e mixagem de Beto Mendonça, do lendário Estúdio 185, e a masterização luxuosa de Carlos Freitas (Classic Master EUA), um dos profissionais brasileiros mais laureados no Grammy Latino na categoria.

‘’A Boca no Mundo’ ecoa uma sonoridade orgânica e sensível justamente porque reflete a linguagem de composição da artista e traz essas referências para os modos de produção do álbum que foi gravado em estilo de vivência musical, ao longo de um ano e dois meses de trabalho, inteiramente tocado pela mesma banda base e gravado em um único estúdio, seguindo o exemplo de grandes obras e artistas da MPB.

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A banda é formada por Dante Ozzetti nos violões, Vitor Arantes nos pianos e teclados, Beatriz Lima nos contrabaixos, Jabes Felipe nas baterias e Franci Oliver nas percussões.

O álbum transita por diálogos finos com a saúde mental, o feminino, a natureza e a poética Def, amparado por uma banda de excelência técnica e participações especiais de grandes nomes da música instrumental brasileira, como Bocato, Alexandre Ribeiro, Mário Manga, Cássio Poleto e Fábio Peron.

Conhecida como “compositora de boca”, Clarice Senna utiliza a voz como instrumento e define sua criação musical como um “instrumental com letra”. Em diálogo com Dante Ozzetti e convidados, constrói uma sonoridade em que voz e instrumentos se entrelaçam, reafirmando o desejo de colocar “A Boca no Mundo”.

Clarice, que convive com a Doença de Stargardt, transforma a linguagem assistiva em instrumento artístico, desafiando o olhar normativo e expandindo experiências estéticas por meio da Estética do Acesso.

‘’O cenário musical é um sistema que se comporta como uma floresta que para se manter viva depende da biodiversidade. É bom para a diversidade da música brasileira o ponto de vista de uma mulher compositora Def propondo uma vanguarda amazônica’’, define Clarice.

Composto por 10 faixas autorais, o trabalho transporta o ouvinte para um ambiente profundamente sensorial e sofisticado. De acordo com Dante Ozzetti, as composições de Clarice funcionam como uma sucessão de portais que revelam ritmos, melodias e harmonias submersas, jogando luz sobre a vanguarda da musicalidade brasileira amazônica contemporânea. Os arranjos foram desenhados para traduzir essas intenções estruturais.

A faixa “O Grão Pará” ocupa um lugar especial no álbum por homenagear o pai de Clarice, o cantor e compositor paraense Chico Sena. A canção dialoga com “Flor do Grão-Pará”, clássico de sua autoria que se tornou um dos maiores símbolos musicais de Belém, evocando a saudade e o amor pela capital paraense.